O STF no chão

OPINIÃO


Não é de hoje que a confiança dos brasileiros em relação às instituições da República se acha em estado de decomposição. Cada uma delas, a seu modo, parece se empenhar para que esse sentimento, que beira à repulsa, se agrave.

É arriscado dizer que chegamos ao ápice. A semana seguinte nos faz queimar a língua.

Justiça é uma palavra forte. Em um país de tantas carências, acalentávamos ainda a esperança de que não nos faltasse, quando dela, porventura, precisássemos. Mas, a cada vazamento, somos convencidos de que, no templo da justiça, interesses não republicanos parecem vigorar. O caso Master, como tantos outros, nos lembra que os Poderes, do jeito em que estão, não são tão diferentes da esquina mais próxima de casa.

O pudor está fora de moda, seja aqui, seja em Brasília. Se lá, supostamente, Vorcaro teria pago de ingressos a jatinhos para figuras do Judiciário e familiares, bem sabemos que, no chamado Brasil profundo, prefeituras, a título de exemplo, empregam parentes de vereadores em troca de apoio nas câmaras. O Executivo e o Legislativo, nos municípios, estão repletos de penduricalhos.

Falta, nesse país, vergonha, sensatez e bom senso. Espaços de poder, nas três esferas, são ocupados, em grande parte, por gente dissimulada. Nessa toada, as notícias se avolumam. É ministro do STF que senta com o presidente da República e com o do Senado para reatarem a relação política. É ministro do STF que viaja em jatinho de bandido, cujos fatos seguintes revelam a dimensão da relação. Deputados também fizeram o mesmo, mas eles nunca sabem de quem se tratava.

Vejam só o tamanho da sacanagem. O fim da jornada 6×1, que coloca o trabalhador no centro do debate, só foi pautado no Senado porque Alcolumbre e Lula fizeram as pazes, fruto de um acordo: votação do projeto tendo como contrapartida o apoio do petista à reeleição do senador.

Que confiança podemos ter em nossas instituições se questões que atravessam nossa vida estão alheias a interesses pessoais discutidos na escuridão?

Vai sobrar, nesse puxadinho República Federativa do Brasil, em quem confiar?

A crise do STF é mais um sintoma de uma estrutura apodrecida, que aprova a indicação de um advogado parça do presidente da República, do mesmo modo que abriu os braços para um indicado pelo presidente antecessor por ser terrivelmente evangélico. A Suprema Corte virou um clubinho de torcidas, com vínculos nada saudáveis com quem está ou pretende ocupar o poder. Do lado de fora, cada fandom espera que a corte balize, cegamente, suas vontades e tome decisões que representem a aniquilação de qualquer sinal de antagonismo.

Não sei se o STF sairá melhor desta crise. O caminho passa por trazer à luz a suposta relação entre Vorcaro, Alexandre de Moraes e ministros do STF. Passa pela mudança de relatoria do caso Master, já que André Mendonça não transpira imparcialidade, por nitidamente não tratar com o mesmo rigor e urgência o caso Dark Horse, que tem o filho do ex-presidente que o indicou para o STF no centro das suspeitas. Passa por punir, inclusive, assim como a golpista Débora do Batom, quem mancha o STF.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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