COLUNA DO PE. ZÉ
Como pedagogo, não posso me furtar ao dever ético de refletir sobre os rumos que a educação doméstica e escolar têm tomado nos últimos tempos. Vivemos em uma sociedade onde o conceito de liberdade infantil muitas vezes é confundido com ausência de limites. Quero aqui, com todo respeito àqueles que defendem as bases da educação positiva, expor minha preocupação com o excesso de permissividade que vem fragilizando nossas crianças e, por consequência, formando adultos mimados, inseguros, sem resistência emocional e com baixíssima tolerância à frustração.
Nada tenho contra o diálogo, a escuta ativa e a valorização das emoções da criança. Pelo contrário, reconheço os méritos de uma educação que saiba olhar para o desenvolvimento emocional de forma integral. Mas o que me inquieta é a distorção que muitos pais e educadores estão fazendo desse conceito. Educação positiva não pode ser traduzida como a incapacidade de dizer “não”, nem como a obrigação de discutir todas as regras ou permitir que a criança decida, aos seis ou sete anos, se vai ou não à escola, se vai ou não à Igreja, se faz ou não faz suas obrigações.
Perdoem-me os mais sensíveis, mas recorro aqui ao pensamento filosófico de Hegel, quando ele afirma que ninguém pensa com a própria cabeça de forma isolada. Somos seres históricos e sociais. Aprendemos com os outros. O saber não brota do nada. A formação da consciência passa, necessariamente, por processos de transmissão, de mediação, de imposição de limites e de reconhecimento da autoridade. A criança não nasce pronta. Não nasce sabendo o que é melhor para si. Precisa de direção, de correção e, sim, de certa dose de frustração.
Na vida, há momentos em que precisamos ser duros, ainda que com o coração apertado. Como um médico que diante de um paciente fumante, à beira de um câncer, não pode perder tempo em diálogos filosóficos sobre liberdade de escolha. Ele precisa dizer, com toda a clareza: “Ou você para agora, ou enfrentará as consequências.” A vida, meus amigos, não é um campo aberto de infinitas opções em que tudo pode ser negociado. Há coisas que precisam ser compreendidas, e outras que precisam ser obedecidas. Nessa vida, tem quem entende e tem quem precisa entender.
Infelizmente, estamos criando gerações de crianças que não passaram pelos pequenos “arranhões” da vida, e por isso não estão preparadas para os grandes embates que virão. Estamos cercados de jovens que sabem se superar nas redes sociais, com frases feitas de autoajuda, mas que, na prática, não sabem enfrentar uma crítica, um “não”, um fracasso, uma perda. A cultura do “tudo pode”, do “decidimos juntos” e do “vamos dialogar até você concordar comigo” está cobrando um preço altíssimo.
Aqui em Pedreiras, o reflexo disso já é visível. Filhos decidindo se vão ou não à escola. Se vão ou não à Igreja. Se obedecem ou não as regras básicas de convivência familiar. Pais reféns do medo de frustrar os filhos. Educadores, padres, catequistas, todos com receio de exercer sua autoridade, por medo de serem rotulados como autoritários ou retrógrados.
Defendo, sim, uma educação com escuta, com afeto, com olhar sensível. Mas também defendo, com igual força, a necessidade da diretividade. Uma diretividade que pode e deve ser questionada em alguns momentos, mas que jamais pode ser diluída ao ponto de perder sua essência formadora.
Educar é também ensinar que a vida tem regras, limites, e que nem tudo será sempre do jeito que a criança quer. Ser pai, ser mãe, ser educador, ser padre… é também ter a coragem de sustentar um olhar firme, uma voz segura e um posicionamento claro. Não podemos ceder ao apelo de uma geração que sabe muito de superação virtual, mas pouco de enfrentamento real.
Formemos homens e mulheres que saibam, não apenas superar-se nas redes sociais, mas enfrentar-se diante da vida. O mundo precisa menos de discursos bonitos e mais de caráter forjado na verdade, na responsabilidade e na coragem de viver com ética e firmeza.






