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sábado, julho 20, 2024

Calor da moléstia: Janoca Maciel, uma escola de portas abertas

Calor, quentura, mormaço. Para não atentar ao pudor, vou despir-me apenas dos jargões cultos do português. Nossas artimanhas linguísticas locais são lindas demais e cabem no caso que descrevo a partir de agora. As palavras lá do início não estão aqui por enfeite e nem para fazer visagem – antes fosse –, mas a realidade é dura, crua e sem sal.

Haja creme debaixo do sovaco da meninada que estuda na Unidade de Ensino Janoca Maciel. Foi só mostrar o calor denunciado por pacientes do Hospital Geral de Pedreiras, que nosso WhatsApp ficou abarrotado de mensagens de quem padece sob o mesmo mal, em um ambiente que abriga parte do futuro de Pedreiras, cidade localizada no interior do Maranhão. Um amanhã que está derretendo de calor, torcendo para a chegada das chuvas, quando no máximo, sujará os pés de lama, mas estudar será menos fatigante.


 “A nossa escola é boa, não o prédio em si, mas na questão dos professores, a coordenação, as pessoas que trabalham, mas deixa muito a desejar na infraestrutura, de razoável para ruim e também os ares-condicionados… Aqui o estado é quente e ainda mais com a máscara. Está ruim demais para estudar nesse calor, ruim para respirar”.


A queixa é de Thalyson Matheus Pereira Silva, que aos 14 anos sabe de seus direitos e o poder que sua voz tem. Ele usa também as redes sociais para reivindicar. “Se a escola tivesse melhor infraestrutura, seria uma das melhores do MA!”, escreveu Thalyson, em uma pastagem da Prefeitura de Pedreiras sobre sua escola. O educando sabe que a falta de investimento o atrapalha numa caminhada que não é fácil.

Thalyson Matheus Pereira Silva, educando da Unidade de Ensino Janoca Maciel (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Doido é quem subestima a Unidade Janoca Maciel a partir de sua estrutura. Ao que parece ela, ao longo de várias gestões, ficou para trás diante da criatividade da gestão escolar, educadores e do protagonismo dos educandos. Apesar do mormaço cotidiano, os atores sociais da escola tiram leite de pedra com ecos que levam seu nome para além do bairro Seringal. A título de exemplo, foi finalista da etapa estadual do Prêmio Sebrae de Educação Empreendedora, com o projeto “Expressões em Língua Inglesa em Tempos de Pandemia”, ação coordenada pelo educador Marcus Krause.

Outra ideia inovadora, parida na escola, foi o Janoca News, finalista da IV edição do Prêmio Iberoamericano de Educação em Direitos Humanos. Com uma pegada jornalística, parte dos alunos da unidade mostraram que mentira tem perna curta, mas que é uma ameaça quando vira notícia infestando as redes sociais.

O Janoca se destaca, desde 2015, apresentando, na avaliação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), os melhores números em comparação com outras unidades municipais geridas pela rede pública de ensino. Mas o para-brisa dos prêmios pode ofuscar a visão de um ambiente escolar marcado por desafios e a quentura não ajuda, só atrapalha.

Unidade de Ensino Janoca Maciel, em Pedreiras, Maranhão (Foto: Joaquim Cantanhêde)

“Relato de quem já sofreu mal estar nas dependências da escola, devido ao período quente em nossa cidade. Nós temos sofrido bastante, principalmente nos dias quentes nas salas de aulas. Os ventiladores não estão dando conta. Precisamos urgentemente de uma solução para o nosso problema. Temos ares-condicionados instalados nas salas de aulas que não funcionam. A situação só piora. Um ambiente quente, tendo o uso obrigatório de máscara. Como poderemos ter aprendizagem nessas condições? Queremos um olhar de piedade por parte da administração da nossa cidade. Nos ajude! As crianças que hoje passam por essa triste situação serão o futuro da nossa cidade”, destaca a educadora Christyane Luna Pinheiro.


No varal dos indignados com a situação, ela não está sozinha. A fala do professor Vinícius Pereira esboça um desenho a partir de sua experiência como docente.

“A gente sofre muito com a falta de climatização das salas. Temos uma demanda grande de alunos, porque atendemos o bairro Seringal, Nova Pedreiras, Maria Rita e parte da Cantanhêde. Não temos uma climatização onde o aluno possa ter um estímulo para estudar e ter rendimento. Foi constatado que a energia não suporta, por isso os climatizadores não funcionam. A solução seria um transformador”.

Nas palavras do professor, não há quem consiga se concentrar diante da gastura causada pelo clima quente dentro das salas de aula. “Muitos pedem para sair”, acrescenta, destacando que à tarde a situação é ainda mais agoniante. Em uma realidade como essa o processo ensino/aprendizagem é afetado, ressalta. No período noturno, os alunos da modalidade EJA (Educação de Jovens e Adultos), sofrem com a instabilidade elétrica, que diretamente interfere na iluminação.

Em visita a escola, no dia 17 de dezembro de 2021, constatamos a veracidade dos relatos que recebemos. Das seis salas de aula, apenas uma era climatizada. Atualmente a unidade atende a 550 educandos.

Maria Eduarda Rodrigues da Costa Sousa, aos 14, descreve, sem gaguejar, uma realidade que vivencia diariamente. “Sala cheia de gente, uns 40 alunos, sem ar-condicionado, com basicamente um ventilador funcionando. Tá muito difícil isso. A gente fica com falta de ar de tanto calor e já teve quem passasse mal, quase desmaiando”. Os impactos ela pontua logo em seguida. “Isso também afeta nosso aprendizado, porque é tanto calor, tanta gente junta. É muito pior”, diz ela, acompanhada de sua amiga, Maria Eduarda Brito da Silva, 15 anos, que concorda com suas colocações.

Da direita para a esquerda Maria Eduarda Rodrigues da Costa Sousa e sua amiga Maria Eduarda Brito da Silva (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Quem vê as cores das festas de ABC, no final do ano passado, não vê os desafios das unidades ao longo do ano letivo. Problemas históricos, que atravessam gestões e que continuam sob o ‘tempo de reconstruir”.

Contatamos Maria do Amparo Santos Albuquerque, secretária municipal de educação. Ciente do teor das denúncias e desta reportagem, ela respondeu sem dar mais esclarecimentos: “A escola irá receber agora à tarde a minha visita com o engenheiro, para ser montado o projeto de melhoria de toda sua estrutura”.  A pedido da secretária retornei, via ligação, na qual propus que a acompanhássemos em visita à Unidade Escolar Janoca Maciel. Maria do Amparo disse que outras escolas seriam visitadas e que havendo um horário específico, me retornaria. Até o fechamento desta reportagem isso não aconteceu.

Funcionários da escola, com as quais conversei, desconheciam a história da visita. Até o momento ela não aconteceu.

Não muito distante da unidade em questão está o prédio da escola Branca de Neve, que passa por uma reforma em sua estrutura.  Fica ao lado da principal praça da cidade, no centro. “Vai ser a primeira escola com refeitório climatizado”, prometeu Vanessa Maia, em entrevista à Rádio Cidade FM de Pedreiras, no dia 19 de dezembro de 2021.

Enquanto a solução não bate à porta, a professora de ciências a deixa aberta, na esperança de que o vento passe por ela e traga um tiquinho de alívio aos alunos, na peleja entre a prova e o calor. Aberta, a porta azulada tem outro sentido: descaso. Que a educação é a saída, não resta dúvida, mas nesse calor da peste, a porta aberta é um convite à fuga.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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2 COMENTÁRIOS

  1. Engraçado que esse problema não é de agora, mas na época da gestão do Antônio França não teve nenhuma matéria do O Pedreirense falando sobre isso.

    • José, ao ler o texto você deve ter visto o seguinte trecho: “Quem vê as cores das festas de ABC, no final do ano passado, não vê os desafios das unidades ao longo do ano letivo. Problemas históricos, que atravessam gestões e que continuam sob o ‘tempo de reconstruir”. Está implícita a gestão de Antônio França. Inclusive, não foram poucos os fatos que narramos sobre a gestão passada. Basta dar uma pesquisada. Abraço.

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