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sábado, abril 18, 2026

A ressonante voz de uma quebradeira de babaçu na terra dos Beatles

Uma luta cruzando o mundo

Percorrer caminhos é parte da rotina diária das quebradeiras de coco babaçu. Na busca pelo fruto adentram os babaçuais. No Maranhão, estado brasileiro em que os conflitos agrários pairam sem uma solução efetiva, comunidades extrativistas pelejam para que dessa rotina não sobre apenas o caminho. Lutam por palmeira em pé, fazendo sombra e gerando vida que as mãos convertem em renda.

Para Kleidianny Ferreira os caminhos que a levam aos cocos são conhecidos. Nascida e criada em Monte Alegre, comunidade quilombola de São Luís Gonzaga, neles deu os primeiros passos e hoje cuida daqueles que são dados por seus filhos. É uma das 80 mulheres que integram a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais Quebradeiras de Coco Babaçu (AMTQC), na linha de frente em defesa da vida da floresta e com isso em defesa de sua própria existência. Pela palmeira, chamada por ela de mãe, foi mais longe, Londres, numa jornada com passagem por São Luís e Rio de Janeiro.

“Nessa viagem observei o mundo a nossa volta. Vivo em um totalmente diferente, com culturas, crenças diferentes. Foi importante e enriquecedor perceber que a cultura do outro encontra a minha”, destacou Kleidianny, ao nos receber em sua casa.

O motivo que a fez atravessar continentes foi a edição 2025 da exposição Women by Women, realizada entre os dias 9 e 12 de outubro, na Oxo Gallery. Kleidianny foi uma das quebradeiras retratadas por Nay Jinknss, artista visual brasileira.

Foto: reprodução/ActionAid

“Às vésperas da COP30, a ActionAid reforça a urgência de colocar a justiça climática, os direitos à terra e as vozes negras, indígenas e quilombolas no centro da ação global. O exemplo das quebradeiras de coco babaçu no Maranhão mostra como gerações de mulheres sustentam suas famílias e preservam ecossistemas vitais, mesmo diante da expansão predatória da agricultura industrial. A exposição celebra essa resistência coletiva feminina e alerta para a necessidade de maior apoio e financiamento contínuo às organizações locais de mulheres que estão na linha de frente da luta por igualdade e pela proteção da vida”, destacou Ana Paula Brandão, Diretora Programática da ActionAid, organização realizadora da exposição.

“Como cada uma é em sua essência, em sua natureza, em seu território. Foi uma honra enorme. As fotografias mostram como sou de verdade, o trabalho que exerço, que é justamente a quebra do coco e mostrando meu produto, aquilo que cultivo e crio”, destacou Kleidianny, questionada sobre o sentimento em ser retratada.

Foto: reprodução/ActionAid

Nas fotografias, em sua presença e no ecoar de sua voz, ressonâncias que chamam a atenção para as ameaças que pesam sobre os territórios e seus modos de vida – o agronegócio, denunciam, é o mais expressivo deles. Se organizar era a única opção. Nesse contexto surgiu a AMTQC, contando com a parceria de outras organizações.

“Um trabalho muito importante para fortalecer a luta das quebradeiras, para mostrar os resultados dos trabalhos e fortalecer a economia do babaçu, além da identidade das quebradeiras”, frisou Silvianete Carvalho, secretária executiva da Associação em Área de Assentamento no Estado do Maranhão (ASSEMA), uma das organizações parceiras presentes na exposição.

Kleidianny, a seu modo, segue os passos de Dijé Brigelo, figura conhecida, para além de sua comunidade, por sua luta em prol dos babaçuais e das extrativistas. Do outro lado do mundo denunciou os cercamentos, o envenenamento e o avanço devastador das fronteiras do MATOPIBA, com um modelo de desenvolvimento que ela repudia.

“Fui a voz e muitas mulheres que defendem esse território e levar nossa de luta, resistência pela preservação dos babaçuais. Só assim vão saber que existe quebradeira. Essa visibilidade é importante justamente na proteção desse espaço/território, já que estamos entre o Cerrado e a Amazônia”, diz Kleidianny, que defende a existência de leis de proteção, como é o caso da Babaçu Livre.


Confira também: Dois anos sem Dona Dijé: memórias da “mãe palmeira”

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