Coluna do Barrinha
Embora minha formação seja em Geografia, é recorrente, especialmente no início do ano letivo, a abordagem de temas relacionados à Astronomia, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio. Contudo, é fundamental delimitar os campos de conhecimento: a Astronomia não constitui objeto de estudo próprio da Geografia. O foco analítico da Geografia é o espaço geográfico, entendido conforme o Geógrafo Milton Santos, como sendo “um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. Ele define o espaço como uma “totalidade” dinâmica, onde formas (naturais ou artificiais) e ações sociais (trabalho, política, relações) se inter-relacionam, criando um “território usado” e em constante transformação. Nesse sentido, o tratamento de conteúdos astronômicos pela Geografia deve ocorrer de modo a conduzir na compreensão da dinâmica da Terra e de seus movimentos, como a rotação e a translação. Esses processos são essenciais para explicar fenômenos geográficos fundamentais, como a sucessão dos dias e das noites, as estações do ano, a variação climática e a organização das atividades humanas no espaço. Assim, conhecer a dinâmica terrestre não desloca o objeto da Geografia, mas o reforça, ao fornecer bases para a compreensão das interações entre os sistemas naturais e as práticas sociais que configuram o espaço geográfico.
Diante do contexto acima, é frequente que estudantes e o público em geral, ao identificarem o profissional como Professor de Geografia, direcionem a ele questionamentos relacionados a fenômenos astronômicos, tais como os movimentos da Terra, as fases da Lua, os eclipses e até mesmo a origem do universo. Dependendo do nível de escolaridade, surgem também indagações de caráter hipotético, como: o que ocorreria se a Terra deixasse de se movimentar? Tais questionamentos, embora extrapolem o objeto específico da Geografia (repito), revelam a importância de conhecimentos básicos sobre a dinâmica terrestre, uma vez que contribuem para a compreensão de processos fundamentais que se manifestam no espaço geográfico e influenciam diretamente a organização da vida na superfície terrestre.
Nos últimos dias, não poderia ser diferente, a atenção global voltou-se para a nova missão da NASA à Lua, denominada de “Missão Artemis II”, iniciada no dia 1º de março de 2026. A missão marca um momento histórico, pois pela primeira vez em mais de 50 anos, quatro astronautas se lançaram rumo à lua para um voo rasante que os levaram aonde nenhum humano esteve desde a década de 1970. Nessa jornada, portanto, os astronautas passaram pelas “costas” do nosso satélite natural, ou seja, pela face que fica escondida para quem está aqui na Terra. Mas por que fica “escondida”?
Porque a Lua leva exatamente o mesmo tempo — cerca de 27,3 dias — para completar seus movimentos de rotação (em torno de si mesma) e translação (ao redor da Terra). Lembrando que a rotação terrestre demora cerca de 24 horas. Isso faz com que aqui da Terra sempre vemos a mesma face do satélite. Para melhor compreender essa dinâmica do “lado oculto” da Lua, assista ao vídeo clicando no QR-Code abaixo.
Mas, o que poucos sabem é que o lado oculto da lua já era conhecido. O programa lunar chinês, conhecido como Chang’e, em homenagem à deusa da Lua na mitologia chinesa, desde 2007 lança missões orbitais. Em 2013, a missão Chang’e 3 realizou o primeiro pouso suave na Lua desde a missão Luna 24 da União Soviética em 1976. Já em 2019 a missão Chang’e 4, realizou o primeiro pouso suave no lado oculto da Lua, uma façanha sem precedentes que exigiu a implementação de um satélite de retransmissão, Queqiao, para manter a comunicação com a Terra. Nesta missão, ao contrário da missão Artemis II americana, a comunicação dos astronautas chineses com a Terra não foi cortada. Outra poliposition chinesa foi o hasteamento da bandeira nacional, a primeira bandeira de um país no lado oculto da lua.
Mas foi a missão Chang’e 6, realizada em 2024, a mais ambiciosa, pois trouxe para a Terra as tão desejadas amostras do lado oculto da Lua, principalmente rochas vulcânicas. É importante dizer que as missões chinesas não foram tripuladas, e sim compostas de sondas robóticas automatizadas. Até o momento, nenhum país realizou missões tripuladas com pouso no lado oculto da Lua. As missões tripuladas lunares somente ocorreram no lado visível, como no programa NASA dos Estados Unidos entre 1969 e 1972. Feitas essas considerações, é verdade que a missão Artemis II marcou um momento histórico ao realizar a maior aproximação da Lua por humanos desde a Apollo 17, em 1972, ao mesmo tempo em que trouxe novos detalhes sobre o enigmático lado oculto do satélite natural — região que não pode ser vista da Terra e que permanece central para os planos de exploração futura.
O que está em jogo com as missões norte-americana e chinesa?
Sem dúvidas, nota-se que há uma nova corrida espacial em curso que não é só geopolítica como no passado, à época da guerra fria. A questão que se coloca agora não é só quem chega primeiro, mas quem primeiro terá as informações necessárias sobre as potencialidades minerais da Lua e seus desdobramentos científicos e tecnológicos neste século XXI. Agora, verifica-se que além da competição internacional (aqui na Terra), há uma posição de cooperação entre as nações pioneiras. Os chineses planejam mais duas missões, Chang’e-7 e Chang’e-8, até 2030, que lhes darão as informações necessárias para o estabelecimento da presença humana de modo permanente na superfície lunar. Enquanto isso, os Estados Unidos planejam executar um plano semelhante em 2028. Que venha Marte!!!!!
Diante desse cenário, torna-se evidente que a atual corrida espacial ultrapassa os limites da curiosidade científica e da exploração tecnológica, inserindo-se diretamente nas disputas geopolíticas do século XXI. A Lua, nesse contexto, deixa de ser apenas o nosso satélite admirado sobretudo nas noites em que se apresenta na sua fase cheia, mas se constitui em objeto de investigação astronômica e território estratégico, potencialmente rico em minerais raros — como o gás hélio-3 — e outros recursos fundamentais para a transição energética e o desenvolvimento tecnológico. O hélio-3 pode atingir até US$ 20 milhões por quilo no mercado internacional. Explica-se o interesse.
As recentes iniciativas dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, indicam uma reorientação das políticas espaciais voltada à afirmação de protagonismo econômico e estratégico frente à crescente presença chinesa. Contudo, esse reposicionamento também serviu para deslocar o foco de impasses e desgastes acumulados pelos EUA na sua guerra contra o Irã, onde intervenções e retóricas beligerantes não estão produzindo os resultados esperados.
Nesse sentido, a corrida lunar pode ser interpretada como uma extensão do próprio espaço geográfico terrestre, no qual Estados nacionais buscam ampliar sua capacidade de controle sobre recursos e territórios, ainda que agora em escala extraterrestre. Assim, compreender essas dinâmicas exige não apenas um olhar astronômico, mas, sobretudo, uma leitura geográfica, capaz de revelar como poder, território e recursos continuam sendo elementos centrais na organização do mundo contemporâneo.
Por José Edson da Silva Barrinha, professor de Geografia do IFMA e doutorando em Políticas Públicas da UFPI.







