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domingo, abril 14, 2024

Um santo que a igreja precisa conhecer

OPINIÃO


“A VERDADE vos LIBERTARÁ!” (João 8,32). Padre Cícero Romão Batista (1844-1934) Foi um SACERDOTE BRASILEIRO de grande prestígio religioso e social para todo povo nordestino.

Filho de Joaquim Romão Batista e Joaquina Ferreira Gastão, teve a instrução escolar aos 6 anos de idade. Aos 12 anos faz seus votos de castidade, influenciado pela vida de São Francisco de Sales. Matriculado no colégio do renomado padre Inácio de Sousa Rolim, em Cajazeiras – Paraíba (1860), teve que deixar a escola após a morte do seu pai, voltando para casa da sua mãe, em 1862, agora viúva, solteira e enfrentando dificuldades financeiras.

Desejoso pela vida sacerdotal, ingressa no seminário em 1865, com a ajuda do seu padrinho, o Coronel Antônio Luís Alves Pequeno. No seminário, padre Cícero não era muito acadêmico, contudo, exercia com empenho a caridade e o desejo pastoral. Certo da sua vocação, foi ordenado sacerdote aos 30 de novembro de 1870, na festa de Santo André.

Seu primeiro trabalho como padre foi o de ser professor de Latim no Colégio Padre Ibiapina dirigido pelo professor José Joaquim Teles Marrocos. Foi no Natal de 1871 que o estimado padre chega pela primeira vez no povoado Juazeiro, pertencente a cidade de Crato. Ele vai a uma fazenda para celebrar a missa da Vigília do Natal (Missa do Galo). O padre visitante conquistou o povo, com uma simples retórica, mas muito firme e com muita fé. Ele se encanta com a simplicidade e a sede por uma vida santa daquele povo sofrido, mas confiante no Deus que o levou ali. Nascia uma história belíssima que se perpetuaria até o dia de hoje. 

Após esse primeiro contado, Padre Cícero teve um sonho, do qual relatou para seus amigos mais íntimos. Ele conta que depois de um dia cansado, com tantas confissões e ofícios próprios do sacerdote, ele se recolheu a seu quarto simples, no colégio onde trabalhava. Ao dormir, sonhou com a última ceia, mas com um pormenor interessante. No sonho, nosso Senhor, antes de completar as palavras de nossa salvação, levanta-se e o conduz à porta da casa. Ao chegar lá ele avista uma grande multidão de retirantes nordestinos, cansados e sofridos por um “castigo do céu”. Jesus tem compaixão do povo sofrido e fala a ele da sua decepção com os pecados da humanidade. Que o povo precisava se arrepender de tanto ofendê-lo e que ele estava disposto a fazer esse último sacrifício por aquela gente sofrida, porém, caso o contrário acontecesse, ele acabaria com tudo. Neste momento, Cristo aponta pra ele e diz: “E você, Padre Cícero, tome conta deles!”.

Ao acordar, ele lembra do rosto daquele povo do povoado do juazeiro e decide, ali, conduzir seu apostolado.

De incansável atividade pastoral, Padre Cícero pregava o evangelho com humildade e simplicidade. Visitava os doentes e aconselhava o povo. Nos anos de 1877 o “Castigo do céu” iniciou. Uma grande seca assolava o sertão durante três longos anos, acabando em 1879. Neste período, Padre Cícero liderou seu pequeno povo, organizando a comunidade, moralizando os costumes de pecado, como o excesso de bebedeiras e a prostituição. Grande por demais o vilarejo, ele, assim como o grande missionário nordestino Padre Ibiapina, recrutou mulheres solteiras e viúvas para o ajudar nesse projeto de converter almas para o reino dos céus. Era a Irmandade das Beatas.

A pequena capelinha de taipa, construída pelo Padre Pedro Ribeiro de Carvalho, tinha como padroeira Nossa Senhora das Dores. Reafirmando a fé do povo, padre Cícero a restaura, fortalece suas bases e anima ainda mais a devoção. Era uma pastoral assídua nunca antes vista. Aos poucos ele começa a despertar no povo grande admiração que se elevou para além das fronteiras do Juazeiro. Tal admiração começou a despertar inquietações em outros missionários, que não conseguiam ver nada de extraordinário no Padre Nordestino.

O povo do Juazeiro caminhava feliz, rezando e louvando a Deus, em sua labuta diária e sua fé simples, até que no dia 01 de março de 1889, algo de admirável aconteceu naquela pequena paróquia. Uma das hóstias, consagradas pelo Padre Nordestino e dada a Beata Maria de Araújo (membra da irmandade leiga por ele fundada), se transforma em sangue na boca da religiosa. Rapidamente se espalhou a notícia deste dito: “Milagre do Juazeiro”.

Várias pessoas começaram a direcionar sua fé para o interior do Ceará, porque lá Deus escutou as preces de seus pobres. Preocupado com a situação, padre Cícero pede, a diocese, a organização de uma comissão de padres e profissionais da área da saúde para investigar o dito milagre. Liderada pelo padre Francisco Ferreira Antero e com o auxílio dos médicos Marcos Rodrigues Madeira e Idelfonso Correia de Lima, e do farmacêutico Joaquim Secundo Chaves, a comissão encerra suas investigações no dia 13 de outubro de 1891 e confirma não haver explicação científica para o que ocorria naquele dito lugar.

Insatisfeito com o resultado da comissão, o próprio bispo instaura uma comissão própria, tendo como presidente o padre Alexandrino de Alencar e como secretário, o padre Manoel Cândido. Essa, constatou que não havia nada de extraordinário, mas sim uma invenção de Beata Maria de Araújo e do Padre Nordestino. Agora, satisfeito, o bispo, com sua autoridade, suspende padre Cícero de ordem e ordena que a Beata Maria de Araújo fosse enclausurada num convento. Ela viria a morrer em 1914, e meses depois, iniciou-se Primeira Grande Guerra Mundial. Padre Cícero recorre a Roma, em 1898, onde o Papa Leão XIII e a Congregação do Santo Ofício lhe dá a absolvição. Contudo, antes de chegar a Juazeiro, o vaticano reviu o seu caso e lhe lançou pena de excomunhão. Há quem conteste, afirmando que esta nunca foi aplicada de fato.

Impedido da missão sacerdotal, padre Cícero continua a ajudar o povo na questão social. Foi eleito o primeiro prefeito de Juazeiro, quando o povoado foi elevado à cidade. Interveio duramente contra as injustiças e mediando à luz da fé a vida social do povo daquela região, atraindo a admiração de todos, inclusive de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Figura paterna, padre Cícero, que apadrinhou o nordeste brasileiro, morre em Juazeiro do Norte aos 20 de julho de 1934, com 90 anos, e foi sepultado em uma igreja construída por seus devotos, sob o patrocínio de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Nunca esquecendo o Padre Nordestino e certos de sua santidade, todos os anos, centenas de devotos vão visita-lo e confiar à sua intercessão suas necessidades.

No dia 13 de dezembro de 2015, a igreja finalmente ouviu as preces do povo nordestino, dando ao Padre Cícero o Perdão Oficial. Naquele ano, todo o Nordeste, ministrado pelo Juazeiro, cantou o [1]Bendito da Reconciliação:


Igreja santa maravilhosa
Abriu a porta da Misericórdia
Como meu padrinho reconciliado
E a Mãe das Dores caminhando ao nosso lado

A mais de um século essa história se arrastando
E os Romeiros em Padrinho acreditando
Como ele disse a minha própria defesa
Ela vira da minha Mãe a Santa Igreja

Padrinho Cicero homem Santo e conselheiro
O Evangelho foi o seu amor primeiro
Por isso ele não temeu aos seus algozes
Em sua injustiça se uniram milhões de vozes

Sua Oração predileta era o Rosário
Maria valei-me e Jesus lá no Sacrário
Consagração, Renovação e as Candeias
No meu Caminho é a luz que alumie-a

E a Santa Igreja sempre rica em humildade
Cuidou do caso com prudência e Caridade
Com um decreto ao Romeiro anunciou
E ao meu Padrinho pediu perdão e abraçou

E hoje em festa o Nordeste Brasileiro
De todo canto seguir para Juazeiro
Pra celebrar a grande reconciliação
Do meu padrinho nosso Santo e nosso Irmão


Hoje, 20 de agosto de 2022, uma multidão de devotos se reuniu em torno do altar do Senhor na Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e com os ouvidos atentos, lágrimas nos olhos e fé no coração, ouviram, de Dom Magnus Henrique Lopes, o anúncio da Carta da Congregação para a Causa dos Santos. Nela o Santo Padre, Papa Francisco, autoriza a abertura do processo de beatificação do padre Cícero Romão Batista e o intitula SERVO DE DEUS.

Padre Cícero é santo – disso o povo nordestino nunca duvidou – mas é de grande importância para nós, que a Igreja também conheça a história deste padre, SANTO, BRASILEIRO E NORDESTINO.

Servo de Deus Padre Cícero Romão, CONTINUAI rogando por todos nós!

Por Johnew Lima Silva Sousa, nordestino e Pré-Noviço Dominicano


[1] Bendito da Reconciliação

Coral Nossa Senhora das Dores, 2015

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