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segunda-feira, abril 15, 2024

“É uma droga”: a vida sob uma casa de taipa

Aos 67 anos, Alexandrina dos Santos prende o sorriso, como um pássaro engaiolado. Talvez pense que seu riso seja menos riso pela ausência de alguns dentes, mas sua realidade marcada pela extrema pobreza é feita de ausências. Fala com dificuldade. Compreendê-la é uma tarefa mais fácil somente à aqueles com quem convive.

Reside numa casa apertada, um lugar sem cômodos definidos. A sala pode ser cozinha, que pode ser quarto, depende do ponto de vista e do horário. É nela que se abrigam ante as primeiras chuvas do ano, que caem em Pedreiras, parte central do estado do Maranhão, com aproximadamente 40 mil habitantes.

Cabe a Wilma dos Santos (30 anos) o cuidado com Alexandrina, sua mãe, e Deusdeth Vieira de Araújo, seu pai, um velho conhecido da avenida Rio Branco, coração econômico da cidade em que reside, lugar onde costuma pedir aos que por ali trafegam.

 “Desde que eles e meu menino adoeceu”, explica a dona de casa sobre as razões de ter largado o emprego há cincos anos. Contudo, o trabalho continua, mas dentro de casa e fora dela nenhuma grande expectativa: uma pandemia que não retroage, um governo que não age e uma economia decadente. A pobreza que perpassa sua realidade é um solo árido para sonhos a médio e longo prazo.

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Wilma e sua família (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Enquanto isso, em Brasília, um universo paralelo imune ao luto da pandemia e à fome, Órgãos do Governo Federal, sob a tutela do Presidente Jair Bolsonaro, gastaram o total de R$ 1,8 bilhão em alimentos. É o que aponta levantamento feito pela (M)Dados, tendo como fonte o Painel de Compras sob gestão do Ministério da Economia.

No carrinho itens básicos: “arroz, feijão, carne, batata frita e salada, no ‘carrinho’ estiveram incluídos biscoitos, sorvete, massa de pastel, leite condensado – que associado ao pão forma uma das comidas favoritas do presidente –, geleia de mocotó, picolé, pão de queijo, pizza, vinho, bombom, chantilly, sagu e até chiclete”, como mostra a reportagem publicada pelo Metrópoles, no domingo (24).

Para muitos brasileiros, incluindo Wilma e seu núcleo familiar, boa parte dos itens citados são dispensáveis, pois a pouca renda impõe uma série de prioridades. Vinho, massa de pastel e chantilly não fazem parte de sua lista, aliás, nem há uma lista.

“Quando chove é um sufoco. Temos que botar plástico. Molha tudo e a gente muda as coisas, cobre de novo. Mas tudo é como Deus quer e vamos levando. Faz tempo que a gente peleja para fazer (uma casa) e nada. Um prometeu, mas não cumpriu. A gente também não fez questão, porque a pessoa só ajuda se puder. Não vamos fazer confusão.”, explica Wilma, colocando na conta divina a miséria que abate a sua e a vida de milhões de brasileiros.

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Dona Alexandrina dos Santos, mãe de Wilma (Foto: Joaquim Cantanhêde)

De acordo com o CadÚnico (Cadastro Único para programas sociais do governo federal), o número de famílias em estado de extrema pobreza ultrapassou a marca dos 14 milhões, número mais expressivo desde o fim de 2014. São 39,9 milhões de brasileiros vivendo em situação de miséria.

Em outubro de 2020, haviam 2,8 milhões de famílias em situação de pobreza. Para esses a renda per capita média de moradores varia entre R$ 90 e R$ 178.

As informações obtidas a partir do cadastro, com atualizações frequentes, mostram a magnitude das disparidades sociais no Brasil. Ao governo, serve de fonte para que, através do Bolsa Família, destine às famílias em extrema pobreza e que sejam beneficiárias do programa, um complemento em valores que variam de R$ 41 a R$ 205.

A pandemia da Covid-19, para além dos 221 mil mortos até aqui, tem favorecido o cenário de extrema pobreza no Brasil. Para a Oxfam-Brasil: “Tem o potencial de aumentar a desigualdade econômica em quase todos os países ao mesmo tempo, revela o relatório O Vírus da Desigualdade – algo que acontece pela primeira vez desde que as desigualdades começaram a ser medidas há mais de 100 anos. O vírus matou mais de dois milhões de pessoas pelo mundo e tirou emprego e renda de milhões de pessoas, empurrando-as para a pobreza. Enquanto isso, os mais ricos – indivíduos e empresas – estão prosperando como nunca. A crise provocada pela pandemia expôs nossa fragilidade coletiva e a incapacidade da nossa economia profundamente desigual trabalhar para todos”.

“A pandemia do Coronavírus é o maior desafio contemporâneo e seus efeitos são heterogêneos e notadamente devastadores em populações que residem em áreas urbanas mais pobres. Para essas famílias a Política de Assistência Social adquire papel estratégico. Embora o foco do debate público em relação ao enfrentamento a pandemia esteja centrado nas áreas de saúde e econômica, a assistência social é essencial para minimizar os danos da crise entre as famílias no perfil socioeconômico em pobreza e extrema pobreza, viabilizando medidas socioeconômicas e sociais coerentes para esse seguimento populacional”, argumenta Carol Melo, secretária de Assistência Social de Pedreiras.

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Emily Vitória dos Santos Araújo (Foto: Joaquim Cantanhêde)

No Brasil, o auxílio emergencial, aprovado pela Câmara dos Deputados em março de 2020, inicialmente fixado em R$ 600, à revelia do Governo Federal, que preferia R$ 200 mensais, é a única renda para muitas famílias brasileiras numa crise também marcada pelo desemprego.

Os dados do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) mostram que 118 milhões de pessoas foram beneficiadas com o auxílio emergencial, de forma direta e indireta. O que corresponde a 56% da população. O orçamento do programa alcançou a marca dos 300 milhões.

A economista Cecilia Machado, professora da Escola Brasileira de Economias e Finanças (EPGE) da FGV, diz que: “A manutenção do auxílio, tal qual desenhado, exibe diversas ineficiências, além de um custo fiscal insustentável, caso ele venha a se tornar uma assistência de caráter permanente, o que sucessivas prorrogações poderiam indicar”.

No país dos gastos governamentais com leite condensado, a continuidade do auxílio é constantemente ameaçada e seu fim profetizado, para desespero de uma significativa porcentagem populacional sem eira e nem beira.

Ao contrário da casa de Wilma, o abrigo de seu Vicente de Paulo Portela (Felipão), morador da comunidade campesina Pau D’arco, na parte pertencente a Santo Antônio dos Lopes (MA), é bem dividida. Tem sala, quarto, cozinha, mas por quanto tempo as estacas fixadas nas paredes a manterão em pé?  Uma casa de taipa, mais para lá do que pra cá, alguns pintos e a cachorra Tieta. É tudo o que ele tem, além da farta saudade de Paraíso do Norte, em Tocantins.

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Seu Vicente de Paulo Portela, mais conhecido como Felipão (Foto: Joaquim Cantanhêde)

“Meu Deus, por que estou aqui? Por que que estou chorando? Por que estou me maldizendo? A situação é muito difícil para morar em um lugar desse. Não tenho nada! Não tenho como ir embora. A casa é essa, muito desagradável. Fico aqui sozinho. Amanhece e anoitece e fico chorando, clamando a Deus, para que alguém faça alguma coisa por mim”, explica seu Felipão, esboçando decepção. 

Com quantas ausências se faz solidão? Como a boca que guarda um sorriso tão lindo é a mesma que diz: “a vida é uma droga”?

Tal qual a casa de Wilma, adentramos o abrigo de seu Felipão. Em todos os cantos carência, o que vai muito além do financeiro. “Minha solidão é amarga”. Seria esse o fim de alguém que relembra os tempos de glória, quando era técnico de futebol de um dos times de Paraíso do Norte?


Pobreza, a pandemia que mata quem não pediu pra nascer


Sua tristeza se esvai, por alguns segundos, quando na sala nos mostra uma penca de troféus empoeirados sobre uma prateleira. Na cozinha, contudo, ela o reencontra.

As cascas de coco babaçu são o combustível com a qual ascende fogo para cozer alimentos. Na parede de barro, parte de uma geladeira que virou armário. Pedaços de carne repousam sobre um arame que vai de uma extremidade a outra da cozinha. No quarto, seu Felipão mostra o risco que corre abaixo de um teto cujas bases a qualquer momento podem ceder. 

Faz questão de mostrar sua moradia, acredita que com o eco das redes sociais, alguém vá ouvi-lo e ajudá-lo. Em dado momento, com olhar firme, tanto quanto o dedo indicador, ignora que o repórter não responde pelo nome de Quilambi, a quem se refere. “Se você soubesse como está o velho Portela, aqui no estado do Maranhão, e você que tem um conhecimento e tanto, tenho certeza que viria me buscar”. Quilambi é na verdade Edvan Maciel, um amigo com quem convivia em Paraiso do Norte.

A vulnerabilidade social da família de Wilma, chamou a atenção da empresária Gracideth Mesquita, que os conheceu em dezembro, durante uma ação natalina. “Me deparei com a situação da família de seu Deusdeth. Dentre os muitos casos que vejo, esse foi o que mais me chocou. Então resolvi fazer alguma coisa, pois além deles serem idosos, havia uma criança numa situação de doer o coração. Resolvi acionar meus amigos, que chamo de anjos, para construir uma morada digna para eles e assim estamos na luta e estamos quase conseguindo tudo”.

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Wilma dos Santos e os filhos (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Na segunda (25), uma forte chuva com ventania caiu sobre Pedreiras. Gracideth conta que dias assim lhe causam preocupação. “As árvores caíram e eles tiveram uma noite terrível. Não posso ver uma chuva que fico preocupada”, explica.

Nos munícipios, cabe as Secretarias de Assistência Social, em parceria com as demais entidades federativas e instituições, promover políticas públicas em prol do mais pobres. Em Pedreiras, a pasta está sob gestão de Caroline Melo. Ela aponta as buscas ativas que estão sendo realizadas, enfatizando à proteção básica promovida através do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e proteção especial através do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).

“Para isso, estamos construindo planos de trabalho que possam ser oferecidos a população usuária, tendo como horizonte o compromisso de assegurar acesso aos direitos. Em primeiros momentos estamos conhecendo áreas mais vulneráveis de Pedreiras e públicos específicos, tais como, grupos tradicionais (Famílias de catadores de material reciclável, ribeirinhas, extrativistas, situação de rua, agricultores familiares, quilombolas, pescadores artesanais e comunidade de terreiro), para construção de Diagnóstico Social para conhecer a realidade dessas famílias e construir planos mais eficazes, para evolução social e econômicas dessas famílias”, pontou Carol Melo.

No que diz respeito a Santo Antônio dos Lopes, sobre o que vem sendo feito e quais os planos da Secretaria de Assistência Social para o atendimento às famílias em situação de pobreza, que vão deixar de receber o auxílio, entramos em contato com a secretária Hadila da Silva Campos Birges, mas até o fim desta reportagem não houve retorno.

Flávio Dino, governador do Maranhão, durante anúncio de novas medidas “para atenuar efeitos da crise sanitária e econômica”, se manifestou contra o fim do auxílio emergencial, ao qual chamou de “desastre”. “Creio que algum tipo de auxílio emergencial vá voltar”, disse ele, pontuando a doação de 306 mil cestas básicas e a compra de mais 100 mil que terão o mesmo destino.

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Seu Vicente de Paulo Portela, mais conhecido como Felipão (Foto: Joaquim Cantanhêde)

A construção da casa de Wilma foi iniciada, o mutirão organizado por Gracideth se encarrega da etapa de reboco. Já seu Felipão, continua sob uma casa, que hora abrigo, hora ameaça. Duas pessoas que não se conhecem, mas partilham o fardo da vulnerabilidade social, traço tão marcante da história de um país por longas datas desigual. “Depois de três anos que eram casados, nasceu um filhinho que tanto sonharam. Por mais alguns tempos viveram felizes, depois cruelmente os dois se apartaram. Ele foi embora para bem distante e não mais souberam do seu paradeiro. Ela ficou só com o filhinho, chorando a saudade do seu companheiro”, canta seu Felipão, que faz da canção sua autobiografia.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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