COLUNA DO BARRINHA
O Brasil se aproxima do segundo turno da mais importante eleição presidencial depois da constituição de 1988, depois da redemocratização. O seu resultado definirá os rumos da democracia, da soberania nacional e da proteção dos direitos sociais nos próximos anos. Mesmo com os avanços e conquistas, o país ainda apresenta muitas desigualdades sociais. Por isso, é fundamental que o eleitor avalie não apenas as promessas de campanha, mas também suas consequências concretas para os trabalhadores, os aposentados, os estudantes e as famílias mais vulneráveis. Afinal, o futuro do Brasil será resultado das escolhas feitas nas urnas e de quem pagará o preço por elas.
A situação que se coloca para o eleitor é a seguinte: De um lado, a defesa da continuidade do governo Lula e uma reflexão sobre o país que queremos construir e sobre os direitos que precisam ser preservados para as futuras gerações. Do outro, as muitas incertezas de um candidato confuso, envolvido com milícias e que é investigado por vários crimes já bastante noticiados, que vão desde suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas junto com seu amigo o advogado Willer Tomaz; Seu envolvimento no Caso Master (Filme Dark Horse e o pedido de 134 milhões de reais a Daniel Vorcaro); Fraudes no setor de apostas online (bets) e plataformas digitais, entre outras situações apontadas pelos órgãos competentes.
Circula, entre setores da oposição, a informação de que Flávio Bolsonaro teria mais de 200 decretos preparados para assinar no primeiro dia de um eventual governo. Embora essa alegação precise ser confirmada, ela levanta uma questão fundamental: a serviço de quem estariam essas medidas? Se destinadas a desmontar políticas públicas, restringir direitos sociais, enfraquecer a proteção aos trabalhadores ou reduzir a capacidade de atuação do Estado, suas consequências poderão atingir justamente a população mais vulnerável — inclusive muitos daqueles que, por convicção ou desinformação, confiaram seu voto ao candidato. O eleitor precisa compreender que promessas de mudança não são um cheque em branco: é necessário conhecer o conteúdo das medidas, seus objetivos e, sobretudo, quem ganhará e quem pagará a conta.
E não para por ai, a principal promessa de campanha do senador Flavio Bolsonaro, o tal “tesouraço” é assustadora, pois vai “cortar” as “pernas” da economia e do trabalhador brasileiro. O eleitor não deve julgar um plano econômico apenas pelo que ele promete economizar, mas também pelo que pretende preservar, pelos resultados que se compromete a alcançar e pelas consequências de sua execução. A questão que fica é saber como essas medidas serão conciliadas e quais serão seus efeitos concretos sobre a população. E, quanto a isso, até o momento não ficaram esclarecidas suficientemente.
Se a continuidade do governo Lula é criticada sob o argumento da alternância de poder e da necessidade de mudança, a eventual eleição de Flávio Bolsonaro representa uma incógnita preocupante. Afinal, mudar por mudar não significa avançar. Sem clareza sobre o projeto de país que pretende implementar, a mudança pode significar retrocessos sociais, ameaças à democracia, enfraquecimento da soberania nacional e submissão dos interesses brasileiros a forças externas. Nesse cenário, o risco não está apenas naquilo que se promete, mas, sobretudo, naquilo que se pretende fazer sem revelar claramente suas consequências para o povo brasileiro.
O país atravessa um momento delicado. Além das pressões e ameaças externas, enfrentamos, internamente, um cenário em que setores da mídia parecem ter aderido à lógica do quanto pior, melhor, priorizando a disputa política em detrimento do debate responsável sobre os interesses nacionais. Nesse mesmo contexto, as casas de apostas (bets), setores do mercado financeiro representados pela Faria Lima e parcelas do agronegócio, acompanhadas de artistas sertanejos alinhados a essa agenda, parecem convergir em torno de interesses que nem sempre coincidem com as necessidades da maioria da população brasileira.
As medidas anunciadas por Lula, voltadas ao atendimento de demandas históricas da população brasileira, foram classificadas por seus críticos como meramente eleitoreiras. Entre elas, destacam-se o fim da escala de trabalho 6×1, a ampliação da proteção social às famílias de baixa renda, a valorização dos microempreendedores individuais (MEIs), a proposta de tarifa zero no transporte público aos finais de semana, a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, a manutenção da política de valorização real do salário mínimo, com reajustes acima da inflação, e a ampliação do acesso ao ensino superior por meio de iniciativas como o Pé-de-Meia voltado aos estudantes universitários.
Independentemente das disputas eleitorais, é preciso que se questione. Por que medidas que buscam melhorar as condições de vida dos trabalhadores, ampliar o acesso à educação, aliviar a carga tributária e fortalecer a proteção social são frequentemente tratadas como oportunismo político? Em uma democracia, políticas públicas devem ser avaliadas por seus resultados, sua viabilidade e seus efeitos concretos sobre a população, e não apenas pelo calendário eleitoral ou pelos interesses de quem as critica.
É justamente diante desse cenário que o eleitor indeciso ou não, precisa compreender a dimensão de sua responsabilidade. O voto não é apenas uma manifestação de simpatia por um candidato, uma reação de indignação ou uma escolha motivada por disputas familiares e ideológicas. É uma decisão política que interfere diretamente na vida de milhões de brasileiros. Por isso, antes de depositar seu voto na urna, cada cidadão deveria perguntar a si mesmo: Qual candidato apresenta um projeto de governo capaz de responder aos desafios nacionais? Quem de verdade demonstra compromisso com a democracia, a soberania, a redução das desigualdades e a ampliação de oportunidades? E quem oferece garantias de que os custos de suas decisões não recairão, mais uma vez, sobre os trabalhadores e os mais pobres?
A alternância de poder é um princípio legítimo e necessário à democracia, mas não pode ser transformada em um argumento automático para justificar qualquer mudança. Democracia não significa apenas substituir governantes; significa também avaliar projetos, respeitar instituições, preservar direitos e garantir que o poder público atue em favor da sociedade. Uma mudança de governo só representa avanço quando oferece respostas concretas aos problemas do país, apresenta propostas transparentes e assume compromissos verificáveis com a população.
Nesse sentido, a escolha entre Lula e Flávio Bolsonaro precisa ser examinada para além das paixões partidárias e do ódio. É necessário comparar trajetórias, propostas, prioridades e compromissos públicos. A defesa da continuidade do governo Lula deve estar apoiada na avaliação das políticas implementadas, dos resultados alcançados e da possibilidade de aprofundar medidas de inclusão social, desenvolvimento econômico e fortalecimento da soberania brasileira. Da mesma forma, qualquer alternativa deve ser cobrada por seu programa, pela viabilidade de suas promessas e pela transparência quanto aos impactos sociais e econômicos de suas decisões. Quando propostas de grande alcance são apresentadas sem clareza suficiente sobre seus custos e consequências, cabe ao eleitor exigir explicações, em vez de aceitar promessas como se fossem garantias.
É preciso, ainda, olhar para aqueles que mais dependem das políticas públicas, como os trabalhadores que enfrentam jornadas exaustivas, aposentados que precisam de renda suficiente para viver com dignidade, jovens que buscam oportunidades de estudo, famílias que dependem dos serviços públicos e pequenos empreendedores que lutam para manter seus negócios. Para esses brasileiros, decisões tomadas em Brasília não são abstrações econômicas. Elas se traduzem em emprego, salário, alimentação, transporte, acesso à educação e possibilidade de construir um futuro melhor.
Por isso, o eleitor não deve se deixar conduzir apenas por slogans, ataques pessoais, vídeos nas redes sociais ou promessas de soluções fáceis. É necessário confrontar discursos com propostas, declarações com fatos e promessas com compromissos concretos. Também é fundamental distinguir informações comprovadas de acusações ainda não demonstradas, porque a defesa da democracia exige responsabilidade com a verdade, inclusive quando se trata de candidatos dos quais discordamos.
Neste domingo, o voto precisa ser uma escolha consciente sobre o Brasil que queremos construir. Não se trata de conceder apoio incondicional a um governante, tampouco de ignorar erros ou dificuldades. Trata-se de reconhecer que governos devem ser avaliados criticamente, mas que a crítica precisa estar acompanhada de comparação, responsabilidade e compromisso com o interesse coletivo. Defender a continuidade de um projeto político não significa renunciar à capacidade de cobrar, fiscalizar e exigir resultados.
O eleitor brasileiro tem diante de si uma decisão que ultrapassa os limites de uma disputa entre candidatos. Está em jogo o modelo de país que desejamos para as próximas gerações. Queremos um Brasil que fortaleça a democracia, preserve sua soberania, enfrente as desigualdades e compreenda os direitos sociais como parte de seu compromisso com a cidadania? ou um país exposto aos riscos de medidas pouco esclarecidas, de possíveis retrocessos e da prevalência de interesses particulares sobre as necessidades coletivas?
A decisão final pertence ao eleitor, mas suas consequências serão compartilhadas por toda a sociedade. Por isso, votar em Lula (grifo meu), significa apostar na continuidade e na melhoria de um projeto de governo que deve ser cobrado por seus resultados, mas que coloca a proteção social, a democracia e a soberania nacional no centro do debate. O Brasil não precisa de aventuras políticas nem de promessas cujo preço permaneça oculto. Precisa de planejamento, transparência, compromisso público e responsabilidade com aqueles que mais necessitam da presença do Estado.
No fim, a pergunta fundamental não é simplesmente quem deve vencer a eleição, mas que país sairá dela e a serviço de quais interesses será governado. O voto consciente exige olhar para além do presente, avaliar as consequências das escolhas e compreender que, em uma sociedade profundamente desigual, os erros de um governo não atingem a todos da mesma maneira.
É por isso que esta eleição exige mais do que o desejo de mudança, exige consciência sobre o que se pretende mudar, em favor de quem e a que custo.
Por José Edson da Silva Barrinha, professor de Geografia do IFMA, mestre em Geografia e doutorando em Políticas Públicas na UFPI.
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