Lula: uma lenda que não foge à luta

Coluna do Barrinha


Aos 81 anos de idade, o presidente Lula costuma se emocionar em suas falas e discursos. A principal razão dessa emoção está ligada à sua história de vida. Com frequência relembra a pobreza extrema e a fome que viveu na infância e juventude. Comeu pão pela primeira vez apenas aos 7 anos de idade, costuma dizer. Por isso, não há uma única explicação, mas sim uma combinação de fatores que se reforçam mutuamente e ajudam a explicar sua trajetória humana, do sertão pernambucano para o mundo. Lula consegue chorar porque constrói uma ponte de identificação com milhões de brasileiros que passam ou passaram por dificuldades semelhantes. Essa emoção serve como um testemunho da veracidade de sua ligação com as causas sociais e com o povo. Um homem assim, se torna imbatível, não por ser melhor que outros, mas por sua autenticidade.

Em uma democracia marcada por profundas desigualdades sociais, a disputa presidencial vai muito além da vitória de um candidato sobre outro, envolve projetos de país e escolhas que repercutem diretamente na vida de milhões de brasileiros. É nesse contexto que a trajetória de Lula ganha uma dimensão profundamente humana. Sua história, marcada pelas dificuldades da origem humilde, pela experiência como trabalhador e pela convivência com as adversidades da vida (fome, perda de familiares, como sua mãe, esposas, irmãos e neto), ajuda a compreender sua identificação com aqueles que enfrentam diariamente a pobreza, a exclusão e a falta de oportunidades.

A recente e última disputa eleitoral de Lula, na qual saiu vencedor e governará o Brasil por mais quatro anos, além de derrubar estatísticas, mostrou ao país que o voto quando depositado é reflexo de um conjunto de fatores. Foram estes fatores que possibilitaram a sua reeleição, mesmo tendo perdido no primeiro turno. As estatísticas apontavam que depois da redemocratização, nunca um candidato saiu perdendo no primeiro turno e conseguiu a virada no segundo turno. Lula fez isso, foi reeleito e se tornou o primeiro a vencer uma eleição presidencial no Brasil depois de terminar o primeiro turno em segundo lugar.

Não há como negar que as manifestações comandadas inicialmente por estudantes e depois outras categorias, que levaram milhões de pessoas às ruas tiveram grande contribuição para a vitória de Lula. A postura dos candidatos diante do debate na TV Band e Globo, a redução das abstenções e a diminuição dos votos brancos também fizeram parte desse cenário. Mas é necessário citar as deficiências do adversário de Lula como pontos cruciais da disputa, entre as quais se podem apontar:

I) A defesa de um SUS com o chamado “padrão Einstein”. A proposta parece contraditória quando confrontada com o histórico da gestão da pandemia de Covid-19 durante o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, amplamente criticada por sua condução da crise sanitária. O resultado foi a morte de mais de 700 mil pessoas no Brasil, incluindo vítimas da falta de oxigênio, como ocorreu em Manaus.

II) Outra contradição do adversário foi defender as mulheres contra o feminicídio enquanto gravava vídeos para o TikTok e tirava fotos com pessoas que negavam a existência desse tipo de violência.

III) Por diversas vezes, afirmou que jamais prejudicaria os aposentados. Entretanto, nos dois últimos debates, diante de Lula, recorreu ao etarismo e utilizou a expressão “nove dedos” para se referir ao presidente, atacando-o e intimidando-o.

IV) Sempre falou em combate ao crime, mas, durante o debate da TV Globo, diante da mãe da menina Ana Clara, de cinco anos, morta por disparos de fuzil, não pediu desculpas pela atuação como advogado na defesa do policial envolvido no caso. Pelo contrário, sustentou sua posição publicamente, em rede nacional, defendendo-o.

V) Apresentando-se como o mais carioca dos nordestinos, Flávio Bolsonaro foi associado a uma estratégia de comunicação nas redes sociais envolvendo seu aliado Nicolas Ferreira, que publicou vídeos utilizando uma cortina preta e fazendo declarações depreciativas sobre os nordestinos, evidenciando assim, uma contradição entre o discurso de valorização regional e a prática política.

Diante dessas deficiências e contradições, o candidato que se apresentava com um discurso de mudança mostrou-se, na avaliação de seus adversários, incoerente em relação a algumas de suas próprias declarações. Essa situação teve relevância no debate eleitoral. Pode-se dizer que nesta eleição, venceu o respeito e os valores democráticos contra o retrocesso. É verdade que parte do eleitorado desejava mudanças, mas não a qualquer preço. Assim, (grifo meu) venceu a proposta de civilidade, perdeu a barbárie.

Lula não é apenas um político que defende a inclusão social, a valorização do trabalho, a educação pública e a redução das desigualdades. Lula é, para cerca de 65 milhões de brasileiros, a representação de uma trajetória que saiu do chão de fábrica, enfrentou adversidades e chegou à Presidência da República sem romper com sua consciência de classe e com os vínculos simbólicos de sua origem popular. Mesmo sem ter concluído um curso superior, Lula recebeu mais de quarenta títulos de Doutor Honoris Causa, concedidos por universidades e instituições acadêmicas brasileiras e estrangeiras em reconhecimento à sua trajetória política e às contribuições que lhe são atribuídas nas áreas social, educacional e internacional. Entre essas instituições estão a Universidade Federal do Piauí (UFPI), a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a Universidade de Coimbra, em Portugal, a Universidade de Salamanca, na Espanha, e a Universidade Paris 8, na França. Também recebeu honrarias acadêmicas na Malásia e em Moçambique.

Note que a força de sua liderança extrapola os limites do Brasil e, não se mede somente pela virada de votos ocorrida no segundo turno da eleição presidencial. Mede-se, sobretudo, pela disposição de enfrentar desafios, assumir responsabilidades e transformar compromissos em resultados concretos. Quando chora em seus discursos, isso não significa fraqueza, desistência ou recuo. É por isso que o título deste artigo expressa uma convicção política: ninguém derrota facilmente um presidente que chora, mas permanece de pé, enfrenta as adversidades e não foge à luta.

Sua vitória nas urnas para um quarto mandato não pode ser compreendida apenas como um resultado eleitoral. É, sobretudo, uma demonstração da resistência de um projeto político que aposta na democracia, na soberania, na redução das desigualdades, na valorização do trabalho e na ampliação dos direitos sociais. É também uma resposta àqueles que imaginavam que o desgaste político, os conflitos institucionais e as tentativas de deslegitimação seriam suficientes para apagar sua presença na vida pública brasileira. Não à toa, Flavio Bolsonaro surfava e ecoava aos quatro cantos, em suas redes sociais e entrevistas: É o fim da era PT. Aliás, foi assim também com a farsa da Lava jato. Era o fim de Lula e do Partido do número 13.

Flavio Bolsonaro que perdeu com uma diferença de mais de quatro milhões de votos, deixou ainda mais evidente o seu DNA golpista. Citou fraude e que iria pedir a anulação da eleição. Na entrevista, dias antes, na bancada do Jornal Nacional da Rede Globo, questionado se aceitaria uma possível derrota, disse que sim. Depois da derrota, a aliados afirmou que daria um tempo e que iria fazer uma forte oposição a Lula e, que portanto, não abandonaria jamais seu pais. 72 horas depois, fugiu do pais, indo se juntar a outros foragidos nos Estados Unidos, incluindo seu amigo e sócio Willer Tomaz, seu irmão Eduardo Bolsonaro, suspeito de estar administrando os Cento e trinta e quatro milhões de reais exigidos de Daniel Vorcaro, para o suposto filme sobre seu pai. Flavio Bolsonaro terminou a eleição como começou: MENTINDO.

Por José Edson da Silva Barrinha, professor de Geografia do IFMA, mestre em Geografia pela UFPI e Doutorando em Políticas Públicas da UFPI.

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