23.7 C
Pedreiras
sexta-feira, fevereiro 27, 2026

O poeta do povo segundo “Meus Sertões”

ESPECIAL JOÃO DO VALE


Prima Tereza, a companhia perfeita

Tereza Vale Parga tem 96 anos, é extremamente lúcida e não dispensa uma cerveja. A que nos serve acabou de chegar, mas não está muito gelada. Ela fala sobre o calor de Pedreiras, que amanhece com 37 graus centígrados nessa época do ano.

A professora de alfabetização aposentada é tímida diante de estranhos, mas a presença de João Aurélio, filho do cantor, a deixa mais à vontade. No início da conversa, Tereza conta que é quatro anos mais velha que o primo. Ela de 1929, ele, de 1933.

Tereza recordou que tanto a mãe de João quanto a dela, Petronilha, mais conhecida como dona Pituca, faziam bolos de tapioca, para serem vendidos em pedaços, em um tabuleirinho. O trabalho de João não permitia que os dois brincassem muito, mas quando havia tempo, jogavam baralho.

Pituca era irmã do pai de João, Cirilo, mas passou pouco tempo na região do Lago da Onça. Com um ano, foi morar em Pedreiras.

A prima do ex-garimpeiro sabe de cor várias músicas deles, que deixou Pedreiras com 14 anos. Menos inibida, solta a voz para cantar “De Teresina a São Luiz”, composta em dupla Luiz Gonzaga. Na época da gravação, os dois não podiam assinar a autoria por pertencerem a editoras diferentes. A solução foi colocar Helena Gonzaga, mulher do Rei do Baião, como parceira.

Dona Terezinha contou ainda que quando o governo do estado construiu o Parque João do Vale na cidade, ela cedeu discos e objetos do primo para o acervo do museu, que ocupa uma das unidades do centro de lazer, cultura e formação:

“O Parque é muito bonito. Achei a homenagem válida” – disse

Instigada por João Aurélio, a professora aposentada revelou que João a visitava com frequência e a levava para pescar, almoçar e dançar. Ela não sentia constrangimento em acompanhá-lo até nos cabarés, na rua da Golada.

“Nunca fui desrespeitada por ninguém. O João era muito querido. Um dia, fomos ao Diogo (nome de um brega). Quando um vizinho me viu entrar, passou por baixo de uma cadeira e saiu correndo. Ele era casado e ficou vergonha e medo de eu contar o que vi para a mulher dele”.

Além dos cabarés, os primos também iam dançar no Clube dos 10 e na União Artística Operária Pedreirense, hoje extinta.

Tereza considera que a cidade ficou famosa por causa do cantor. Segundo ela, o povo até hoje retribui o legado de João do Vale e sente orgulho de ser conterrâneo dele.


A cidade de Pedreiras e as pedradas de João do Vale

Imagem de João do Vale, feita por um artista popular, sentado em um banco da rua da Golada, atual rua da Ponte. Foto: Paulo Oliveira

João nasceu no Lago da Onça (1), comunidade quilombola a seis quilômetros do centro da cidade de Pedreiras, no Maranhão. A família mudou-se para a rua da Golada (2), em frente ao rio Mearim.

O menino gostava tanto de frequentar o Grupo Escolar Oscar Galvão, única escola estadual entre as três existentes no município, que acordava cedo para se banhar nas águas diante da casa e seguir bem limpo para o colégio.

O ritual se repetia, mesmo que na véspera , ele tivesse passado boa parte do dia vendendo arroz doce, mugunzá, bolos e pirulitos para ajudar a família. Um dia, aos 9 anos e na terceira série,

Grupo Escolar Galvão. Reprodução do Facebook Grandes Relíquias de uma Geração

João foi barrado. A vaga dele foi repassada para o filho de um coletor de impostos branco que acabara de chegar a Pedreiras.

O garoto sentiu o impacto do preconceito. Tanto é que após se banhar no rio, ele ia diariamente para a escola, não mais para aprender, mas para subir no muro e atirar pedras no prédio.

Adulto, João do Vale, extraordinário compositor e cantor que só estudou até a terceira série primária (atual ensino fundamental I), não esqueceu a covardia que fizeram com ele, citando o fato direta ou indiretamente em pelo menos três composições:

  • “Ouricuri”, de 1965, (“Lá no sertão, quase ninguém tem estudo/ Um ou outro que lá aprendeu ler”);
  • Minha história, de 1981, (“Enquanto eu ia vender doce, meus colegas iam estudar/ A minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar”);
  • E “Zé” (data não encontrada), na qual convida o hoje ex-governador do Maranhão e ex-presidente da República, José Sarney, a visitar Pedreiras (“Zé vai ver/ Vai ver Pedreiras como está/ Zé vai ver/Ainda ontem eu vim de lá/Percorri todo o Nordeste/ Fui inté no Maranhão/ Visitei minha Pedreiras/ Trizidela e o sertão/ Eu vi tantas novidades/ Que alegrou meu coração/Escola pra todo lado/Sem precisar pistolão”).

A terceira canção pode ser ouvida, a partir dos 18 minutos e 40 segundos do vídeo abaixo, feito durante a gravação do DVD do “Projeto Cultural da Golada para o Brasil”, criado há 25 anos para enaltecer o cantor e compositor pedreirense e divulgar os artistas da cidade.

Tributo

Histórias de e sobre João correram Pedreiras de ponta a ponta, de forma oral, graças a Dona Maricô, que preparava pratos de surubim e galinha caipira e vendia cerveja para quem “esticava” após as festas. O cantor frequentava o local.

Também faziam parte do núcleo bem próximo de João do Vale a prima dele, Tereza Vale Parga, 96 anos, que o acompanhava até nos cabarés e nos jogos de carteado, e o falecido Zezinho, amigo de infância desde o tempo em que os dois vendiam doces nas ruas. Graças a eles, foi possível conhecer mais detalhes da vida do ex-pedreiro.

Hoje quem guarda detalhes da vida do mais ilustre pedreirense é a professora quilombola, ativista cultural e ex-secretária municipal da Fundação Pedreirense de Cultura e Turismo, Francinete Santos Braga. Ela mantém uma dúvida familiar e a memória do único encontro que teve com João.

A incerteza tem a ver com o fato de os vizinhos comentarem que o pai de Francinete é primo de João. Essa informação nunca pode ser confirmada porque ele nunca mais apareceu após deixar a família.

Já o único contato com o compositor ocorreu no quilombo urbano, onde a professora é vizinha de dona Maricô.

“Uma vez eu estava em casa e ouvi um alvoroço danado. O pessoal dizia que o cantor e compositor estava lá. Como era uma criança curiosa, corri com lápis e papel na mão para pedir um autógrafo. Eu desconhecia que ele não sabia ler nem escrever” – contou.

Em seguida, João falou para a menina que atenderia seu pedido, pois aprendeu desenhar o nome. E assim fez. Francinete guardou a relíquia de seu ídolo por um tempo, mas um temporal destruiu boa parte do que existia na casa de taipa em que ela morava.

 (Continua)

Matéria atualizada em 23/10/2025, às 16h30

–*–*–

Pé de página

(1) – Apesar do filho de João, João Aurélio e outras pessoas informarem que ele nasceu no Lago da Onça, o biógrafo Marcio Paschoal, autor do livro “Pisa na fulô mas não maltrata o carcará”, diz que ele nasceu na rua da Golada. Segundo Paschoal, a mãe de João do Vale tinha quatro filhos – Aurélio, Antônio, Cleide e Miguel – e carregava mais um na barriga, quando convenceu o marido a mudarem para a sede da cidade de Pedreiras. João nasceu lá, em 11 de outubro de 1933. Na cópia da certidão de nascimento do artista, lavrada em 1944, consta apenas que ele nasceu na “casa de sua residência nesta cidade”, não deixando claro se foi próximo ao centro do município ou no povoado de Lago da Onça.

Rua da Ponte, ex-rua da Golada. Google maps

(2) A rua da Golada, atual rua da Ponte, é o local da antiga zona do meretrício de Pedreiras. Repleta de biroscas, era frequentada assiduamente por João do Vale, cantores e tocadores. Ali também era o ponto de encontro de jogadores de dominó e damas. Existem três versões para o nome, segundo a jornalista Mayrla Frazão, do site O Pedreirense.

A primeira tem a ver com os goles de cerveja e cachaça; a segunda, com o fato de uma mulher ter sido degolada às margens do rio Mearim, no passado; e a terceira, por ser um local de passagem de boiadas, cujo trajeto tinha o formato de uma gola.

A rua da Golada foi imortalizada na música “Pisa na fulô”, assim como alguns de seus personagens: Zé Cachangá, famoso tocador, seu Serafim, o melhor sapateiro da região e Dió, uma mulher que defendia os direitos das prostitutas.

Um artista popular , chamado Chiquinho, fez uma imagem, representando João e a colocou na Golada. É uma das três estátuas do artista na cidade. Parentes de João e alguns moradores criticam a obra por achar que ela não se parece com o cantor.


Abandono depois da morte

O cemitério São José, no morro com o mesmo nome, em Pedreiras, foi criado pelo comerciante Pedro Alexandrino. Por um desses mistérios que nunca serão explicados, Pedro foi a primeira pessoa a ser sepultada no local, no dia 4 de dezembro de 1901.

O fato de o cemitério ter sido inaugurado pelo proprietário criou o mito entre os prefeitos da região de que os administradores não devem construir os campos santos porque estão sujeitos a inaugurá-los.

Meus Sertões encontra sepultura de João do Vale abandonada, cheia de lixo e parcialmente quebrada. Prefeitura não cuida bem do cemitério. Foto: Paulo Oliveira

A história contada pelo professor e vice-presidente da Academia Pedreirense de Letras, Marcus Krause, tem tudo a ver com a cidade. Além de nunca ter inaugurado um cemitério, a atual prefeita Vanessa dos Prazeres Santos (União), 39 anos, não cuida direito do São José. O aspecto do cemitério é de abandono.

Falta planejamento, há excesso de túmulos e inexiste espaço entre eles. Além disso, segundo moradores, o único funcionário que havia no cemitério foi demitido há tempos.

No dia 23 de setembro deste ano, 18 dias antes da comemoração do 92º aniversário de nascimento do cantor, a equipe de Meus Sertões teve que escalar  pelo menos três sepulturas para chegar ao jazigo de João. A falta de acesso é o motivo pelo qual Tereza Vale Parga, 96 anos, prima de João, deixou de ir ao cemitério.

Estado lastimável

Após a escalada, nos deparamos com as grades do sepulcro abertas, lixo acumulado no local e parte das pedras pretas do túmulo quebradas. Impactado com o abandono do local, o jornalista de Meus Sertões, guiado por um morador do Alto São José, perguntou se alguém podia retirar o lixo e limpar o local. Alexsandro, neto do antigo coveiro, se prontificou a fazer o serviço por 100 reais, o que foi acertado.

Sepultura limpa após Meus Sertões pagar R$ 100.    Foto: Paulo Oliveira

A maldição do carcará

Rede de supermercado usou o coração do monumento para fazer marketing. Foto: Paulo Oliveira/Meus Sertões.

João do Vale é nome de uma avenida, de um parque e tem pelo menos duas estátuas e um busto espalhados por Pedreiras, cidade onde nasceu. No entanto, as homenagens repetem os altos e baixos da carreira do genial cantor e compositor. Aparecem e desaparecem, vão da luz dos holofotes ao ostracismo.

A primeira estátua de João foi instalada na entrada da cidade, na avenida que dá continuidade à rodovia estadual MA-122, em 2018. Ali estão instalados um shopping, que vive vazio pois o povo prefere fazer compras no comércio da avenida Rio Branco, no centro, e uma grande rede de supermercados.

                                    A antiga e a nova estátua na entrada da cidade. Fotos: Reprodução e Paulo Oliveira/Meus Sertões

O segundo estabelecimento, como contrapartida, construiu na rótula em frente um monumento dedicado a João do Vale. Detalhe é que o coração que substitui uma palavra na peça “Eu amo Pedreiras” tem o mesmo formato do que faz parte do logotipo do grupo comercial.

A nova estátua, representando João de camisa com mangas dobradas e calça compridas substituiu a original dourada, instalada no pedestal. Segundo alguns blogs da cidade houve polêmica por terem feito a mudança em uma combinação com a prefeitura, sem consulta popular.

Além disso, houve quem comparasse a imagem a um zumbi e considerasse a estátua antiga, com um carcará em bronze pousado na mão do cantor, mais bonita.

Já o busto do Parque João do Vale, inaugurado em setembro de 1921, também tinha uma “águia do sertão” no braço esquerdo de João.

Um mistério, porém, ronda as duas obras originais que tinham os pássaros: inteira ou parte delas desapareceram e ninguém sabe informar o que aconteceu ou onde foram parar.

          1 e 2 – O busto no dia da inauguração do parque e em setembro desde ano. 3 – Possíveis marcas do carcará arrancado. Foto 1: Joaquim Cantanhêde/O Pedreirense. Fotos 2 e 3: Paulo Oliveira/Meus Sertões

João Aurélio, filho do cantor Pedreirense e administrador do local, que será retratado em outro capítulo da série, também desconhece o ocorrido. Ele falou que quando assumiu o cargo encontrou o busto atual. Para ele é outra peça. No entanto, mais parece que o carcará foi arrancado.

A terceira imagem, na rua da Golada, foi feita por Chiquinho, um artista popular. O artista pedreirense está sentado em um banco de cimento. Ela também atrai críticas por não ser parecida com o homenageado, mas tem o valor de representar a presença dele no local onde morou quando criança e frequentou na fase adulta, já consagrado.

Francinete Braga, ex-secretária municipal da Fundação Pedreirense de Cultura e Turismo, tem uma explicação para o sumiço da primeira imagem:

“Quando muda de gestão, quem entra quer desmanchar tudo que a outra fez.  No caso da estátua que estava na entrada da cidade quando a gente viu já tinha desaparecido. Eu e Manoelzinho, ativista e produtor cultural, e outras fãs de João fomos em alguns lugares, mas não conseguimos mais encontrar a estátua” – disse, acrescentando não saber o que aconteceu no Parque.

Voltando à Francinete, ela considera que os gestores municipais de Pedreiras nunca retribuíram a fama que João deu à cidade, nem reconheceram a grandeza do seu mais ilustre cidadão,

“Eu já tive a oportunidade de ir a Serra Talhada, terra de Lampião, e vi que a cidade vive em torno dele. Pedreiras também poderia ser assim” – avaliou.

Sobre o parque construído pelo governo do estado, a professora quilombola contou que o ex-governador Flávio Dino sempre foi apaixonado pela obra de João do Vale. Diante disso, influentes pedreirenses da área cultural fizeram pressão para a obra sair do papel e obtiveram êxito.

Outras tentativas de fracassar o artista fracassaram. Em seu segundo mandato, o prefeito Leoilson Passos (2009-2012) mandou construir uma casa de barro similar a moradia de João, no quilombo Lago da Onça. Com a intenção de atrair turistas, chegou a instalar um projetor de vídeos no local. Uma chuva forte acabou com os planos, pois a construção precária veio abaixo. Logo depois, mudou a gestão e o projeto foi abandonado.

Maquete da réplica da casa em Lago da Onça existente no museu do Parque João do Vale

“Ainda tentei reerguer a casa quando eu estava na secretaria municipal, mas o gestor da época achava que cultura era apenas eventos. Comigo essa história não colou. Então, eu pedi para deixar o cargo” – lembrou Francinete.

Já sobre a estátua da rua da Golada, a experiente ativista cultural acrescenta que em vez de retratar João, o artista acabou produzindo o rosto de um certo João Moscoso, também conhecido na região. Na mesma calçada, onde está a representação do cantor havia uma placa informativa, que também desapareceu. Integrantes da área cultural planejam buscar recursos da Lei Aldir Blanc para reconstruir a placa e refazer a estátua.

Outra tentativa fracassada de homenagear o cantor ocorreu em 2024, quando a Câmara de Vereadores avaliou o projeto de lei que mudava o nome da principal avenida de Pedreiras de Rio Branco para João do Vale. A proposta foi derrotada por oito votos a seis.


A onça mora no pé do lajeiro

João Batista Vale nasceu em uma casa de barro coberta com palha de palmeira, no dia 11 de outubro de 1933, no Lago da Onça, a seis quilômetros do centro de Pedreiras. Na época, dez famílias moravam no local.

O menino foi registrado pelo pai com meses de atraso, mas houve um erro na certidão, segundo a ativista cultural Francinete Braga. O documento só foi corrigido 11 anos depois.

O primeiro a chegar no povoado, reconhecido em 2008 como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, foi o bisavô de João, Regino Vale. Escravizado, trazido à força de Angola, Regino adotou o sobrenome do senhor de escravos que o comprou. O fundador do povoado hoje é nome da escola municipal existente no local.

Réplica da casa onde João nasceu não existe mais. Reprodução

Quando João estava grandinho, ele ia para a sede de Pedreiras, a fim de vender os bolos preparados pela mãe, Levergidia. Nessa época, começou a compor os primeiros versos para atrair compradores.

Para frequentar a escola, o futuro cantor e compositor mudou-se para a rua da Golada, no centro da cidade.  No início da adolescência, João partiu para São Luís com o restante da família, atendendo um chamado do irmão mais velho, Aurélio, que acabara de ser promovido a terceiro–sargento da PM. Na capital maranhense, o adolescente começou a vender bananas em uma feira.

Sonhando em ir para o Rio de Janeiro, o futuro cantor fugiu aos 14 anos para Teresina, capital do Piauí, se unindo a trupe de um circo. Os artistas circenses percorreram o sertão daquele estado antes de chegarem ao destino final, onde João do Vale abandonou o grupo e arrumou emprego como ajudante de caminhão. Fazia viagens constantes para Fortaleza (CE), de onde escreveu para o pai, pedindo perdão pela fuga e informando que pretendia seguir para o Sudeste.

Antes disso, foi pedreiro na Bahia, garimpeiro em Minas Gerais, onde não encontrou riqueza, só formigueiros. Sem esperança de fazer fortuna, partiu de carona em um caminhão carregado de arroz para o Rio de Janeiro. O ano era 1950, o mês, dezembro. Com 17 anos, o adolescente de Pedreiras foi trabalhar como ajudante de pedreiro em uma obra, em Copacabana.

“João do Vale ficou famoso, mas nunca deixou de vir para o Lago da Onça. Sempre que chegava em Pedreiras, tirava os sapatos e ia para lá. Andava descalço para sentir o chão” – disse Francinete.

A ex-secretária municipal da Fundação Pedreirense de Cultura contou uma história que dá a dimensão do amor que o “maranhense do século XX” tinha por sua terra, inspiração para várias composições.

“Os familiares de João venderam as terras do Lago da Onça. Ele veio do Rio de Janeiro assim que soube da compra. Chegou em Pedreiras e quis saber quem era o novo proprietário. Descobriu que o comprador estava hospedado no Planalto Hotel e foi até lá, levando uma mala de dinheiro. Após recomprar as terras, foi ao povoado e entregou a documentação para Salvador, primo e parceiro.

João Aurélio, filho mais novo do artista, calcula que, atualmente, 70% das casas do povoado são de alvenaria. O restante é de barro com cobertura de palha. O abastecimento de água é feito através de poços artesianos e a energia elétrica chegou por volta de 2010.

João Aurélio sentado ao lado da estátua que homenageia o pai, na rua da Golada. Foto: Paulo Oliveira/Meus Sertões

Recentemente, a Câmara de Vereadores aprovou a criação do Complexo Cultural Lago da Onça, que consiste na reconstrução da réplica da casa de João no local exato onde ele morou; a construção da réplica da antiga capela de São Benedito, primeiro templo de Pedreiras; a construção de portais na entrada e saída do povoado; e a colocação de uma estátua representando uma onça.


Uma bodega chamada João

A fama de mulherengo de João do Vale se justifica. Às muitas histórias admitidas pelo filho mais novo do cantor e compositor, uma delas foi descoberta por acaso por nossa equipe na cidade de Trizidela do Vale, antigo bairro de Pedreiras, emancipado em 1994.

Ao perguntarmos à proprietária do acanhado bar e restaurante João do Vale, que se identificou apenas como Luiza, o motivo da homenagem, ela respondeu de pronto:

“Eu fui a última mulher dele. Eu tinha um estabelecimento com outro nome. Aí ele pediu para eu colocar o nome dele e atendi” – contou.

Nesse ponto da conversa, Luiza pergunta quanto ia receber pela história que estava contando. Como resposta, ouviu que não teria pagamento nenhum, pois no Brasil não se paga por entrevistas. Mesmo assim, ela continuou a falar.

Fachada do restaurante João do Vale, em Trizidela do Vale, Maranhão. Reprodução

A comerciante revelou que os dois se relacionaram entre 1984 e 1996, ano em que João morreu. Nesse período, saíam para dançar e passear em São Luís, capital do Maranhão, mas a frequência era pouco porque o trabalho no restaurante a prendia.

Luiza acrescentou que sabia que o cantor pedreirense, nascido no quilombo Lago da Onça, era casado, mas isso não impedia o romance deles.

“A outra mulher vivia no Rio de Janeiro e João morava em São Luís. Ele me visitava de vez em quando. Depois, morou um tempo comigo e eu cheguei a cuidar da doença dele” – disse, referindo-se a um dos três AVCs (derrames) que o “maranhense do século” sofreu.

Luiza lembrou que conheceu João do Vale quando amigos o levaram para comer no restaurante dela. Na versão da mulher, o cantor foi direto:

“Ele me viu e perguntou se eu queria ficar com ele. Aceitei logo porque a química bateu” – afirmou.

Há dois anos, Luiza se casou. Ela falou que o atual companheiro sabe do romance, mas não tem ciúmes. Por fim, ela justifica uma paixão tão avassaladora.

“João era um personagem histórico, uma lenda”


Reconhecimento tardio, família e aventuras amorosas

João Aurélio Rodrigues do Vale, 50 anos, pai de João Miguel, assumiu a administração do Parque João do Vale, em Pedreiras (MA), terra natal do compositor e cantor maranhense. O local foi inaugurado em setembro de 2021 e Aurélio substituiu a maratonista Cleudilene Ramos, primeira gestora, nove anos depois.

O convite feito pelo secretário de cultura do estado, Anderson Lindoso, foi imediatamente aceito pelo filho mais novo de João do Vale, que nutria o plano de construir um museu sobre o pai no Rio de Janeiro ou em Nova Iguaçu, cidade da Baixada Fluminense onde o compositor morou e a família até hoje tem uma casa.

Quadro do acervo do Memorial João do Vale, Foto: Paulo Oliveira/Meus Sertões

O acervo amealhado foi levado para o memorial instalado no Parque, subdividido em diversas partes, que receberam nomes das músicas do Pedreirense. A biblioteca, por exemplo, se chama “Minha História” e a escola de música, “A voz do povo”.

Além disso, possui três playgrounds, quadra de areia, quadra poliesportiva, academia ao ar livre, pista para caminhadas e corridas, estátuas, monumentos. Em alguns horários, altos falantes instalados nos postes emitem músicas de João. Há ainda uma réplica da locomotiva que inspirou a música “De Teresina a São Luís”, parceria feita com Luiz Gonzaga.

“Quando me vi diante do parque tive a sensação que finalmente tinham reconhecido a história do meu pai. Uma vez um jornalista cearense foi me entrevistar no Rio e me perguntou: “Onde é que fica o museu sobre teu pai no Maranhão? Em Pernambuco tem o museu Luiz Gonzaga; na Paraíba, o de Jackson do Pandeiro. Dei conta que estava faltando isso e fiquei envergonhado” – revelou João Aurélio.

Na conversa de 50 minutos com a equipe de Meus Sertões, o administrador do Parque falou sobre seu trabalho e contou muitas histórias relacionadas ao pai, que foi velado no auditório do complexo que o homenageia.

Aurélio lembrou o lado mulherengo de João, do ciúme e da tristeza da mãe e de como ele próprio se chateia quando dão mais importância ao alcoolismo do que ao talento do compositor maranhense.

Leia a entrevista abaixo:

O que você trouxe para o memorial João do Vale?

Os jornais que minha mãe guardava e fotos de família

Quando você assumiu o Parque você criou alguma atividade? Como é ser gestor de uma área dessa?

É bem trabalhoso trabalhar com o público, né? Uma das coisas que a gente bate muito aqui é conscientizar a população para não quebrar os equipamentos e para a importância de João do Vale. São raros os parques existentes no Maranhão. E esse aqui é bem visitado. São cerca de 600 por dia. O parque abre às cinco da manhã para quem quer fazer caminhadas e fecha às dez horas da noite. Funciona de domingo a domingo.

Quantos funcionários tem no Parque?

Seis vigilantes, pessoal da limpeza. O total chega a 25.

E quais são os principais eventos que são realizados aqui?

Tem um palco que foi inaugurado há menos de um ano. Nossa ideia é realizar muitos shows e eventos. Há um mês teve um de uma igreja.

Tem atividades esportivas aqui?

Vai ter um campeonato de atletismo em breve.

O teu cargo é vitalício?

Não

O Parque tem verba para manutenção?

A administração não tem verba nenhuma. Funciona assim por demanda. Quando quebra uma coisa, a gente faz o requerimento e o Estado providencia o conserto.

Tem algum projeto de criar algo no parque? Ou ele já está completo?

Tem um projeto de criar uma outra pista de skate aqui. A primeira fica perto do obelisco.

Réplica da locomotiva que inspirou a letra da música “De Teresina a São Luís” Foto: Paulo Oliveira/Meus Sertões

O que as pessoas que visitam o complexo dizem sobre teu pai?

Eu escuto muito algo que me irrita muito: “Ah, eu bebi muito cachaça com o teu pai. Histórias que. não acrescentam. Teve um visitante que veio com esse papo. Eu perguntei qual era a idade dele: “45” – respondeu. Meu pai morreu há 29 anos. O primeiro derrame que o deixou com problemas de comunicação e em cadeira de rodas foi em 1987Como ele pode ter bebido com meu pai? O sujeito tinha sete anos na época. Esse é o tipo de história que não quero ouvir. Tem também quem invente coisas para tentar se aproximar. “Teu pai tocava violão muito bem”. Ele não sabia tocar.

Teu pai teve quantos filhos?

Teve quatro com a minha mãe. Mas quando eles se casaram minha mãe, dona Domingas, era viúva e já tinha três filhos. E sempre dizia: “Eu tenho sete filhos, mas três fizeram por mim”. Eram cinco homens e duas mulheres, mas a mais velha morreu.

Depois de inaugurar o Parque, o então governador Flávio Dino voltou aqui?

Não, a inauguração foi no final do mandato dele.

Vocês pensam em trazer pessoas para fazer shows aqui?

Pensamos, mas é superdifícil porque não temos verba.

Nem os amigos dele?

Muitos amigos do meu pai ainda estão em evidência. Tem o Zé Ramalho, o Alceu Valença o Geraldinho Azevedo. Meu pai é padrinho da filha do Zé Ramalho.

E como foi a vida de João do Vale no hoje quilombo Lago da Onça?

A distância varia entre seis e oito quilômetros. Ele vinha de lá para Pedreiras, onde vendia bolos, doces e pirulitos. Acho que vinha a cavalo. Na época em que ele era menino não tinha quase nada lá. Para ter uma ideia, a energia elétrica só chegou no povoado por volta de 2010.

Escola de música no Parque João do Vale. Foto: Paulo Oliveira/Meus Sertões

Seu pai sofreu muito preconceito?

Acho que a vida dele foi muito difícil. Uma pessoa negra, semianalfabeta, nordestina. Ele chegou no Rio de Janeiro sem conhecer ninguém, dormia no canteiro de obra.

Ele falava sobre isso com os filhos?

Não. Lembro que ele só cobrava que a gente estudasse. Também lembro dele contando que o primeiro dinheiro que ganhou com direito autoral, ele mandou para a minha avó. Ela enviou uma carta para ele perguntando o que ele estava fazendo para mandar tanta grana. Hoje as pessoas nem querem saber de onde vem o dinheiro. Eu sou da época que quando chegava em casa com uma caneta meus pais queriam saber como eu consegui. E a minha avó fazia o mesmo com o meu pai. Mesmo sendo pobrezinha, ela queria saber a origem do dinheiro.

E vocês, os filhos, estudaram até que série?

Quase todos se formaram. A gente era muito cobrado sobre isso. Eu fiz administração e engenharia também.

Nenhum de vocês quis ser compositor, cantor?

Meu irmão mais velho, Nonato, é funcionário da Petrobras. Ele tem um ouvido ótimo e queria se aventurar na música. Mas nunca teve apoio. Queria largar a Petrobras, mas meu pai sabia o que tinha passado e não deixou.

E como era o relacionamento de João com dona Domingas?

Ontem eu estava falando com minha namorada que filho homem é muito pelo lado da mãe, né? Eu sou muito a favor dela. Meu pai se envolveu com muitas mulheres. Uma vez foi com uma professora belga. Se não me engano ela se chamava Viviane. Ela veio para o Brasil pesquisar as canções de meu pai.

Tempos depois ele mandou uma carta para José Sarney, ex-governador do Maranhão, que era muito amigo de meu pai. A carta dizia mais ou menos assim: “Camarada, uma professora veio da Bélgica me estudar, agora estou precisando que você mande uma passagem para ela porque estou estudando ela (sic)” [1].

O Sarney mandou a passagem ou não?

Mandou. Ela morava em Bruxelas.

Dona Domingas reclamava das aventuras amorosas de João?

Minha mãe era aquela maranhense de Turiaçu que ia lá, quebrava o pau, batia, né? Nunca vi meu pai levantar a mão para ela. Tem também uma história de que ele teria se envolvido com a Miúcha, irmã do Chico Buarque. O caso foi publicado em uma revista. Isso deu uma briga danada com minha mãe. Durante a discussão, meu pai, na maior cara de pau disse: “Domingas, isso foi coisa do meu empresário para levantar a minha carreira e a dela.

A tua mãe ficou com ele até o fim da vida, não foi?

Ela viveu com ele mais de 30 anos juntos. Quando ele saía para os shows ou para viajar, ela cuidava da filharada. Ela morreu três meses depois dele.

E além dessa história, surgiram outras iguais?

Tem um cantor, o Rogério do Maranhão, diz que meu pai teria tido um lance com a Clara Nunes, mas eu não sei…Agora a história com a Miúcha foi bem divulgada.

João do Vale e Chico Buarque. Reprodução

Com teu pai viajando com frequência para o Nordeste, a fim de fazer shows, o que você pensava? Sentia falta dele?

Eu sentia falta porque a gente perdia vários momentos. Mas era muito bacana quando ele voltava. Teve uma formatura minha que ele não foi porque estava trabalhando. Mas assim que ele chegou, uma ou duas semanas depois, mandou minha mãe me arrumar com a minha farda para tirar muitas fotografias comigo. É uma pena que eu perdi essas fotos.

Qual o filho que ele era mais chegado?

Era eu. Quando eu nasci, meu pai tinha 42 anos de idade e seis filhos. Então, eu era o xodó. A diferença minha pra minha irmã é de quase oito anos. Na época, a maioria dos meus irmãos estava casado. Eu era a raspa do tacho e ele tinha um imenso carinho por mim.

Ele cantava para vocês?

Cantava. Teve uma festa de final de ano na escola onde eu estudava. Aí, ele foi lá cantar. Cara, ali eu vi a força dele. Botaram uma caixa de cerveja assim pra ele subir, né? Pra ficar um pouquinho mais alto. Só o microfone e ele. Pegar atenção de várias pessoas não é fácil. Todo mundo estava atento, escutando o que ele falava e cantava. Eu tinha 11, 12 anos e fiquei impressionado.

Você lembra de outros shows dele?

Eu ia muito no Projeto Seis e Meia [2]. Meu irmão, oficial da Marinha baseado em Natal, conta que um colega dele foi ao teatro só para tirar uma foto com meu pai. Ele ficou esperando um tempão na entrada. João tirou a foto e perguntou se o rapaz e o grupo que o acompanhava iam assistir ao show. Eles responderão que não tinham dinheiro para pagar o ingresso. Ele então botou uns 20 universitários para dentro. A contratante não gostou muito, mas ele era assim. Hoje em dia tem artistas que não querem nem tirar foto com os fãs.

Você lembra de outro episódio de como teu pai te tratava?

Ele me fazia dormir cedo. No domingo, depois de “Os Trapalhões”, antes de começar o “Fantástico”, eu tinha que ir para cama porque estudava de manhã. Atualmente, as crianças dormem a hora que querem.

E você, tem quantos filhos?

Três

Eles tiveram contato com o avô?

Não, mas têm orgulho de serem netos dele. Minha filha estuda psicologia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Quando souberam que ela era neta de João do Vale, quiseram fazer um documentário sobre ele. Já meu filho mais novo, que tem 10 anos, participou de uma homenagem ao avô na escola dele

O que você sente quando entra no memorial feito para ele no Parque João do Vale?

Eu lembro que o Estado que tirou o direito de ele estudar, agora só estão fazendo o que lá atrás tiraram dele. O reconhecimento demorou, mas chegou. Eu acho que só faltava um lugar como esse para poder contar a história de meu pai.

Você lembra quando João sofreu o primeiro acidente vascular cerebral?

Ele estava com uma amante em um hotel. Essa mulher botou ele (sic) em um táxi e mandou para o Hospital da Posse, em Nova Iguaçu. Lá, jogaram ele em uma maca. Ele caiu e bateu com a cabeça no chão e sofreu uma fratura. Aí, apareceu uma estagiária que o reconheceu e avisou para a direção, que ligou para o Chico Buarque. O Chico providenciou a transferência para o Hospital Casa Bambina, em Botafogo, onde ele teve um excelente atendimento. Isso aconteceu em 1987. Meu pai ficou com sequelas, dentre elas dificuldade de se comunicar, e passou três anos em cadeira de rodas. Onze anos depois, no terceiro AVC, ele morreu.

E a mulher que estava com ele sumiu?

Acho que ela só queria explorar. Antes do AVC, ele comprou material de construção para ela fazer uma obra e deixou a nota fiscal no bolso da calça. A minha mãe viu e foi lá com a minha irmã. São várias histórias assim.

Filho mais novo do compositor e cantor maranhense João do Vale revela histórias do pai. Foto: Paulo Oliveira

Depois de mostrar o parque e conceder a entrevista, João Aurélio nos leva para mostrar os locais de Pedreiras mais frequentados pelo pai e as homenagens feitas a ele.

Por Paulo Oliveira, publicado no site Meus Sertões. Reprodução autorizada.

- Publicidade -spot_img
Colabore com o nosso trabalho via Pix: (99) 982111633spot_img
- Publicidade -spot_img

Recentes

- Publicidade -spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Notícias relacionadas