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Pedreiras
sexta-feira, março 6, 2026

A trajetória de jovens pedreirenses rumo à universidade

Até onde o Mearim deságua?


O início de ano para quem acaba de concluir o ensino médio é marcado pela tensão do vestibular. É um período em que o medo do resultado desfavorável se mistura à ansiedade pelo que está por vir: a incerteza da aprovação e o peso de escolher um caminho acadêmico. 

Para muitos dos jovens pedreirenses, o resultado foram rostos e braços pintados com siglas, o som de foguetes e muitas lágrimas. Aquele choro aliviado, que vem do fundo da alma. Choro este que também foi visto nos rostos de seus pais e familiares, talvez tenha sido a primeira vez que muitos viram a emoção tomar conta da figura contida e séria de seus pais.

A conquista de uma vaga em um curso superior, em Pedreiras, na maioria das vezes costuma vir acompanhada de uma passagem de ônibus. Em uma cidade que é reconhecida como polo regional, mas que ainda luta para oferecer uma grade diversificada de ensino superior, o sucesso acadêmico muitas vezes exige um adeus precoce ao aconchego da princesa do Mearim.

Diante de tudo isso, uma geração de talentos locais não pode esperar. Eles estudam à luz de realidades distintas, entre as dificuldades de estrutura da rede pública e as pressões constantes do ensino particular. Mas, ao fim da jornada, todos compartilham o mesmo destino: a necessidade de cruzar fronteiras para conquistar formações que a cidade natal ainda não consegue oferecer.

Conversamos com três jovens que são a prova viva dessa resiliência. Embora venham de contextos diferentes, todos trazem na bagagem o peso da despedida e o brilho de quem sabe que está fazendo história.

Do IEMA, ainda chamado de “Olindina” por muitos, as alunas Nathassha Kellsey Figueiredo, de 18 anos, e Maria Eduarda de Carvalho, de 17, contam mais sobre o processo e as expectativas que surgem com suas aprovações. A rotina? Puxada. Além das aulas em turno integral, as jovens precisavam conciliar os estudos durante as horas que restavam do dia.

“Estudava o dia inteiro, voltava pra casa, tomava banho e voltava para o curso, quando estava bem mais perto do vestibular eu estudava sem parar, o dia todo, a noite no curso, os fins de semana e quando era um dia antes da prova eu passava o dia estudando, no dia da prova também, ia fazer as provas desgastada”, relata Nathassha. 

Para Maria Eduarda, o conteúdo da escola foi crucial: “A minha rotina de estudos se baseava muito no que a gente tinha na escola, já que eu estudava em um turno integral, e  não fazia cursinho e nem nada do tipo, então eu pegava o que era passado na escola e tentava revisar o máximo que eu conseguisse.” Maria Eduarda foi aprovada em História na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), em São Luís. Apesar de ainda não saber se cursará este ano, ela conta que a conquista foi recebida com muita alegria, o resultado de um ano muito difícil.

Maria Eduarda de Carvalho Gomes, 17 anos. Fonte: Arquivo pessoal.

A vida desses jovens não se resume ao preparo para o vestibular, eles precisam, repentinamente, aprender a conciliar diversas esferas da vida, quase como um “período de teste” para a vida adulta. Maria Eduarda desabafa: “Era difícil lidar com os estudos e o cansaço de estudar o dia todo, e também ter que conciliar os estudos para vestibulares com apresentações, trabalhos e eventos da escola.” 

Em terras piauienses, outro jovem de Pedreiras também foi destaque. João Gabriel, de 19 anos, egresso do Colégio Batista, ostenta uma coleção de aprovações em diversos estados. Com o propósito firme na carreira médica, a escolha foi certeira: ele decidiu ingressar na USP (Universidade de São Paulo), instituição que carrega o status de melhor universidade da América Latina. O motivo da escolha? Ele nos conta: “Escolhi essa carreira por ter em mente que minha dedicação deveria ter como propósito ajudar o próximo e contribuir com a sociedade, tendo a medicina como um ‘chamado de Deus’.”

João Gabriel, 19 anos. Fonte: Arquivo pessoal.

Sua dedicação era diária e exclusiva. Egresso do ensino médio, ele fazia cursinho em Teresina. Sobre esse processo, João Gabriel relata que uma das maiores dificuldades, além das longas horas frente aos livros, era a saudade de casa: “Com certeza a maior dificuldade foi em achar tempo para família, que é de Pedreiras, já que eu estudava de segunda a sábado, sobrando quase nenhuma oportunidade de visitá-los.”

A família foi o ponto central no relato de todos os entrevistados. Além de serem os primeiros a vibrar com as boas notícias, foram eles que acolheram nos momentos de angústia. Quando o peito apertava, Nathassha sabia a quem recorrer: “Minha mãe, eu mandava mensagem toda vez que eu estava desmoronando, ela me acolhia e dizia que eu deveria ser forte.” 

Nesta fase, é comum se sentir solitário, já que tudo parece depender de métricas e desempenho pessoal. Por isso, a participação da família, dos professores e amigos é essencial para criar um espaço onde esses jovens possam ser ouvidos sem julgamentos. É um período de “montanha-russa” emocional, onde a ansiedade impera. 

Maria Eduarda alerta: “A ansiedade e a pressão com certeza foram uma das piores coisas do ano, inclusive algo que acabou me sendo prejudicial no Enem por exemplo, porém eu tentava lidar da melhor maneira que conseguia, me acalmando da forma que dava no momento, e a dica que eu tenho pra quem ainda vai fazer algum vestibular, é que façam tudo com calma, tentando lidar com tais sentimentos o tempo todo, pois pode acabar sendo prejudicial, assim como foi comigo também.” 

Nathassha relata que também precisou lutar contra pensamentos negativos e a exaustão física: “Acreditar no meu potencial, foi difícil lutar contra a ansiedade, os pensamentos ruins e falta de fé em mim mesma, a rotina de estudo exaustiva também, eu fiz cirurgia na coluna, ficar horas sentada me deixava travada, mas eu tomava remédio e voltava a estudar, estudava sem dor, com dor, mas permanecia. Normalmente, eu chorava (risos) era a forma de aliviar um pouco, eu tentava me distrair saindo com amigos, comia açaí, tentava viver um pouco sem a pressão toda’’, relata Nathassha.

Com as aprovações, os jovens agora embarcam em outro processo: lidar com as mudanças. Precisarão deixar suas casas e enfrentar a vida em uma nova cidade e o jovem que ontem usava o uniforme da escola, agora precisará gerir um imóvel, cozinhar e administrar a própria independência.

Nathassha Kellsey conquistou o 1° lugar em Terapia Ocupacional na UEMA de Caxias e o 4° lugar em Jornalismo na UFMA, em Imperatriz. O curso escolhido foi Jornalismo. Para isso, deixará Pedreiras. O medo do novo parece gigante, mas ela resume: “Estou tentando acreditar que vou conseguir.” 

Nathassha Kellsey Figueiredo Pereira, 18 anos. Fonte: Arquivo pessoal.

Já para João Gabriel, a nova fase será na maior metrópole da América Latina: “O coração está feliz com tudo isso, pois isso está além daquilo que um dia imaginei alcançar, mas é uma mudança drástica de vida, mudando para a cidade de São Paulo para morar só, tendo saído do interior às vezes, parece complicado, mas tenho fé em Deus de que aquilo que for necessário Ele vai prover.”

Essas histórias ressoam para além de conquistas individuais, são o reflexo da potência de nossa cidade e da importância de políticas públicas voltadas para a educação. Mais do que números em uma lista de aprovados, Nathassha, Maria Eduarda e João Gabriel tornam-se inspiração para os jovens de Pedreiras, não apenas pela dedicação aos estudos, mas pela resiliência em acreditar no futuro que o ensino superior é capaz de proporcionar. 

Para aqueles que continuam na jornada, eles deixam mensagens que servem como bússola:

Maria Eduarda reforça a importância da persistência: “tudo o que eu tenho a dizer é que se dediquem e se esforcem, pois todos nós somos capazes, sem deixar a pressão  e a ansiedade tomar de conta, e até mesmo quem não conseguiu uma aprovação esse ano, com foco e dedicação, o próximo ano vai vir repleto de boas conquistas.”

João Gabriel lembra que cada estudante tem o seu tempo: “E como conselho: àqueles que estão no ensino médio, dediquem-se a essa fase importantíssima da vida estudantil e àqueles que já concluíram não se sintam atrasados, continuem se esforçando e tentando alcançar aquilo que desejam.”

Por fim, Nathassha traz um lembrete essencial sobre a nossa humanidade: “Por mais que os dias pareçam ser uma sucessão de eventos ruins, que as semanas se tornem difíceis e melancólicas, mantenham a fé, por mínima que seja, tentem acreditar em vocês. Mais uma coisa: vivam! Estudem, mas saiam com os amigos de vocês, dancem, comam algo que gostem, não se prendam apenas a aprovação, aos cadernos, vocês não são robôs.”

Entre o esforço e o sonho, esses jovens provam que Pedreiras continua sendo um berço de grandes talentos, prontos para ganhar o mundo.

Por: Cleyse Guimarães.

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