O menino e o boi da cara preta: quando o criador e a criatura são uma coisa só

Rua do Campo, Trizidela do Vale (MA)


No estado do Maranhão, um boi não é apenas um componente em paisagens vistas por quem vai e vem pelas estradas. A figura bovina integra o imaginário popular, colocando no mesmo balaio afetividades religiosas, culturais, territoriais e identitárias. É o campo do simbólico que permite a esse ser quase mítico, anualmente, nascer e morrer. O vinho, despejado em uma bacia, pode até representar o sangue do animal, mas nada substitui a emoção dos envolvidos no ritual. Coisa de mães, pais, filhos(as) e netos(as).

Na Rua do Campo, município de Trizidela do Vale, um garoto de 11 anos, devoto de Santo Antônio – de tão apaixonado pela tradição –, dá vida a um boi, aproveitando uma caixa de papelão, garrafas de refrigerante, tecido, uma corda, tinta e referências. A ideia, descreveu ao jornal O Pedreirense, surgiu numa noite de domingo.

Foto: Joaquim Cantanhêde

“Meu boi é de igreja, de evangelização. Tudo o que traz influência de Deus está no meu boi”, descreve Antônio Miguel, com admirável contundência, deixando claro que sua criação se diferencia do boi de sotaque Zabumba.

Não espere, contudo, encontrar um perfil de Miguel em alguma rede social para saber mais sobre ele e sua criação. O OP só soube de sua existência graças ao Baú da Rua do Campo, um perfil no Instagram criado para apresentar um outro lado de uma rua que ‘muita gente desconhece’.

“Quero viver minha vida, brincar com meus amigos”, afirma Miguel, sem o menor interesse nesse “negócio de Instagram, WhatsApp e TikTok”.

A família, no começo da história, não entendia. Agora acha graça. Os amigos, por sua vez, fazem-lhe companhia na encantada brincadeira.

“Sinto muito orgulho de mim, porque foi a criatividade de uma criança que fez esse boi. Creio que todo mundo consegue”, disse ele, ao ser indagado sobre como entende a repercussão de sua história. “Somos todos iguais”.

Foto: Joaquim Cantanhêde
Foto: Joaquim Cantanhêde
Foto: Joaquim Cantanhêde
Foto: Joaquim Cantanhêde
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Foto: Joaquim Cantanhêde
Foto: Joaquim Cantanhêde
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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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