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sexta-feira, março 6, 2026

Bom senso, um animal em extinção

OPINIÃO


A Acadêmicos de Niterói não será a campeã de 2026 do carnaval carioca. Leio por aí, inclusive, que corre o risco de ser rebaixada. A escola, contudo, foi certamente a mais citada neste carnaval, antes mesmo de levar para a avenida mais do que a história do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela levou a interpretação de Lula sobre fatos históricos recentes. Pelo pouco que vi, esteve longe de ameaçar as favoritas.

Nada contra homenagens — aliás, em vida, sou ainda mais favorável. Com todas as contradições que possam ser apontadas, e com Lula não é diferente, homenagens não são novidade na história humana. Nada tenho contra essa; contudo, o momento não poderia ser pior. Esta é mais uma daquelas situações que testificam: o Brasil não é o país do bom senso.

Se a linha entre homenagem e propaganda é naturalmente tênue, imagine sob o prisma distorcido do que não me atrevo a chamar de política. Esta, em essência, é boa e necessária. Sem ela não há fraternidade, menos ainda liberdade e cidadania. Não é ela que, há longas datas, o Brasil respira. (Tentei achar uma nomenclatura justa, mas sem sucesso. Texto que segue.)

Com a liberdade que lhe cabe, bem como a todas as outras agremiações, a Acadêmicos de Niterói não escolheu o bom senso e foi apoiada, inclusive, por Lula e pela primeira-dama, Janja da Silva, que desistiu de desfilar após algumas advertências do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Lula ganhou uma homenagem, mas, eleitoralmente falando, os efeitos colaterais ainda estão sendo calculados. Seus opositores, como era de se esperar, já recorrem ao TSE. O que querem? Sua inelegibilidade. Ele terá de se defender da acusação de propaganda eleitoral antecipada. Já tem um rival e é preciso ser muito apaixonado por ele para menosprezar o que mostram as mais recentes pesquisas: a consolidação do nome de Flávio Bolsonaro como seu antagonista. A vantagem vai minguando e o clima de “vai ser no primeiro turno” desaparecendo.

Recairá também sobre Lula o preço das famílias conservadoras “enlatadas”. Para bom entendedor, um verdadeiro tiro no pé. Não que, como qualquer fenômeno social, as hipocrisias do conservadorismo não possam ser apontadas, mas a abordagem acontece quando o pré-candidato petista tenta, aqui e ali, fazer um aceno aos evangélicos, cujo contingente expressivo se entende como conservador. A escolha e a forma foram decisões da escola, mas vocês acham que vai colar a explicação de que Lula não sabia de nada?

Caso houvesse o mínimo de bom senso no governo, em Lula e nos que lhe bajulam, a Acadêmicos de Niterói seria desencorajada a desistir, pelo menos momentaneamente, do enredo, observando-se que 2026 é ano eleitoral e que o carnaval é uma festividade já naturalmente demonizada por setores da cristandade.

Em um país com regras eleitorais estabelecidas, foram os avisos do TSE, às vésperas da folia, que podaram entusiasmos. Gesto com forma de L, nem pensar.

As reflexões oriundas dessa história toda, que deve se prolongar até outubro, dizem respeito ao desprezo político pelo bom senso. A verdade é que não há lugar para decisões dessa natureza em um ambiente que coloca homens em posição de divindades. A história de Lula, seja qual for o rumo, não está acima do bom senso. E, pelo amor de Deus, não façamos de Bolsonaro métrica. Ele foi eleito justamente por não ter nenhum. Não serve como referência.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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