ENTREVISTA
Com o celular à mão somos de tudo um pouco. Tal qual no Gênesis, quando a palavra fora matéria-prima, segundo relato bíblico, da criação da Terra, hoje em dia basta um comando, um prompt, para que milagrosamente surjam fotógrafos, analistas políticos, cantores e ilustradores. No fim das contas, qual o rumo dessas profissões com a IA cada vez mais presente dando-nos superpoderes?
Não há resposta e a folha permanece tão branca quanto o vestido da ilustradora trizidelense, Alane Carvalho Brito, na ocasião em que concedeu uma entrevista ao jornal O Pedreirense. O local escolhido, por sua vez, foi o Bosque Seringal, em Pedreiras, Maranhão, dominado pelo verde.
Fala sobre suas referências, preferências, influências, em uma tela que une arte e traços de sua fé. Indagada se ilustradores e ilustradoras ainda são necessários na era do GPT. Foi enfática: “a Inteligência Artificial (IA) não tem a humanidade que nós temos”.
O Pedreirense: O que é ser ilustradora e quando você se entendeu uma?
Alane: Bom, para mim, ser ilustradora faz parte de mim, porque desde bem cedo eu comecei a desenhar, pintar, desde criancinha mesmo. Sempre gostei muito de arte. Meu pai sempre me incentivou, minha mãe sempre comprava alguma coisinha para pintar, algum caderno de desenho, mesmo que não tivesse tantas condições. Desde cedo sempre tive esse lado mais… Como que eu posso dizer? Mais latente, sabe? De querer pintar, de querer desenhar.
Quando era pequenininha sempre queria pintar tela. Só que eu não sabia onde achava. Sempre desenhei, pintei, ilustrei. Sempre gostei de assistir muito desenho – até hoje. Ser ilustradora, artista, é algo que já vem na minha identidade mesmo. Já faz parte de mim.
OP: Há algum desenho assim que você defina como preferido?
Alane: Os meus favoritos são os do Studio Ghibli. Eu gosto muito daquelas animações japonesas e tudo. Por mais que não tenha tanta influência no meu traço, mas sou apaixonada por aquele traço ali. Castelo Animado… esses desenhos do Studio Ghibli me chamam muito a atenção.
OP: Do ponto de vista técnico, levando em consideração a estética, os traços, o tipo de ilustração que você cria tem um nome?
Alane: Não sei. Por mais que algumas pessoas já me disseram que parece mais com cartoon. Tenho um estilo muito próprio. Não tenho algo definido, assim, pra dizer. É um estilo que eu não conheço bem.
Tenho um amigo de Recife que ele viu um desenho meu, numa página aleatória. Ele disse “na hora que eu bati o olho eu sabia que aquele desenho era teu, porque o traço era teu. Eu conheço de qualquer lugar”. Não sei qual é o meu traço, não sei qual é o meu estilo.

OP: Quais as suas referências, assim, de autoria, de artistas?
Alane: Há artistas contemporâneos em que me inspiro muito. Meu artista favorito da vida, que é o Van Gogh, que não tem tanta interferência na minha arte, eu acho. Mas eu sou apaixonada pela expressão dele e tudo. Pessoas que me espelho, hoje, é a Paula Milanez, – uma artista de Curitiba – e também a Brenda Bossato, também de Curitiba. São duas artistas maravilhosas. A arte delas é muito linda. E também tem um artista nordestino, o Paulo Moreira. Ele tem uma página no Instagram e sou apaixonada pelas artes.
OP: Qual é o peso, ou a influência – como queira chamar – do cristianismo nessa relação entre você e a sua arte? Por que Jesus Cristo, a julgar pelo seu perfil no Instagram, é um personagem tão frequentemente desenhado?
Alane: Sou apaixonada pelo homem Jesus, pelo Deus Jesus. Sou evangélica, mas antes disso sempre adorei muito a história, tudo de Jesus. Então, essa coisa de trazer ele para o cotidiano, de incluir ele na nossa vida, não só como se fosse um Deus distante, sabe? Enxergar Jesus, Deus, como alguém próximo, que está aqui, entre mim e ti, que está aqui, perto de nós. O que eu busco transmitir é essa questão de incluir ele no nosso dia a dia, como alguém que está ali, como alguém que faz parte, sabe? Basicamente isso.
OP: Essa relação com a tua arte, a forma como você a enxerga, teve alguma mudança após sua conversão, ou para você isso continua linear?
Alane: Teve uma mudança sim. Antes os meus desenhos, que eu nem postava, eram bem diferentes. Até a questão da qualidade. Porque a gente vai envelhecendo, vai mudando e também vai acompanhando, vai evoluindo. Mas, na época, lembro que eu desenhava muito só a figura feminina. Os meus desenhos eram basicamente isso: uma mulher correndo, uma mulher chorando, uma mulher andando. Acredito que a partir do momento que eu conheci Jesus mais de perto, passei a ver de outra forma, a querer transmitir também. E influencia, né? Tudo que a gente vê, fala, influencia naquilo que a gente transmite.
OP: Descreva um pouco do teu processo artístico: como começa, que técnicas e ferramentas costuma usar e em que momento você para e diz “tá bom”?
Alane: Bem complicado de se dizer a questão do processo, porque às vezes estou fazendo uma coisa aleatória e vem um desenho na mente, uma ideia. Quando vou desenhar, geralmente, começo, volto para o começo, apago tudo, volto. Então, não é algo que vem pronto e simplesmente sai pronto, mas gosto sempre de preparar um lugar, ficar quietinha, um lugar mais silencioso. Assim, ao ar livre também. Mas costumo usar o computador, uma mesa digitalizadora, Photoshop, que tem as ferramentas de desenho. Também desenho no papel, na tela, pinto, uso aquarela. Gosto de todo tipo de material, testo todo tipo de material. Por mais que nas minhas redes sociais poste mais os desenhos digitais. Tenho muito desenho também que eu faço manualmente. Acredito que o processo seja bem espontâneo, assim por dizer.
OP: Na era do GPT e de outras invenções, por que ilustradores e ilustradoras ainda são necessários?
Porque a Inteligência Artificial (IA) não tem a humanidade que nós temos de imaginar coisas e transferir sentimentos, sabe? Por mais que a gente coloque um prompt ali prontinho, perfeitamente, por vezes ainda é preciso refinar e o artista tem algo que ele já carrega. Quando vai transmitir uma arte, quando ele vai fazer uma obra, já vem algo dele ali. Até a IA, para criar algo, pega referências de várias pessoas. Acho que falta nisso basicamente essa coisa do sentimento. Os artistas são sim necessários, todos eles.

OP: De que forma você assimilou a discussão gerada em torno de uma polêmica, na verdade, envolvendo inteligência artificial, Studio Ghibli, direitos autorais e a banalização de uma linguagem artística?
Alane: Como que eu posso te dizer? Condenei, porque é um trabalho de muito tempo, caprichoso, de muita dedicação do artista que fica por trás de toda aquela obra. Quando a IA vem e simplesmente pega e transforma algo bem rápido, é como se aquilo perdesse o valor, o preço, sabe? Tanto trabalho, tanto esmero para chegar num resultado. Acho que em todos os âmbitos, sabe, da arte, até de profissões, de outras profissões, acredito que é como se diminuísse de certa forma o preço, o valor que aquilo tem. É bom que a IA tenha facilitado muita coisa no nosso dia a dia, mas quando a gente vai para esse lado da originalidade, daquilo que se criou através da criatividade de alguém, é como se banalizasse totalmente, se perdesse aquele valor. Porque as pessoas tendem a não valorizar aquilo que fica muito fácil.
OP: O que você encontra naquele que você desenha? O que eu encontro? Quando você olha, o que tem naquele desenho ali que você se percebe, você se enxerga naquele traço ali, né?
Alane: Quando o desenho está pronto, que olho para ele. Há alguns desenhos que mexem mais comigo. Dependendo do processo do qual ele foi feito. Sempre vejo algo meu ali porque é como disse no início. O meu traço ali é bem característico, diferente. É como se tivesse algo que diz que é meu ali, sabe? Não sei se me expressei bem, mas é basicamente isso.
OP: Você, pelo que me contou, desenvolve outras atividades. Enquanto ilustradora natural e residindo em Trizidela do Vale, Maranhão, você se sente valorizada aqui nesse lugar? Na tua compreensão, para esse lugar a tua arte importa?
Alane: É bem complicado de se dizer.
OP: Por quê?
Alane: A gente ainda está em uma cidade pequena, querendo ou não. Não que eu não ache que Pedreiras e Trizidela, não sejam cidades culturais, artísticas, que valorizem, porque eu acredito que a gente valoriza bastante a cultura, a arte e tudo. Mas a questão de valorizar mesmo, sabe? Ainda falta um pouco. Às vezes a gente vê isso em lugares maiores. Valorizar o preço, o valor de que tem a arte, não desvalorizar, diminuir. Em questão de oportunidades, não acho que seja tão bom quanto outros lugares. Mas acho que as pessoas não se importam muito, não. Algumas pessoas realmente não se importam tanto, assim, com a arte, sabe? Não tem aquele desejo de conhecer, de ver, de comprar, de algo assim, né?

OP: A partir dessa sua provocação… Qual o perfil de quem te procura?
Alane: As pessoas que me procuram geralmente já vêm com a ideia totalmente pronta, uma coisa meio pré-concebida. Tenho que esmerilar ali até chegar naquilo que a pessoa quer. Aí vai muita modificação, tira isso, tira aquilo, bota isso. Não acho que a pessoa queira a arte em si. Quer algo que já está ali na cabeça dela. Só quer você transmita –não que isso seja ruim. É muito bom, a pessoa está comprando, está querendo aquilo – mas não é como você apreciar, sabe, a arte, o ser arte. OP: Como é que o seu esposo, esposo lida com esse teu lado, com essa tua interface?
Alane: Meu Deus! Ele é o maior incentivador, o maior fã. Me apoia muito, me incentiva muito, compra um quadro quando está na rua. É aquela pessoa que não me prende, que não me limita, que não me critica. Então, total liberdade. É o que eu sinto, assim, de estar perto dele. Liberdade para fazer o que quiser no meu lado artístico, de expor o que eu quero. Valoriza muito esse meu lado, me incentiva muito.
OP: A vida precisa de ilustrações?
Alane: A vida não é suficiente. Você levantar, trabalhar, comer, voltar e não se deparar com aquilo que a sua alma está dizendo, sabe? Porque a arte, em todos os âmbitos, é o que a tua alma está querendo dizer, transparecer. Um pintor que faz uma pintura, um cantor que compõe uma música, sabe, em todas as esferas, acho que é necessário a arte.
OP: Sem sombra de dúvidas, existem outras ilustradoras, trizidelenses, pedreirenses, expondo, ou não, aquilo que criam. Você tem algo a dizer para elas?
Alane: Não ter medo, acima de tudo. Não ter medo de expor, caso haja o desejo de expor. De vender, caso haja o desejo de vender. Não se envergonhar, não se calar. Não… Como que eu posso dizer? Não esconder aquilo que você tem, sabe? É uma oportunidade de outras pessoas verem e se conectarem com aquilo que você tem a dizer. Porque a arte é algo que você está dizendo, está comunicando. Então, não tenha medo de dizer, não tenha medo de falar, de expor, de mostrar e de vender. Se houver oportunidade, não tenha medo de cobrar o valor que a sua arte tem.






