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terça-feira, abril 16, 2024

Pedreiras iluminada, prato vazio e direitos negados

Diz a Bíblia que Cristo nasceu entre os pobres. Por escolha própria, o senhor do universo, aquele que criara os humanos a sua imagem e semelhança, se faria carne, a semelhança de suas criaturas. O nascimento de Cristo foi um ato político, protagonizado por uma entidade, que sendo 100% deus, colocaria sua divindade em suspensão e por decisão, viveria plenamente a humanidade, com todas as consequências de ser quem somos, incluindo a morte. 

Foi um evento tão essencialmente político, que Herodes, majestade, ciente das profecias que a anunciavam um rei, ao qual sabia não ser ele, desprendeu força para castrar o que hoje os cristãos chamam de “plano da salvação”. “Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”, disse Herodes, que naquele tempo governava a Judeia.

Em 2021, Jesus continua na boca dos “reis e rainhas”, não mais na monarquia. Fala-se de democracia representativa. O mundo, agora regido pelo capitalismo, não ficou mais justo desde o nascimento do Messias, pelo contrário. Não lhe faltariam manjedouras para nascer em abrigos improvisados, obrigatoriamente longe das praças de Pedreiras, Maranhão, enfeitadas de Natal.

Quando criança, ambientes assim me encantavam. Naquela altura não tinha ciência plena do mundo em que vivia e não fazia ideia da dimensão de nossa desigualdade. Hoje, a manchete no jornal não me deixa esquecer que o “1% mais rico ganha 35 vezes mais renda do que os 50% mais pobres”, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em Pedreiras, Maranhão, ao longos dos últimos meses, o bairro Matadouro tem estampado as páginas virtuais de notícias, todas elas relacionadas à violência, quando não, em virtude da enchente de todos os anos. Em suas esquinas e muros os rastros de quem manda. O Estado, que não tem o controle, aparece lá, vez ou outra, com seu braço mais letal. Um Estado incompleto, que caminha com velocidade rumo ao fracasso. As facções avançam – elas deram o recado em 2021.

Não tão distante do Matadouro está a Praça Corrêa de Araújo. Uma árvore de Natal, posta pela prefeitura, promete um novo tempo, que não deixa de ser profecia. Perto dela foi instalado o já conhecido trailer da Polícia Militar do Maranhão, desta vez sob comando do Tenente-coronel Miguel Júnior. O nome panfletário da operação é um exemplo nítido de como o Estado adora incorporar um pavão: “Natal é tempo de bonança. Pedreiras com segurança”. Segundo o jornalista Sandro Wagner: “a Polícia Militar procurou associações comerciais que informaram sobre o horário comercial especial de funcionamento com mais intensidade, por esse motivo, foi lançada uma Operação Policial, para aumentar o efetivo com mais segurança para todos que irão fazer suas compras no comércio de Pedreiras”.  Enquanto isso, o Matadouro, como tantos outros bairros marginalizados ao longo de décadas, continua no “escuro”.

Que escuridão é essa? Disse nas linhas anteriores que o estado (governo federal, estadual e municipal) não está presente por completo. Apenas sua face repressiva se manifesta diante da ebulição ocasionada pelas facções que dominam. O Estado se move quando essa violência pulsa para além do bairro Matadouro, fazendo careta e vítimas no centro comercial do Médio Mearim: assaltos, disparos no Mercado Central em plena luz do dia e execuções. Uma parte da cidade precisa ser protegida, é o centro, lugar que recebe gente de todo canto. É nesse lugar que o Estado vai intensificar ações de segurança. O Matadouro continuará no “escuro”.

Quem mora neste bairro não precisa andar tanto para chegar a Praça do Jardim. É lá que a prefeitura de Pedreiras estende suas plumas, numa pirotecnia que encanta. Há muito tempo não se via uma cidade tão lindamente iluminada. Tem-se o trauma, já que na gestão passada, uma árvore de Natal virou meme nas redes sociais, ao ser comparada a um fantasma. Encandeada com as luzes, tendo como prioridade atrair a vista dos visitantes, a gestão Vanessa Maia se esquece que os bancos estão sumido e os que resistem precisam de uma manutenção urgente, do contrário, o termo praça será apenas alegoria. Aos ‘famintos’ que podem pagar não faltam cadeiras e mesas. O setor privado (restaurantes) ao longos dos anos foi ocupando um espaço público, dele se lucrando sem que se saiba, até hoje, se compensação é dada.

Distante da praça iluminada, de pratos fartos, pais e mães de família, centenas de contratados, dizem relatos, amargam o sabor da demissão, no escuro e com pratos vazios. Defensores da gestão argumentam que é natural, com base na lei, mas não citam qual. Os que permaneceram, até ontem, dia 20, ainda não receberam seus pagamentos – fui informado. Quem pode se vira como pode.  Quem tem a obrigação de responder se cala. Não gostam de perguntas. Se pudessem, esfarelariam a imprensa, inclusive as mídias aliadas e financeiramente dependentes, como um pedaço de rapadura na mão encaliçada de meu avô, um cearense que aqui achou guarida.

O “Tempo de Reconstruir” não dá sinais de desapego ao cabresto dos contratos. E certamente não o fará no ano em que o seu mentor, regente desta orquestra, se lançará deputado. A democracia lhe impõe desafios. Ainda bem que a temos.

Onde Cristo nasceria hoje em dia? Na Praça do Jardim e no Parque João do Vale lindamente iluminado? O Jesus bíblico certamente escolheria o “escuro” do bairro Matadouro – um lugar onde o Estado chega pela metade­ e as facções se amplificam –, o prato vazio dos demitidos pela prefeitura, a luta por reajuste salarial dos servidores efetivos e a dos professores públicos municipais pelo pagamento do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB), que a prefeitura alega não ter como pagar.

A gestão, que aposta nas luzes, não gosta quando elas clarificam suas próprias ações, ainda mais aquelas que possam chamar a atenção dos mais inquietos e atentos cidadãos. Ativa nas redes sociais, a prefeitura tem alergia à notas de esclarecimentos e trabalha para evitar que qualquer pergunta fora do script seja feita.

Sobre o rateio do FUNDEB, a parlamentar Katyane Leite (PTB),  em seu perfil numa rede sociais: “Para ser aprovado, o projeto precisa ser encaminhado à Câmara Municipal pelo Poder Executivo, ainda neste mês de dezembro. Mas, segundo informações do sindicato, a Gestão Municipal alega que não poderá pagar o rateio, pois já ultrapassou o limite de 70% destinado ao pagamento de pessoal, o que é inconstitucional. O conselho não apresentou os pareceres mensais de receitas e despesas”.

Na quinta-feira (16), Ana Roberta Alves Teixeira, líder sindical em representatividade aos servidores, incluindo professores da rede pública de ensino, disse ter sido impedida de participar de uma reunião do conselho que trataria de pauta essencialmente de interessa de parte da classe que Ana Roberta representa. Quem conhece a servidora, sabe de sua aposta no diálogo, mesmo sob críticas de servidores que, de tanto esperar, não mais acreditam nessa via, sugerindo uma postura mais enfática da entidade. Não se assuste caso haja paralisações já em janeiro. De saco cheio, o corpo tende a derramar. Em carta aberta, Janiel Rodrigues, presidente do Conselho do Fundeb, negou o fato e renunciou ao cargo.

As luzes encantam homens e mulheres, mas não entorpecem a figura homenageada. Em vida, Cristo colocou-se na trincheira com os pobres, indo de encontro aos que, politicamente, os oprimem. Não pregou liberdade pela metade. As luzes são simbólicas, mas carecem do sal de uma administração pública ativa, concreta e solidária. A lona pode enganar os desatentos, mas apostar nesse caminho é desconhecer a mudança do tempo.

Os religiosos esperam o nascimento de Cristo. Alguns servidores efetivos, aposentados, contudo, aguardam serem reembolsados, em função do desconto décimo terceiro, que pela segunda vez, segundo Ana Roberta, em entrevista ao repórter Ricardo farias, não fora depositado por completo, com descontos abissais.

Diante das queixas, Wescley Brito, presidente do Instituto Municipal de Previdência de Pedreiras (IMPP), se apressou para acalmar os ânimos, através de nota, publicada nas redes sociais da prefeitura.

“No último dia 10/12/2021, foi efetuado o pagamento dos servidores aposentados desta Prefeitura Municipal de Pedreiras, e após o pagamento foi constatado uma irregularidade na da remessa de valores. Informamos que a falha já foi detectada e estamos trabalhando na correção da mesma”, diz Wesley Brito, em nota. Segundo ele, os valores serão ressarcidos o mais breve possível, o que, segundo Ana Roberta, deveria acontecer até o dia 20 de dezembro.

Ao longo de 2021, não foram poucos os relatos de perseguições, de gente punida, de algum modo, pela revolta, nas mãos de quem lida com o poder como quem brinca de dama. Funcionários coagidos em APP’s de conversa, ou nas conversas de pé de ouvido. É desta conjectura que se esperam dias melhores. Mas o Cristo que ‘pregam’ os convida a emborcarem seus projetos de poder, abraçando uma política que de fato seja libertadora, que não nasce dos agentes do poder. A única política que estes podem ofertar é a da permanência no poder. Nesta cidade tão lindamente iluminada, que Cristo seja o que o Estado não tem sido: luz no caminho do pobres.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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