Coluna do Padre Zé Geraldo
Queridos irmãos e irmãs, encontro-me internado e, neste tempo de espera, tenho refletido muito. Dentro de mim, há um labirinto de medo; ao mesmo tempo, permanece uma consciência firme, mesmo em meio à fragilidade.
A dor que senti no caminho, interrompeu compromissos que sempre fiz questão de cumprir e me trouxe para dentro de um hospital.
Não posso afirmar que o que aconteceu tenha sido consequência de algum descuido comigo mesmo ou de ter me dedicado demais aos outros. Mas a enfermidade me fez perguntar, com sinceridade: quantas vezes o coração de quem cuida também precisa ser cuidado?
A chegada ao hospital começou com a dor, os primeiros atendimentos e os exames. Depois vieram a transferência para São Luís e a entrada na UTI.
Cada etapa me fez pensar na Igreja, que também precisa acolher os sinais de sofrimento antes que eles se agravem.
Hoje, a Igreja parece atravessar uma espécie de UTI a céu aberto. Sobre ela desabam enxurradas de críticas, algumas necessárias, quando ajudam a corrigir erros e a proteger quem foi ferido; outras vêm carregadas de desprezo e se transformam em agressão.
Igrejas são depredadas por vândalos; bispos são achincalhados; padres são vilipendiados; e, muitas vezes, fala-se do Papa como se qualquer palavra pudesse ser lançada contra ele sem responsabilidade ou respeito.
Há também católicos que, por decepção, cansaço ou feridas não cuidadas, já não conseguem amar a Igreja como antes.
Não escrevo isso para impedir perguntas, críticas ou cobranças.
A Igreja precisa escutar, reconhecer suas falhas e se converter sempre. Mas uma coisa é apontar uma ferida para que ela seja tratada; outra é ferir ainda mais o corpo que já sofre.
Quando a crítica perde a caridade e se torna humilhação, quando a discordância vira vandalismo ou insulto, o coração da comunidade também perde espaço para respirar.
Na UTI, os aparelhos acompanham o ritmo do coração e avisam a equipe quando algo exige atenção.
Pensei que a Igreja também precisa observar o próprio pulso: como está sua oração? Seu serviço alcança os que mais precisam? Há espaço para a escuta, a participação e a fraternidade?
Uma comunidade pode conservar suas atividades e, ainda assim, perceber que alguma parte de sua vida está perdendo força.
A rotina, por si só, não garante que o coração esteja recebendo o oxigênio de que precisa.
A Igreja nasceu há cerca de dois mil anos e atravessou séculos de mudanças, crises e fragilidades humanas.
Ao longo dessa história, também gerou frutos de cuidado: comunidades que acolhem, hospitais, escolas, projetos sociais e tantas iniciativas que servem aos pobres, aos doentes e aos esquecidos.
Essa história não a torna imune a erros nem dispensa a conversão. Mas, nos recorda que, mesmo ferida, ela continua chamada a servir e pode renovar sua missão quando volta ao Evangelho.
O cateterismo permitiu aos médicos olhar por dentro das artérias. Durante o exame, foi identificado um trombo intraluminal, e a equipe iniciou o tratamento com anticoagulantes antes de avaliar os próximos passos.
Essa imagem ficou comigo: também podem se formar obstruções no coração da Igreja. Às vezes, são a indiferença, as divisões e os ressentimentos; outras vezes, a falta de diálogo, o abuso de poder, a centralização ou uma pastoral que já não alcança quem mais precisa.
São bloqueios concretos, porque dificultam a circulação da escuta, da participação e do cuidado.
Olhar para essas artérias não deve servir para condenar a Igreja, mas para reconhecer onde ela precisa de atenção e mudança.
Os exames do corpo revelam o que os olhos não veem.
Na vida comunitária, precisamos de um exame igualmente sincero: escutar os pobres, visitar as comunidades, ouvir quem se afastou, acolher críticas justas e perguntar quem ficou sem lugar à mesa.
A oração, a Palavra de Deus, a Eucaristia, a justiça e a proximidade dos mais vulneráveis são fontes de oxigênio para o corpo eclesial.
Enquanto recebo o tratamento e aguardo a avaliação médica, compreendo que certos processos pedem tempo, acompanhamento e prudência.
Na Igreja, também não basta identificar um bloqueio: é preciso cuidar das relações, favorecer a reconciliação, abrir caminhos de diálogo e sustentar com paciência as mudanças necessárias.
O amor não apaga os problemas nem encobre as responsabilidades; dá força para enfrentá-los sem abandonar as pessoas feridas.
A internação também me colocou diante dos limites do corpo. Na UTI, dependi dos profissionais e precisei aceitar cuidados que, em outros momentos, talvez eu mesmo oferecesse a alguém.
Essa experiência tocou profundamente minha vida de Padre. Quem costuma visitar, ouvir, celebrar e amparar também precisa permitir que cuidem dele.
A missão não nos torna invulneráveis. O pastor pertence ao mesmo povo que serve e também necessita de presença, descanso e ternura.
Agora, na enfermaria, sigo acompanhado e caminhando aos poucos.
Cada passo pequeno me recorda o caminho da Igreja: avançar sem pressa, mas sem desistir de abrir as artérias por onde o Concílio Vaticano II, a Sinodalidade precisam passar.
Se a equipe médica indicar novos procedimentos, eles serão avaliados com cuidado.
Na comunidade, também precisamos discernir os passos que favorecem a circulação da esperança, da comunhão e do compromisso com a vida.
Agradeço a todos que rezam por mim, enviam mensagens e permanecem perto, mesmo à distância.
Tenho sentido essas manifestações como oxigênio chegando ao coração: elas não substituem o tratamento, mas sustentam a esperança e me lembram que ninguém atravessa uma enfermidade sozinho.
Peço que cuidemos do coração da Igreja com coragem e misericórdia.
Que saibamos reconhecer as artérias estreitadas, escutar os sinais de sofrimento, corrigir o que precisa ser corrigido e proteger a dignidade de cada pessoa.
Que o Evangelho alcance cada comunidade e que cuidemos também daqueles que se dedicam a cuidar, para que nenhum servidor precise esconder o próprio cansaço.
Sigo em tratamento, um dia de cada vez, confiando em Deus e na Intercessão de São Benedito, Padre Pio, São Miguel Arcanjo, além da Virgem Maria, Senhora do Mearim.
Que o Senhor fortaleça meu coração e renove o coração de toda a Igreja.
Com carinho e bênção,






