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terça-feira, abril 16, 2024

Madalena: dores, traumas e a existência do racismo evidenciados na Tv aberta

Madalena Santiago da Silva, é o retrato vivo da existência do racismo e da profunda ferida que se forma na vida de quem o atravessa. Aos 60 anos de idade, Madalena não traz boas memórias de sua trajetória, apenas dores e traumas de quem viveu há 50 anos sob trabalho análogo à escravidão, em Lauro Freitas, na região Metropolitana de Salvador (BA). Sem direitos e sem salário por ser considerada “como da família”, trabalhava para uma família como doméstica, em troca de moradia, sob humilhação e maus tratos, até ser resgatada, 50 anos depois, pelo Ministério do Trabalho (MT), na tentativa de começar a viver.

A história e resgate de Madalena, em março do ano passado, comoveu tanto quanto a ferida que ficou atualmente. Em pleno século XXI, presenciar situações como esta parece um verdadeiro absurdo, ainda mais quando parte da sociedade se agarra ao discurso de que o “racismo não existe” e de que tudo não passa de “mimimi”, mas a verdade é que Madalena, Leda, Yolanda e tantas outras, mulheres negras, vítimas de um sistema desigual que respinga até hoje os efeitos da escravidão no Brasil, são espelhos de um país pós-“abolição” que instituiu historicamente o racismo na estrutura deste sistema, evidenciando a desigualdade social e nos fazendo questionar o nosso lugar na sociedade.

Atualmente, Madalena recebe seguro desemprego e um salário mínimo da ação cautelar do MPT. Mora em uma casa mobiliada com a ajuda de conhecidos, mas infelizmente, o que prevalece são as marcas da escravidão. Durante uma reportagem da Tv Bahia, sobre a vida após ser resgatada da condição de trabalho análogo à escravidão, Madalena evitou tocar na repórter Adriana Oliveira com receio, por ser uma mulher branca. A ferida que ficou em Madalena a fez questionar até mesmo a sua humanidade e o seu lugar. “Porque ver a sua mão branca. Eu pego e boto a minha em cima da sua e acho feio isso”, disse ao ser questionada pela repórter.

Madalena é parte do legado profundamente doloroso deixado em mais de três séculos de escravidão no Brasil, um dos últimos países das Américas a abolir a escravidão e ‘libertar’ a mão de obra trazida à força da África. Mas tradicionalmente, o trabalho de doméstica ainda é ocupado, em sua grande maioria por mulheres negras, principalmente quando o assunto é trabalho análogo à escravidão.

A população negra e mestiços representam 56% da população, mas 75% dos assassinados, 64% dos desempregados, 60% dos presos, 15% dos juízes e 1% dos atores premiados, de acordo com dados da agência Lupa. Suas famílias ganham a metade do dinheiro que as brancas. E vivem menos. Uma desigualdade que concentra diversos conflitos sociais, como o racismo, provocados pelo capitalismo.

De acordo com o professor Silvio Almeida, escritor do livro ‘Racismo Estrutural’, historicamente “o racismo estabelecerá uma linha divisória entre superiores e inferiores, entre bons e maus, entre os grupos que merecem viver e os que serão mortos”. Madalena passou 50 anos de sua vida literalmente do lado inferior dessa linha, presa em uma bolha de escravidão. Não enxergava o protagonismo da mulher negra e nem os espaços que até aqui foram ocupados, Madalena não consegue se enxergar ser humano e isso evidencia ainda mais o trauma que o racismo deixa.

Infelizmente, nesta sociedade, não é só Madalena que tem receio de pegar em uma mão branca.

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Mayrla Frazão
Mayrla Frazãohttps://www.opedreirense.com.br
Jornalista - Centro Universitário de Ciências e Tecnologia do Maranhão (UniFacema)
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