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sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Quando não é Medeia: a naturalização da violência como resposta à frustração masculina

COLUNA DA NILA MICHELE


Nas histórias da mitologia grega, a princesa Medeia apaixonou-se por Jasão — herói amado pelos deuses — que chegou ao seu reino atrás do velocino de ouro, relíquia sagrada capaz de devolver-lhe o trono usurpado. Para livrar-se de Jasão e manter o velocino para si, o pai de Medeia impôs-lhe uma série de tarefas monstruosas, destinadas a matá-lo. Medeia, porém, trai o próprio pai e o seu reino por amor. Ensina Jasão a vencer os desafios, tomar a relíquia e foge com ele. Com inteligência e magia, ela o ajuda nos desafios da viagem e a recuperar o trono. Ao fim, Jasão casa-se com Medeia, com quem tem dois filhos. A história poderia terminar aí, como mais um belo conto de amor, mas não termina.

Dez anos depois, Jasão decide abandoná-la para casar-se com Glauce, filha do rei Creonte. Medeia é expulsa do reino. Mas, antes de partir, ela deixa como presente à nova noiva joias e vestes envenenadas que a matam em dor excruciante. Alguns narradores contam que Medeia, em fuga, não teve possibilidade de levar consigo os filhos que, diante da negligência de Jasão, foram apedrejados até a morte pela família de Creonte, como vingança. Entretanto, a versão mais conhecida desta história é contada por um dos pais do teatro grego: Eurípides. Na sua peça, é a própria Medeia quem mata os filhos — não num acesso de loucura, mas num gesto calculado de vingança contra o marido infiel.

A tragédia atravessou séculos e consolidou uma imagem: Medeia tornou-se símbolo da mulher descontrolada, vingativa, monstruosa. A própria psicologia a incorporou, tornando-a arquétipo da mulher que utiliza os filhos para punir o ex-companheiro, seja pelo filicídio, seja pela chamada alienação parental. Aliás, esta última é frequentemente mencionada em processos de divórcio conflituosos e, não por acaso, muitas “ex” são rapidamente rotuladas como Medeias — emocionais, vingativas, cruéis, incapazes de lidar com a rejeição. O linchamento moral às Medeias, de ontem e de hoje, é sempre imediato, implacável e feroz. A sociedade aponta, julga, condena e generaliza.

Mas o que acontece quando não é Medeia? Quando a violência não parte da “mãe descontrolada”, mas do pai que se sente traído? Quando não é a mulher, mas o homem que mata os filhos?

A história recente nos mostra que, nesses casos, o arquétipo desaparece. O julgamento já não é imediato. A condenação já não é unânime. Em vez de monstros, surgem explicações. Em vez de arquétipos, surgem justificativas como “estava transtornado”, “foi traído”, “perdeu a cabeça”, “não suportou a dor”. A suposta traição da companheira vira quase atenuante moral. A dor masculina vira explicação. O crime, por vezes, é suavizado como “tragédia familiar”. Mas é preciso dizer com todas as letras: não é tragédia; é violência.

E é violência estruturada — produto do patriarcado.

É o que ocorreu no caso do secretário de governo de Itumbiara, município de Goiás, que assassinou os próprios filhos e tentou atribuir à esposa a responsabilidade moral pelo crime. Assistimos, bestializados, à rápida transformação da vítima em culpada. A mãe passou a ser julgada nas redes sociais. Chamaram-na de traidora. Sugeriram que sua conduta teria provocado o desfecho. Circularam versões não comprovadas, comentários cruéis e ataques virtuais. E, como se não bastasse perder os filhos de forma violenta, ainda foi alvo de hostilidade pública que, segundo informações divulgadas pela imprensa, chegou ao extremo de impedi-la de participar plenamente do sepultamento dos próprios filhos. Enquanto isso, buscava-se compreender — quase desculpar — o assassino.

Infelizmente, este caso não é apenas um crime hediondo, mas também uma disputa narrativa. É preciso perguntar: por que, mesmo diante de um assassinato de crianças, a sociedade busca atenuantes para o homem e culpa para a mulher?

Posteriormente, veio à tona que não havia traição por parte dela. Ao contrário, ele mantinha relações extraconjugais que precipitaram o fim do casamento — desfecho que se recusava a aceitar. Ainda assim, a versão construída e deixada por ele encontrou terreno fértil, pois se apoia num imaginário antigo: o da honra masculina ferida.

O patriarcado opera assim. Ele transforma mulheres em responsáveis pelas reações masculinas. Ele ensina que o homem traído é humilhado, mas a mulher traída deve suportar. Ele naturaliza que o homem possa “perder o controle” diante da frustração. E, quando o controle se transforma em violência, busca-se explicação emocional em vez de responsabilização estrutural. Atos assim não revelam apenas crimes individuais: eles expõem o quanto nossa sociedade ainda está adoecida por uma masculinidade que associa amor a posse, honra a controle e dor a destruição.

Não é sobre traição. É sobre poder. É sobre a crença de que a vida do outro pode ser eliminada quando fere o ego masculino. Se fosse uma mulher a matar os filhos após ser traída, a sociedade evocaria Medeia sem hesitar. Não haveria espaço para atenuantes emocionais. Não haveria coro de compreensão. Haveria horror, repulsa e generalizações sobre a natureza feminina. Essa diferença revela o quanto patriarcalismo e machismo ainda estruturam nossas percepções morais.

Mais do que a violência em si, a tentativa de inverter os papéis revela algo ainda mais profundo: a necessidade de preservar a imagem masculina, mesmo às custas da destruição moral da mulher. Esse mecanismo é antigo. Ele não depende de provas. Depende de crença.

A crença de que a honra do homem é mais relevante que a vida da mulher. A crença de que a dor masculina é mais compreensível que o sofrimento feminino. A crença de que mulheres provocam, homens reagem. Isso é uma construção social. E é uma construção adoecida.

Machismo e patriarcalismo não adoecem apenas mulheres — embora recaia sobre elas o peso maior. Eles também adoecem homens, ensinando-os que vulnerabilidade é fraqueza, que diálogo é humilhação, que perder o controle é demonstração de intensidade. Produzem masculinidades incapazes de lidar com frustração sem recorrer à violência ou à destruição.

E quando a sociedade aceita a narrativa construída pelo agressor — mesmo após sua morte — ela perpetua o ciclo. Porque não basta matar. É preciso também destruir a reputação da mulher e deslocar para ela a culpa pelo ocorrido. É preciso garantir que, mesmo ausente, ele continue sendo compreendido.

Isso não é apenas machismo individual. É estrutura. É cultura.

É um sistema que ainda ensina que homens traem por natureza, mas mulheres traem por perversidade. Que homens perdem a cabeça, mas mulheres perdem o caráter. Enquanto não desmontarmos essa lógica, continuaremos assistindo a crimes seguidos de julgamentos invertidos — revitimizando mulheres e buscando explicações emocionais para o que é, na verdade, exercício de poder.

O machismo mata. E o patriarcado depois tenta reescrever a história. É urgente romper com essa lógica — não apenas para proteger mulheres nem para linchar homens, mas para responsabilizá-los e desmontar o sistema que transforma frustração em licença para a violência. Nenhuma dor amorosa legitima o assassinato.

Por fim, retomo o título deste texto para uma triste constatação. Quando não é Medeia, há uma permanência incômoda: a facilidade com que mulheres são culpabilizadas e homens são compreendidos. Naturalizar a violência como resposta à frustração masculina perpetua um ciclo que atravessa séculos.

Romper com essa lógica não é apenas imperativo ético — é exigência histórica.

Por Nila Michele Bastos Santos, doutora em História (UEMA), Mestra em História (UFMA) Historiadora, Psicopedagoga, Especialista em Formação de Professores. Professora do Instituto Federal do Maranhão IFMA – Campus Pedreiras. Coordenadora do LEGIP – Laboratório de estudos em Gênero do Campus Pedreiras. Colunista do Pedreirense.

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