Operação nos EUA reacende buscas por irmãos maranhenses em meio a contradições oficiais


Nos últimos dias, muitas especulações surgiram, reacendendo o caso das crianças Allan Michael e Ágatha Isabelly, desaparecidas na comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos, na zona rural de Bacabal, desde 4 de janeiro. Mas o que motivou essa movimentação e o que se sabe até agora? 

163 crianças desaparecidas encontradas em operação dos Estados Unidos

Em 25 de agosto, o procurador-geral da Flórida (EUA), James Uthmeier, anunciou os resultados da operação Statewide Shield, que resultou na recuperação de 163 crianças e jovens desaparecidos. A ação durou cinco dias e se estendeu por vários estados norte-americanos, alcançando até mesmo âmbito internacional. As vítimas tinham entre 2 meses e 17 anos de idade. 

As crianças não foram encontradas em um único local. Focada em identificar, localizar e resgatar os desaparecidos, a operação estendeu-se para além da Flórida, abrangendo cidades como Pensacola, Tallahassee, Jacksonville, Orlando, Tampa, Fort Myers e Miami. Fora dos Estados Unidos, países como Canadá, México, Itália e o próprio Brasil também integraram a força-tarefa. Contudo, não foi informado, até o momento, se nesses outros locais foram resgatadas crianças além das 163 já confirmadas. 

Entre os menores localizados, há vítimas de diversos tipos de violação, incluindo negligência, exploração, disputas de custódia, exposição a atividades criminosas e tráfico humano. No entanto, dados mais específicos sobre os casos, como o número exato de vítimas de tráfico humano, não foram detalhados pelas autoridades. 

Crianças desaparecidas em Bacabal poderiam estar entre as crianças resgatadas?

Desde 4 de janeiro, Allan Michael, de 4 anos, e Ágatha Isabelly, de 6, estão desaparecidos da comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos, na zona rural de Bacabal (MA). Oito meses após o ocorrido, as investigações seguiam sem atualizações oficiais e já não contavam com a mesma atenção midiática das semanas iniciais.

Após a divulgação da operação norte-americana,  fotos começaram a circular nas redes sociais apontando semelhanças físicas entre Allan Michael e uma das crianças encontradas. Diante disso, na terça-feira (8), a Prefeitura de Bacabal teria solicitado à Polícia Federal (PF) a checagem da possibilidade de os irmãos estarem entre os resgatados. 

O pedido visava cruzar os dados de Ágatha e Allan com os das crianças localizadas na Flórida, além de verificar se os nomes dos irmãos constavam nos cadastros internacionais de pessoas desaparecidas. Na quarta-feira (9), a mãe das crianças, Clarice Cardoso, compareceu pessoalmente à sede da Superintendência da PF em São Luís, acompanhada de sua advogada, Nathaly Moraes, para formalizar a solicitação. 

Após a reunião, a advogada divulgou nota à imprensa revelando haver indícios de que o menino de 4 anos resgatado possa ser Allan. A dificuldade no reconhecimento se deve à falta de dados digitais e genéticos tanto do garoto desaparecido quanto da criança localizada. Por isso, seria necessário que a Interpol coletasse o material genético da mãe, Clarice, mediante autorização formal, para realizar o cruzamento de dados. 

“Existe um indicativo de que essa criança possa ser o Allan. O material genético da mãe deve ser coletado para que seja feito o confronto com o material genético da criança que está nos Estados Unidos” disse a advogada Nathaly Moraes.

Um detalhe que tem chamado a atenção, no entanto, são as divergências nas informações oficiais. Logo após a reunião, a advogada Nathaly informou que a PF teria comunicado que os dados das crianças não haviam sido incluídos nos alertas da Interpol (difusões amarela e azul) por falta de retorno da Polícia Civil. Segundo ela, esse trabalho estaria sendo feito apenas agora, com o auxílio da organização internacional.

Essa declaração contrasta com o que foi divulgado pelo governador Carlos Brandão em suas redes sociais. Em nota, ele afirmou que as crianças já estão na lista da Interpol há meses.

Boa parte dessa confusão informacional também se deve à mídia e às redes sociais, que têm compartilhado dados não confirmados oficialmente desde o início do caso, inclusive associando a apuração a imagens geradas por inteligência artificial.

Para somar aos desencontros, o delegado-geral da Polícia Civil do Maranhão, Augusto Barros, declarou que não existe pedido formal de cooperação internacional (nem mesmo por parte da PF) para identificar crianças maranhenses entre as resgatadas na operação estadunidense. O que teria ocorrido foi apenas uma comunicação com o compartilhamento de fotos dos irmãos.

A Polícia Federal, em nota oficial, informou que não há crianças brasileiras encontradas pela operação: “segundo informações das autoridades norte-americanas, nenhuma criança brasileira está entre as 163 pessoas localizadas recentemente nos Estados Unidos no âmbito da Operação Statewide Shield.”

Em resposta, a advogada Nathaly Moraes esclareceu em nota oficial que essa informação não foi oficialmente confirmada para a família ou para a representação legal, e que continuam aguardando os resultados do confronto genético que foi solicitado.

As sucessivas contradições no caso levantam o questionamento sobre o motivo de a família não estar sendo informada com clareza e riqueza de detalhes sobre o andamento das investigações.

Ainda assim, a localização dessas 163 pessoas não gerou esperança apenas para a família de Bacabal, mas também para outras que buscam o auxílio da Interpol no momento. É o caso de Edson Davi, de 6 anos, desaparecido em janeiro de 2024 na Praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e de José Arthur, de 2 anos, também desaparecido, desde 2 de março deste ano em Eldorado do Carajás, no Pará.

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