ENTRTEVISTA
O samba sempre foi mais do que som: é memória, identidade, é ancestralidade. No Maranhão, mais precisamente em Pedreiras, a cultura popular ainda resiste: nas comunidades, nos terreiros, nas praças, nas histórias contadas. Mas só resistir não é suficiente. É preciso ocupar, especialmente, outros espaços onde o conhecimento atravessa. Foi a partir dessa compreensão que pesquisadores acadêmicos da Faculdade de Educação São Francisco (FAESF), perceberam nesse gênero, uma poderosa ferramenta de educação.
Natalia Santana e Kleyton Kaykye, graduados no curso de Pedagogia, com orientação do professor, Gilberto Sousa, viram seu trabalho de monografia virar livro. ‘‘A música popular brasileira como ferramenta pedagógica: o samba no desenvolvimento sociocultural e cognitivo de crianças no ensino fundamental”, conecta escola, cultura, saber popular e diálogo ao cotidiano de estudantes.
Conversamos com Natália e Gilberto, que compartilharam os caminhos dessa pesquisa, os desafios de levar o samba para o ambiente pedagógico e o impacto sociocultural e cognitivo dessa proposta no ensino escolar. Mais do que um trabalho acadêmico, o livro nasce como um gesto de valorização da cultura e de defesa de uma educação que dialogue com a realidade dos estudantes, reconhecendo o território, a história e os sons que formam quem eles são.

Entrevista com Natalia Santana, autora da pesquisa, licenciada em Pedagogia pela Faculdade de Educação São Francisco (FAESF):
O Pedreirense: Por que escolher o samba como objeto de estudo e pensar nele como uma ferramenta pedagógica?
Natalia Santana: Na verdade, o maior incentivo foi a busca por metodologias inovadoras, justamente por entender e vivenciar nos estágios durante o curso, que as crianças estão cada vez mais dispersas, não tem aquele interesse. Então buscar metodologias inovadoras para ter essa atenção, para conseguir alcançar o engajamento do aluno dentro da sala de aula com propostas mais dinâmicas e lúdicas também foi o principal.
OP: Como o tema foi pensado?
NS: Estudando, vendo a importância da musicalização na sala de aula, tanto com criança quanto adolescente, a gente pensou nessa pesquisa justamente para trazer uma realidade diferente. Às vezes o samba é muito marginalizado, mas ninguém entende o contexto histórico por trás do ritmo. Então, a pesquisa partiu do “e se…”, e desse “e se..” deu tudo certo.
OP: Para você, o que o samba representa na construção da identidade cultural brasileira?

NS: Eu acredito que por ser um ritmo enraizado e genuinamente, até então, brasileiro, ele atua justamente nessa construção por diversas formas. por você olhar e se sentir representado, tanto em uma baiana, em uma escola de samba, e até aquelas pessoas que não curtem tanto o histórico da escola de samba, mas se sentem representados numa letra de um samba, numa canção. Então essa busca pela identidade, reconhecimento, você vê aquele cantor, aquele autor… e se identificar e pensar, nossa, a história de vida dessa pessoa se parece com a minha.
OP: No livro, você afirma que o samba pode ser uma poderosa ferramenta pedagógica. Como isso acontece na prática em sala de aula?
NS: Bom, na prática, a nossa pesquisa propõe, e o livro também exemplifica, o uso do samba aplicado em matérias e disciplinas diferentes. Vamos supor, a gente poderia estar levando para dentro da sala de aula a produção de rodas de samba, justamente para inserir o aluno com aquele contexto. Tanto os alunos que já conhecem o ritmo quanto os alunos que ainda não conhecem. Instrumentos musicais também são levados para a sala de aula. Oficinas de músicas também para os alunos conseguirem identificar, saber o que é um pandeiro, saber o que é um cavaquinho. Então, o samba pode ser usado de uma forma interdisciplinar dentro das salas de aula.
OP: Você cita o estímulo desse gênero às habilidade sócio emocionais de crianças. Você poderia dar exemplos práticos disso? “
NS: Na questão do sócio emocional, além do cognitivo, das habilidades e competência, o socioemocional entra justamente com o que eu falei anteriormente, da questão da identificação, de você ouvir, às vezes você não conhece a letra do samba, mas o ritmo daquela música, a melodia, acaba te criando laços, memórias afetivas, e até a identificação mesmo na questão da letra, uma realidade que se parece com a sua. Então o sócio emocional, principalmente na era que a gente vive, que é a era digital, e às vezes está sendo deixado de lado, essa construção do sócio emocional é um dos pontos mais importantes que a gente traz na nossa obra.
OP: O livro também destaca a valorização da cultura afro-brasileira através do samba. Por que essa discussão ainda é tão necessária na educação?
NS: Bom, essa discussão é necessária porque a gente sabe que existem leis que inseriram a obrigatoriedade do ensino. Mas, porém, quando a gente vai, a teoria é diferente da prática. E esse assunto, por mais que várias pessoas acham que sempre está em alta, mas não. Pode estar em alta nas mídias, mas dentro do contexto escolar ainda é deixado de lado, algo que não é para acontecer. Então a gente buscou na obra justamente trazer e reforçar cada vez mais a importância do estímulo também e do reconhecimento, não só das nossas raízes, mas das raízes também de afrodescendentes.
OP: Descreva como foi o processo de pesquisa, as fontes, referências que você utilizou.
NS: Bom, a gente, no início teve muita dificuldade para encontrar até a questão de bases teóricas, pelo tema não ser tão publicado. Então a gente fez pesquisas nos periódicos acadêmicos, Google, escola e também buscamos autores que tratam do samba em outro contexto, até para surgir essa questão da identificação e como a gente poderia aplicar outros contextos dentro do contexto educacional. A gente sentava e debatia, separava o que filtrava na verdade que poderia ser inserido dentro do contexto educacional e o que não poderia e assim com muita dificuldade. Hoje é o livro, para justamente outros autores, outros estudantes não terem a mesma dificuldade que a gente teve por buscar referência.
OP: Você esperava que essa pesquisa viraria livro?
NS: Na verdade, foi uma grande surpresa. Não só pra mim, mas pra minha dupla também, que é o Kayky. Sabíamos do impacto que este trabalho ia causar, dentro e fora da instituição. Mas a gente não tinha essa dimensão que ia alcançar o âmbito que ele alcançou. Então, acho que é tão gratificante, não só para a gente, mas também para o nosso orientador, que foi… Foi, na verdade, a peça principal. Porque eu acredito que sem orientação a gente não chegaria onde a gente chegou. Então é gratificante para a gente, como alunos, para ele e para a instituição também, consequentemente.

OP: Que mudanças você espera que esse livro provoque na prática dos professores?
NS: Acredito que a partir do momento que um educador se disponibilizar a pegar a obra, a estudar a obra, ele vai passar a olhar para o samba e também para a música popular de uma maneira diferente. e introduzir ela dentro das aulas, independente da faixa etária, independente do ano que seja utilizado a nossa obra como referência.
9. O que esse livro representa na sua trajetória pessoal e acadêmica?
NS: Eu acredito que é um divisor de águas. Um divisor de águas enorme. Uma conquista que foi além do pessoal. Um sonho. Não só para mim, mas para a minha família, para os meus amigos, para as pessoas que acompanharam a minha trajetória até aqui. Então é algo que foi pensado e acredito que Deus deu… o discernimento e o momento perfeito para ser realizado. Então foi algo que foi sonhado e Deus nos permitiu realizar esse sonho.
10. Você tem alguma memória afetiva com o samba que influenciou sua pesquisa?
NS: Eu sou uma eterna apaixonada pela MPB e pelo samba em específico. Cresci ouvindo, indo para samba. Eu acredito que essa inserção da pessoa no ambiente, aquele que você se sente bem. Até porque a música é sempre uma referência positiva, independente do ritmo. Mas o ritmo samba, para mim… tem um significado enorme na minha infância, na minha adolescência, na minha fase adulta também, que eu pude vivenciar e inserir o samba em várias conquistas da minha vida. E essa é mais uma, além de muitas que ainda virão.
11. Como foi para você, enquanto estudante, ver sua pesquisa se transformar em um livro?
NS: Eu diria, na verdade, que eles não tenham medo e estejam sempre dispostos a abraçar o novo, a buscar, a não se contentar só com aquilo que é repassado em sala de aula, a ir além dos horizontes. Às vezes a gente ouve uma coisa na sala de aula, não entende e não busca o entendimento fora dela. Então a estagnação em querer aprender só dentro da sala de aula é um desafio e a gente precisa superar esse desafio cada dia mais. O que eu diria é isso, pesquisem, se esforcem, saiam da zona de conforto, porque a gente só consegue, só conquista quando realmente sair da bolha, sair da nossa zona de conforto e se permitir enxergar além daquilo que está na nossa frente.
Entrevista com Gilberto Sousa, orientador da pesquisa, Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Licenciado em Pedagogia pela Faculdade de Educação São Francisco (FAESF) e em História e Ciências Sociais pela Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES):
O Pedreirense: Quando a Natália e o Kayky apresentaram o tema da pesquisa, ali você já imaginava que o projeto poderia virar um livro?
Gilberto Sousa: Eu abracei totalmente a ideia, porque eu acredito que quando os nossos estudantes trazem aquilo que incomoda, aquilo que eles querem pesquisar, as problemáticas que eles encontram e as possibilidades de melhoria na área da educação, a gente deve abraçar, recebê-los com todo carinho. Então, quando essa ideia surgiu, a gente ficou eufórico sobre o que a gente poderia fazer, sobre todas as possibilidades. Então, a gente visualizava toda essa potência que essa temática traz.
OP: Você já imaginava que poderia se tornar um livro?
GS: A princípio a gente não imaginava que poderia se tornar um livro e com o passar do tempo, conforme o texto foi sendo construído, a gente foi percebendo o quão poderoso era aquilo que a gente estava construindo e que isso poderia, de fato, afetar outras pessoas de maneira significativa e a educação merece pesquisas como essa. E transformar esse texto tão incrível em um livro é uma maneira que a gente tem de fato de conquistar outras pessoas, de conquistar outros profissionais, outros estudantes, para que de fato eles consigam levar essa ferramenta tão poderosa, a música, o samba, para dentro da sala de aula e fazer com que o conhecimento consiga aflorar de maneira mais engajadora, de maneira mais prazerosa.
OP: Qual é o diferencial dessa pesquisa. É uma pesquisa considerada inovadora?
GS: É considerada uma pesquisa inovadora. E a gente foi bem a fundo. Pesquisamos as bases históricas, as raízes, para que, de fato, a gente conseguisse trazer, desde o princípio, da origem do samba até os dias atuais, de como ele pode, de fato, colaborar dentro da sala de aula. E essa pesquisa vai mostrar de maneira inovadora que o samba é sim uma ferramenta que pode ser utilizada dentro da sala de aula e que vai permitir, com certeza, que o conhecimento seja construído dentro desse ambiente. E a educação é isso, é uma educação que busca, é uma educação que sempre está preocupada com a inovação, E o samba, a partir do momento que a gente foi pesquisando sobre ele, a gente foi se apaixonando mais ainda. E o que a gente quer, de fato, é que outras pessoas também se apaixonem pelo samba e que os professores, na educação básica, na educação pública, consigam reconhecer a importância disso e que outras pesquisas também possam surgir, não é? Então a gente deu um pontapé inicial aí. Obviamente, outros profissionais também já falaram sobre o samba. E a gente parte aí levando toda essa potência, toda essa voz, dando ainda mais voz para isso, para que outras pessoas sejam ouvidas também.
OP: Como foi pra você orientar eles?
GS: Foi um processo muito bom, porque são dois estudantes muito engajados com o processo, então sempre que surgiu uma nova ideia, a gente construía ali nesses momentos de orientação, e quando esses momentos aconteciam, a gente tinha ali muitas ideias, eram colocadas, não é? E todas as que eram sugeridas por mim, eles acataram. Então isso é importante. Estudantes, pesquisadores, e eles foram se desenvolvendo com o passar do tempo, não é? Então a Natália, o Kaique, eu também, nós fomos pesquisando sobre o samba. E a partir daí eu acredito que a gente conseguiu construir muito conhecimento pra nós, não é? Conhecimento que está nos nossos textos e que podem alcançar outras pessoas. E a Natália e o Kaique, durante todas as reuniões que nós tivemos, os encontros, eles foram muito prazerosos, porque eram verdadeiras conversas que a gente tinha, nós trazíamos os autores, o que os teóricos já falavam sobre o assunto, pesquisas que tinham sido realizadas anteriormente, fotografias, vídeos, então tudo assim foi um verdadeiro descobrimento de um mundo novo.

OP: Você, enquanto professor, pesquisador, você acha que cultura popular deveria estar mais inserida no ambiente escolar?
GS: Com certeza. A cultura popular é necessária dentro do ambiente escolar até para que a gente consiga, de fato, conhecer a nossa identidade, conhecer quem nós somos. E quando a gente não utiliza isso dentro do ambiente escolar, a gente está negando essas nossas raízes, negando quem a gente é. A gente deixa de conhecer, de fato, essa nossa identidade, de construir essa identidade e a cultura popular é necessária dentro desse ambiente. Sem ela, a gente não tem como construir conhecimento dentro desse ambiente. Então, eu acredito muito, e esse livro é uma verdadeira obra de arte, porque ele traz tanta coisa incrível que os professores podem estar utilizando, que a gente fica encantado a cada parágrafo que a gente lê.
OP: Que mensagem você deixa aos estudantes e aos acadêmicos que desejam iniciar na pesquisa?
GS: Eu acredito que os estudantes, ali no princípio, quando eles começam, adentram o ambiente universitário, eles têm muito essa dúvida, não é? Será que é possível pesquisar? Ou às vezes nem conhece o que é a pesquisa, mas com o passar do tempo a gente verifica todo o poder de transformação que a pesquisa tem, de colaboração com a sociedade, consigo mesmo, com esse processo formativo do professor, no curso de pedagogia, por exemplo. Então a mensagem que eu deixo é perseverar, é continuar, é buscar conhecimento, é construir, é buscar também os pares, outros colegas, professores que apoiem as ideias e que de fato a partir disso todos nós possamos e vocês possam construir conhecimento. A partir daquilo que a gente consegue encontrar dentro da sociedade, dentro da educação, das escolas, partindo da nossa realidade. Então, que a partir do momento que você entre no ambiente universitário, no ambiente acadêmico, que você se torne sempre esse eterno pesquisador. Mesmo após a sua formação, que você continue a pesquisar, que você continue a contribuir com a sociedade, com a educação, porque eu acredito muito no poder que a educação tem e a pesquisa é uma ferramenta fundamental para que a gente consiga colaborar de maneira tão positiva como é o exemplo dessa obra que nós conseguimos construir aí no decorrer dessa trajetória acadêmica da Natália, do Kaique. E para mim, é muito importante enquanto pesquisador ver que nós temos estudantes, acadêmicos ali no ensino superior que abraçam ideias, que compartilham suas ideias e que a gente consegue aí construir coisas tão importantes como essa obra.
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