Em uma era dominada pela carga incessante de dopamina promovida por vídeos de 30 segundos, a leitura tornou-se um ato de resistência, que em Pedreiras, Maranhão, tem ganhado uma dimensão social, para além da prática individual e intimista.
Os chamados “clubes do livro” não são apenas reuniões casuais, surgem de uma necessidade histórica e humana pelo senso de pertencimento. É o desejo de fazer parte de um coletivo, de validar a própria existência através da troca e de expressar ideias para quem, genuinamente, está disposto a ouvi-las. Hoje, diferentes grupos de leitores pedreirenses se reúnem para provar que a literatura, longe de ser uma atividade solitária ou isolada, é uma ferramenta poderosa capaz de criar laços e transformar perspectivas.
O nascimento de um clube do livro nem sempre é planejado nos mínimos detalhes, muitas vezes, ele floresce do inesperado. Para o Recanto da Leitura, tudo começou com um acaso feliz entre Iasmin da Silva (23) e Gisele Nayara (35). O que era inicialmente apenas um interesse em comum entre duas conhecidas, se transformou rapidamente em um espaço de acolhimento e trocas.
Recentemente criado, o grupo atualmente conta com 5 participantes e é um dos três clubes que entrevistamos, que compartilham um processo semelhante aos demais na escolha das obras. Cada integrante traz suas recomendações e o título mais votado, ou sorteado, se torna a leitura do mês. Os encontros mensais para discussão conjunta são sempre repletos de boas conversas, risadas e, muitas vezes, sobremesas deliciosas, tornando-se, ao final, um piquenique entre amigas.

Para as integrantes, o valor do clube está na cura da “angústia do pós-leitura”. Como define a leitora Davila Romão (22): “Às vezes lemos um livro tão bom que queremos falar sobre ele com alguém e não sabemos com quem”. No Recanto, esse “alguém” está sempre pronto para ouvir.
Essa convivência transforma a rotina de quem participa. Islane Gomes (21), também do Recanto, compartilha que o clube se tornou um pilar emocional: “Ele nos dá esse espaço para expressar sentimentos, trocar ideias e enxergar a história por diferentes perspectivas”.

E a leitura coletiva se torna um espaço para a possibilidade de uma pluralidade de novos olhares. Para o Clube Literando, que surgiu através das redes sociais em 2021, essa troca de perspectivas permitiu que as leitoras se aventurassem por gêneros literários antes inexplorados e descobrissem novas vozes. Para Samara Belfort (29), uma das 16 participantes do Literando, o grupo foi o ponto de encontro vital para quem se sentia ilhado em sua paixão pelos livros.
Ela destaca a função social do projeto: “Manter grupos como o nosso é importante porque, além de um ‘refúgio’ para leitores experientes, é também um ‘criatório’ para novos leitores”. No Literando o livro é a semente de uma consciência coletiva que desafia o isolamento promovido na era digital.

Com apenas dois meses de existência oficial, mas idealizado por anos no íntimo de suas participantes, o clube Pretas e Páginas traz uma proposta que vai para além do debate: é um território de segurança, cura e conexão para mulheres negras. Marinara Santana, uma das organizadoras, relata que o projeto foi o convite necessário para sair de uma “redoma” individualista e redescobrir o poder da comunidade.
Ali, a leitura de autoras como Conceição Evaristo e Sobonfu Somé não é um mero exercício intelectual, mas um espelho necessário. Marinara explica que a importância do grupo reside na construção de um espaço onde a experiência negra feminina não é tratada como uma exceção ou um tema exótico, mas como o próprio ponto de partida. “Isso muda a qualidade da escuta, das trocas e até dos silêncios”, pontua. Ali, encontrar protagonistas com traços e vivências parecidas é o que permite a essas mulheres se sentirem, finalmente, completas, complexas e donas de suas próprias histórias.
Entre encontros presenciais e online, o clube Pretas e Páginas, hoje com 19 participantes, já tem alcançado mulheres para além das fronteiras de Pedreiras, o que expõe ainda mais a necessidade de sua existência.
“Um clube exclusivo para mulheres negras não é só um espaço de leitura, na nossa realidade a gente cresce se vendo pouco, ou se vendo de forma distorcida, estar entre mulheres que compartilham referências, dores, estéticas e formas de existir parecidas cria um tipo de reconhecimento que não é teórico, é imediato. Não precisa traduzir tudo o tempo inteiro”, destaca Marinara.
Apesar da paixão que move esses grupos, o caminho entre o leitor e a obra é marcado por desafios que todos os clubes compartilham: a escassez de locais de venda em Pedreiras e o custo elevado das obras. Com livros custando entre R$ 40 e R$ 70, manter o hábito da leitura exige um investimento que nem sempre cabe no orçamento. A solução, muitas vezes, vem das telas, com a compra via internet ou o uso de plataformas como o MEC Livros, que auxiliam na democratização desse acesso. No entanto, é no gesto de emprestar e trocar livros entre os membros que os clubes revelam sua força comunitária. Ali, a literatura deixa de ser um produto de luxo para se tornar um bem compartilhado, garantindo que ninguém fique para trás por falta de recursos.
Ao observar os clubes entrevistados, é possível notar um padrão: em Pedreiras, a resistência no que diz respeito à leitura é feminina. Esse fenômeno sugere que tais espaços estão funcionando também como um refúgio para a confiança e a solidariedade de gênero. No entanto, esse cenário também provoca uma reflexão necessária: estariam as mulheres mais inclinadas à leitura coletiva ou seria o próprio hábito de ler que encontra mais espaço no universo feminino?
Para além do debate literário, esses clubes adquirem uma camada de profundidade quase terapêutica quando as obras escolhidas espelham as realidades vividas por suas integrantes. Temas sensíveis e urgentes, como violência doméstica e relacionamentos abusivos, ganham dimensões diferentes sob a ótica da autoria e das vivências femininas.
Não é atoa que a escrita feminina lidera entre os favoritos desses grupos, desde as obras de Conceição Evaristo para o clube Pretas e Páginas, Brittainy C. Cherry e a obra “Vergonha” para o Recanto da Leitura, e Harper Lee com a obra “O céu é para todos” para o Clube Literando.
Ao final, o que se vê em Pedreiras é uma rede de afeto construída por palavras, esses clubes não surgem apenas como uma iniciativa intelectual. Os clubes do livro mostram que, enquanto houver alguém disposto a ler e alguém disposto a ouvir, a literatura continuará sendo o lugar onde ninguém precisa estar sozinho.
Por Cleyse Guimarães






