União de trabalhadoras(es) do campo gera alimento e renda no Médio Mearim Maranhense
Cá estou, entre pés de milho a perderem de vista. No horizonte, além de um céu bipolar, oscilando entre o azul e um cinza tom de chuva, babaçuais que miram o alto neste Maranhão verde, nordestino e também amazônida. Pelas veredas enlameadas sou conduzido por Laécio Menezes (18), na persistente teimosia de permanecer em um lugar acostumado a partidas, especialmente de jovens.
Na estrada que me leva da sede de Trizidela do Vale, Maranhão, até o povoado Bom Princípio, a lama predominou. Fui no rastro do ônibus escolar. De igual modo passei pelo povoado Lago da Onça, mas sem sinal dos dois. O que vi, no lugarejo pertencente ao território de Pedreiras, além de uma escola, foi um templo da Assembleia de Deus e as carcaças cimentadas do que era para ser um museu em alusão ao ilustre filho do lugar. Desde que João partiu o tempo avançou, mas nesse canto do mundo pouca coisa mudou.
Na chegada ao destino sou recebido por cachorros amistosos e o sorriso largo de quem já me esperava. Maria Eliane da Silva (41), uma mulher que, a semelhança das árvores que circundam sua casa, tem raízes fincadas em um território que compartilha com o esposo, os três filhos e um neto.
É mês de março e a temporada chuvosa agrada. Não é só a paisagem que fica mais verde; a mesa também. Em meio ao silêncio campesino, por vezes interrompido pelo toc toc do porrete sobre o babaçu e o zurrado dos jumentos, acontece uma revolução e a ela os moradores dão um nome: quintais produtivos.

“Já que vocês não têm terra suficiente para produzir em larga escala, vão modificando os cantinhos de vocês”, diz ter ouvido Maria Eliane, durante curso de Educação Popular, em 2014, realizado em São Luís. Ao voltar encontrou o mesmo quintal que deixou: “um lugar repleto de mato”.
“Até tirei foto. O que se tinha era apenas um pé de caju”, relata Eliane. Para ela, o acompanhamento técnico desenvolvido pela Associação em Área de Assentamento no Estado do Maranhão (ASSEMA), e posteriormente pela Associação Vencer Juntos em Economia Solidária (Avesol), foram fundamentais para as ações seguintes.
“Começamos sonhando. Plantávamos um pé de manga, laranja, aí morria. Não sabíamos como lidar. Até que vieram duas técnicas e com elas o forte exemplo de ser possível que as mulheres tomassem à frente”, destaca Eliane.
O passo seguinte foi a construção coletiva de galinheiros — três em funcionamento atualmente. Isso viabilizou outras formas de produção nos quintais.
“A gente entendeu que com o que se tinha dava para fazer. Não quero um galinheiro lindo, quero um espaço para que as galinhas fiquem enquanto planto no meu quintal. Fizemos essa opção. Se vamos plantar milho, por exemplo, prendemos as galinhas”.
Segundo a trabalhadora rural, o projeto “Quintais produtivos”, iniciado há oitos anos, dá frutos e a associação se mobiliza para que seja cada vez mais fortalecido. O pé de caju continua ali, mas agora existem outras culturas cultivadas, não apenas no terreno de Eliane, mas na vizinhança. “Temos nosso feijão, nosso milho, cuxá, coco da praia, ata, banana, laranja, tanja e até goiaba”, enumera com nítido orgulho.

Já a compra de uma despolpadora veio de encontro ao consumo de refrigerante. Os sabores da região –como é o caso da amarelada Cajá, quando armazenados, podem ser saboreados além das safras. Para as 15 famílias que integram o projeto, é tempo de fartura.
Agora nada de limão se estragando sobre o solo, como acontecia há quatro anos. A grande conquista foi o acesso ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). O Governo Federal, por meio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ou de parcerias com estados e municípios, compra alimentos da agricultura familiar e os distribui na forma de cestas e auxílios. O programa é um caminho para combater a insegurança alimentar.
Minutos antes de ouvir Eliane, sob o alpendre de sua casa, na terça-feira (17), acompanhei parte das lidas entre os milharais — aqueles descritos no início desta reportagem. De espiga em espiga Antônio Salazar (57), Manuel Carvalho (19) e João Leite da Silva (44) vão enchendo os sacos, postos em seguida sobre o lombo de jumentos já familiarizados com as veredas enxarcadas adiante.
“A quebração de milho é mais de manhã. Vai até o meio-dia”, explica o trabalhador rural Antônio Salazar, que sorri ao supor que, naquele contexto, os animais teriam até mais serventia do que a deles. “Maior do que a nossa quase”.

A entrega dos produtos aconteceu no dia seguinte (sempre às quartas-feiras), quando os trabalhadores levam ao ponto de distribuição da Amossaje (Associação de Moradores das comunidades Saudade, São José e Encruzilhada) o que produziram em seus quintais. A estrutura, também utilizada para reuniões, só foi possível com unidade, articulação e ação. A logística de transporte dos produtos do campo para a cidade fica por conta da Secretaria de Agricultura.
“O PAA é gerido pelo MDS (Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome). São R$ 175.000,00, 20 famílias contempladas. A verba vem diretamente para as associações. Montamos as cestas verdes direcionadas às entidades, hospital, espaços de recuperação de adolescentes, por exemplo. Essa ação é coordenada pela Secretaria de Assistência Social”, explicou Lívio Maia, titular da pasta de Agricultura de Trizidela. Ele informou que atualmente quatro associações acessam o PAA com operacionalização da Conab.

Outra política importante para parte das comunidades rurais do município é o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Em Trizidela a responsabilidade técnica é uma função ocupada pela nutricionista Fábia Sousa. Para ela, se nas comunidades gera produção e com ela renda, nas escolas é a garantia de acesso à uma alimentação variável, saudável com cardápios que respeita a produção alimentar local.
Neste caso, cabe ao município, uma Entidade Executoras (EEx), a partir do recebimento recursos diretamente do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), adquirir os alimentos, levando em consideração que, segundos as regras do programa, há obrigatoriedade para que “pelo menos 45% dos recursos do PNAE devem ser usados para comprar alimentos da agricultura familiar”.
Ainda segundo o Governo Federal, são “priorizados os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas, as comunidades quilombolas e os grupos formais e informais de mulheres”.
“Esses produtos chegam até o departamento da merenda escolar e serão distribuídos para mais de cinco mil alunos”, explica Fábia Sousa. “Nossa meta, para este ano, é que a aquisição referente à agricultura familiar chegue a 60%”.
Em Bom Princípio e arredores, contudo, nem tudo são frutos. Se por um lado os trabalhadores que integram a associação citam como conquista moradia e energia elétrica por outro entendem que ainda existem carências.
“Nossa preocupação inicialmente era mais com moradia, energia. Conseguimos graças à associação. Contudo, em pleno século XXI uma comunidade com mais de 70 famílias não tem um campo de futebol, para a juventude. Área de lazer não existe. Também não temos estrada de qualidade”, pontuou Eliane.
Desafios à parte, a associação é resultado da percepção de que em unidade é mais fácil cobrar e lutar. Por aqui horizontes que anunciam chuva nunca foram um problema.
O jornal O Pedreirense contatou Miguel de Abreu Zusar, secretário de Infraestrutura, mas até o fechamento desta reportagem não houve retorno.
Obs. Até o momento, segundo Elieane, a sigla Amossaje faz referência apenas às comunidades que faziam parte da associação no momento de sua fundação, o que não era o caso do povoado Bom Principio e Sítio do Meio.







