ENTREVISTA
Aos 19 anos e cursando Direito, Loredanna de Sousa Lopes percorreu, com outras centenas de pessoas, muitas delas jovens, as principais avenidas de Pedreiras, Maranhão, após o resultado do 2° turno da eleição presidencial brasileira. Agora com certo grau de alívio.
Longe de ser um caso isolado, Loredana espelha uma juventude, de esquerda ou não, que não aceita a coadjuvância política. Se no 1° turno foram eleitos candidatos e candidatas jovens para cargos estaduais e federais, essa mesma juventude foi determinante para uma reviravolta quando o cenário apontava a eleição de Flávio Bolsonaro.
Nesta entrevista concedida ao jornal O Pedreirense, Loredana, traz definições, inquietações e claridades sobre como entende a relação juventudes e política. Líder de sua turma acadêmica e integrante da União da Juventude Socialista (UJS), fala sobre os preços que paga por ser uma jovem que se posiciona. Cita desafios, mas também esperanças.
Jornal O Pedreirense: O que é política?
Loredanna: É difícil definir em uma palavra, mas eu acho que a política está inserida em tudo. Então, para mim, tudo é político. As relações pessoais, por exemplo, também são política.
OP: Em que momento você percebeu que não queria ser apenas uma observadora, mas também uma protagonista na política?
Loredanna: Acho que, desde criança, sempre tive essa vontade de participar, de falar. Sempre fui muito engajada. Depois que entrei no ensino médio, vi uma oportunidade. No ensino integral, por exemplo, temos vários tipos de grupos e projetos que transformam o adolescente em protagonista. Acho que esse impulsionamento do ensino integral me deu coragem para entrar e botar a cara a tapa, falar minhas opiniões, sabe? Sempre fiquei à frente, como líder de sala, por exemplo. Sempre gostei muito desse movimento. Isso me causa estresse (risos), mas eu gosto.
OP: Nesta eleição, de um lado e de outro, vimos uma participação muito intensa da juventude. Na sua opinião, o que motivou essa participação, independentemente dos lados? Por que a juventude participou tanto desta vez?
Loredanna: Acho que, por conta do cenário político, a juventude estava muito cansada, de todos os tipos de cenário. Eu não via mais jovens querendo falar sobre política. Sempre que conversava com alguém, era com aquele ar de: “Eu nem me importo, não quero saber, não quero conversar sobre isso”. Acho que, principalmente pelo discurso do Lula no Flow (Podcast), ele fez uma fala muito boa, incentivando os jovens a entrarem na política e serem o Lula do futuro. Mas também vimos que o outro lado não incentiva a juventude. Acho que ter um lado que incentivou fez com que os jovens fossem para as ruas e lutassem pelos seus direitos.
OP: Como você vê a relação dos partidos políticos com as juventudes? Elas são, de fato, ouvidas e acolhidas? Ou ainda existe aquela lógica de chamar os jovens durante o período eleitoral, mas não manter essa relação quando termina a campanha?
Loredanna: Eu não queria me comprometer muito, porque sou filiada ao movimento da UJS. Mas vejo que, pelo lado da UJS, existe um incentivo muito grande à juventude. Não sei como funciona em outros partidos. Acho também que outros partidos podem até utilizar a juventude como um meio de controle de massa. Por exemplo, vemos muito nas músicas que os partidos fazem para as campanhas, como o funk, uma maneira de se aproximar da juventude, mas não aquela coisa de incluir. Não vemos candidatos a vereadores jovens, não vemos candidatos a deputados jovens. Só vemos eles dizendo: “Vou fazer pela juventude”, mas não incluem a juventude nesses cargos. Acho que isso também é importante.
Fiquei muito feliz que a Ana Elisa foi eleita deputada federal. Ela tem 21 anos e eu fiquei pensando: “Meu Deus, será que eu entro na política também?”.
OP: O fato de ela ter conseguido ocupar esse espaço tão importante na política brasileira, que motivação traz para você? O que isso representa?
Loredanna: Representa que temos espaço e que somos capacitados. Acho que muitas pessoas olham para a Ana Elisa e fazem chacota dela porque é nova, porque acreditam que não é capacitada para aquele cargo. Não acho que devemos enxergar a juventude dessa maneira. Temos que vê-la como uma esperança.
Não podemos continuar na política apenas com esses nomes antigos, com pessoas de famílias tradicionais que já estão na política há muitos anos. Precisamos de pessoas jovens e novas, que, de preferência, não tenham sobrenomes políticos e que, de fato, se engajem em cargos políticos.
Aqui em Pedreiras, por exemplo, não vemos jovens entre os vereadores. Não vejo jovens engajados na política de Pedreiras.
OP: O que a juventude tem a oferecer, principalmente aquilo que as pessoas mais antigas que já estão na política acabaram não oferecendo?
Loredanna: Acho que são tempos novos, e a eleição também falou muito sobre isso. Por exemplo, o campo das redes sociais. Acredito que a juventude sabe manuseá-las. Não estou dizendo que as pessoas idosas não saibam, mas acredito que já nascemos nessa era das redes sociais e conseguimos manuseá-las muito mais. Além disso, os tempos vão mudando, as opiniões vão mudando. Não tem como continuarmos sempre no mesmo lugar.
OP: Na sua opinião, como transformamos essa indignação, que muitas vezes aparece nas redes sociais, e essa participação política digital em uma participação efetiva, prática e concreta no dia a dia, para além das redes?
Loredanna: Olha, vou te dizer que não sei responder muito bem a essa pergunta. Até me senti um pouco inútil por ter feito muita campanha nas redes sociais e não ter feito fisicamente. Queria ter feito mais. Ficava pensando: “Meu Deus, a gente só gravando vídeos para o Instagram, está fazendo alguma diferença?”. Acho que é importante, mas também acredito que precisa haver incentivo para entrar na política fisicamente, sabe?
OP: Ou seja, participar fisicamente, não apenas pelas redes sociais. Mas você sente que não existe esse incentivo?
Loredanna: Sim.
OP: Ser uma mulher jovem torna mais difícil conquistar autoridade nos espaços políticos?
Loredanna: Com certeza.

OP: Por quê?
Loredanna: Já é difícil conquistar espaços na escola, por exemplo. Como uma menina que sempre foi muito ativa e sempre se posicionou, fui vista como raivosa, ignorante, birrenta, histérica. As pessoas não dão credibilidade às pessoas que gritam, às mulheres que são consideradas histéricas, né? Porque, quando é homem…
OP: E, nesse caso, o que existe de verdade e o que não existe nessas percepções sobre você?
Loredanna: Eu sou raivosa (risos). Sou raivosa, mas não é uma raiva sem fundamento. Acho que tem fundamento. Tem embasamento.
OP: O saudoso Chorão, em uma música dizia: “O jovem no Brasil não é levado a sério”. Isso já faz tempo. Mudou ou não mudou? O Brasil continua não levando a juventude a sério?
Loredanna: Acho que agora passou a enxergá-la com mais seriedade. Temos o exemplo da Ana Elisa. Ela conseguiu mais de 500 mil votos, não foi? Não tenho certeza. Mas acredito que a juventude foi o que movimentou isso.
OP: Você tem citado muito a Ana Elisa, e com razão. Mas temos outros jovens, inclusive jovens que não são do campo da esquerda. Vamos citar um dos mais conhecidos e proeminentes deles: Nikolas. Não se trata de concordar com ele, mas o que você consegue identificar na comunicação dele que, mesmo sem concordar, entende que o faz ter sucesso na comunicação com a juventude?
Loredanna: Ele sabe se comunicar muito bem, sabe o que falar. Acho que, por ser jovem, obviamente faz com que os jovens gostem mais dele. Porque jovem gosta de ver jovem, né? Mas também acho que a comunicação dele é muito boa. Ele sabe se comunicar com os jovens, conhece o linguajar deles e os tipos de vídeos que faz…
OP: Mas o vídeo sobre o Nordeste não acabou sendo um tiro no pé?
Loredanna: Com certeza. Vi um dado de que a cidade em que ele fez o vídeo teve 22% a mais de votos para Lula.
OP: No STF, temos apenas uma mulher: Cármen Lúcia. Lula, o presidente que você apoia, indicou até aqui dois homens. Como você avalia essas escolhas?
Loredanna: Lula não é uma mulher, né? Ele luta por pautas importantes, mas eu gostaria que, por exemplo, agora que terá a oportunidade de indicar quatro ministros para o STF, também fizesse aquilo com que se comprometeu durante a campanha. Ele se compromete com as mulheres. Acho importante também termos mulheres em cargos como o STF.

OP: Você entende que ele também precisa ser cobrado por isso?
Loredanna: Sim, com certeza. Acho que, neste novo governo, precisamos também assumir uma posição crítica. Não basta apenas eleger Lula; precisamos cobrar mudanças. Porque também não é um governo 100% perfeito. Obviamente, existem críticas.
OP: O governo precisa ser acompanhado, não é mesmo?
Loredanna: Tem que ser acompanhado. E, quando falo que ele não é mulher, é porque existem homens feministas, mas há experiências pelas quais uma mulher passa que são diferentes. Englobo tanto as mulheres transexuais quanto…
OP: Nesse caso, você está falando do ‘lugar de fala’, é isso?
Loredanna: Sim. Mas também acho importante ter homens que falem. Por exemplo, ele tem muitas ministras no governo dele, e também considero isso uma abertura.
OP: Qual é o preço que você paga por ser uma mulher jovem e politicamente ativa?
Loredanna: Eu me posiciono em todos os lugares aonde vou, nos grupos de amigos. Sei que muita gente não gosta de levar política para as amizades, mas acho que ser amigo também é um ato político. Na faculdade, por exemplo, sempre me posicionei. E isso também causa…
OP: Esse posicionamento causa algum desconforto nas relações?
Loredanna: Causa. Sentimos quando as pessoas não gostam.
OP: Como lida com o fato de algumas pessoas não gostarem do seu posicionamento?
Loredanna: Lido muito mal com isso. Por exemplo, estava conversando com meu amigo Eleomar e outras pessoas da faculdade que são meus amigos. Eles perguntam: “Dana, por que tu não entra na política?”. E eu respondo que não sei se tenho autoestima para isso.
Ainda não consigo lidar muito bem com as críticas, com o fato de as pessoas estarem me olhando e me ouvindo. Sempre fico pensando: “Meu Deus, o que essa pessoa está pensando de mim?”. Sei que não é o momento, mas isso sempre esteve comigo: importar-me muito com a opinião das pessoas. Isso me impede de fazer muitas coisas.
Vou contar uma coisa pessoal. Tivemos a cerimônia do Vade Mecum, e eu sou a líder da turma. Tinha que fazer um discurso. Desisti umas cinco vezes, durante o dia, de fazer esse discurso. Quando cheguei à faculdade já estava decidida a não fazer. Só que cheguei lá e percebi que estava muito empoderada. Pensei: “Cara, tenho que fazer esse discurso”. E fiz, com excelência.
Mas ainda é uma coisa que me quebra. A opinião das outras pessoas importa. Estou tentando trabalhar isso.
OP: O que faz você continuar acreditando na política?
Loredanna: Porque não gosto de desistir. Não gosto de desistir. Acho que desistir não é uma opção. Fiquei muito mal no primeiro turno. Primeiro, fiquei mal. Depois, fiquei com raiva e pensei: “A gente tem que se movimentar. A gente tem que se organizar”. E, se perdermos também, vamos continuar resistindo.
Não acho que devemos desistir. Sei que, quando olhamos para todos os cenários, vemos muita coisa errada. Mas também acho que desistir não é uma opção.
OP: E como a sua família encara esse ativismo político?
Loredanna: Meu avô tem opiniões diferentes das minhas, mas nunca me proibiu de fazer nada. Nunca foi um homem que disse: “Loredana, tu não vai com esse short. Loredana, você não vai com essa blusa”. E, quando às vezes sou colocada em uma situação de encurralamento, mesmo sem concordar comigo, ele me protege.
Ele não tem as mesmas opiniões que eu, mas sempre me incentivou a estudar e a me posicionar. Às vezes, quando brigamos, ele diz: “Não tem como, você já é uma juíza. Não tem como a gente conversar, porque você já é uma juíza. Eu não estou conseguindo conversar contigo”. Isso acontece por causa dos embates políticos, porque não temos opiniões políticas parecidas.
Eu até falei isso em uma aula, na segunda-feira: meu avô nunca me proibiu. Mas minha irmã sempre participou do movimento estudantil. Meu pai também foi do movimento estudantil. Minha mãe também.






