O mais querido três patas que já vi. Um vira-lata? Não sei dizer…

CRÔNICA


Só sei que ele era muito querido, tanto no bairro quanto no nosso campus do IFMA, em Pedreiras. Com o tempo, fomos nos aproximando. Acredito que ele já era adulto quando nos conhecemos. Morava perto da nossa casa, mas parecia preferir a nossa — era um espírito livre, do mundo, e parecia feliz assim. Tinha um jeito único, uma aparência que lembrava uma mistura de vira-lata com pitbull. Apesar da aparência forte, era dócil, companheiro e extremamente afetuoso. Mas o que realmente o tornava especial eram suas três patas. Havia perdido uma delas em um acidente que obrigou sua dona a optar pela amputação. Chegamos a considerar a possibilidade de uma prótese, mas aos poucos compreendemos que ele não seria o mesmo. Ele já havia se adaptado, e isso fazia parte de quem ele era. Seguiu com suas três patas — e mesmo assim, corria como qualquer outro cão.

Seu nome era de estrela. Tudo a ver, “Bethoven”. Assim como o grande pianista alemão, nosso cão era uma das figuras mais mimadas e adoradas no seu lugar. Todos o amavam, alunos ou servidores. Diferentemente dos outros cães que também frequentavam o campus, Bethoven estava sempre bonito, formoso, saudável, muitas vezes sujo, é verdade, pois gostava de correr pelas ruas sem pavimentação. Adorava uma areia para se deitar e rolar.

Não seria exagero dizer que sua simpatia era objeto de disputa. Bethoven era personagem dos nossos dias e até das noites quando íamos dormir, lá estava ele. Dormia em nossa casa. Bethoven foi sem dúvida um dos personagens marcantes em meus momentos de alegria na cidade de Pedreiras. Não havia um que não se deixasse contagiar por sua alegria. Nunca agrediu ninguém em nosso campus. Não que eu saiba. Como em qualquer lugar há sempre alguém que não gosta da presença de animais entre nós (animais). Cada um tem seus motivos e razões.

Talvez sua presença entre nós fosse apenas por comida. Mas quem se importa com isso? Importava mesmo era a sua presença.

Era detentor de muitas qualidades. Cito aqui mais duas delas que me chamava atenção. Era observador. Conhecia cada um de nós ainda que fossemos passando em lugar distante. Bastava nos avistar, já saia correndo. E a outra que me recordo agora e orgulha. Ele era protetor, corria a nossa frente como um batedor, latindo, avisando e espantando quem tentasse nos ameaçar. Era fiel.

Questiono aqui. Por que a vida e as coisas não podem ser sempre mansas? Acho que Bethoven enxergava e vivia o mundo dessa forma.

Morreu Bethoven? Para mim ele continua vivo em minhas memórias e momentos que passamos juntos. Quando eu voltar terei de aprender a amar outra narrativa no mesmo lugar do qual ele não será mais personagem. Pouco antes do seu desaparecimento parecia esquivar-se do campus. Não queria entrar mais. Era como se tivesse sido ameaçado por alguém. Aparecia pela frente, mas não entrava, ainda que o chamássemos.

Ahhh meu amigo, já se passaram 5 meses. O nosso último encontro parecia ser de despedida. Havia algo de diferente quando nossos olhares se cruzaram. Foi um olhar diferente dos outros. Aquela tarde de sexta-feira parecia ser o dia da nossa despedida. O teu olhar meio que triste era na realidade um adeus. Sem consultar ninguém, colocou um ponto final.

Hoje ao lembrar de você e te fazer essa homenagem – mas isso é rotina, pois tenho outros PETs – não consigo conter minhas lágrimas. Não sei o que o universo quis dizer para mim quando nos apresentou. Só sei que o teu esforço pra correr se parece muito com a minha vontade de viver e ser feliz.

Por José Edson da Silva Barrinha, professor de Geografia e amigo do Bethoven

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