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segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Mearim: cada vez mais raso, afogado em poesia e juras de amor

Um rio nas mãos de Deus


Na parede cinza de uma das salas da Colônia de Pescadores Z–28, o Rio Mearim está em festa. A tela, pintada por Ricardo da Costa, retrata a anual procissão de São Pedro, padroeiro dos pescadores. Nesse dia, feriado municipal em Pedreiras, Maranhão, nas canoas enfeitadas, parte da comunidade católica devolve ao curso d’água um protagonismo perdido, inicialmente com a “chegada” das estradas de terra, agora cobertas de asfalto. É nesta sala que Celivane Carvalho cuida do que aprendeu com o pai: de um lado o afeto para com o rio, a ciência da biodiversidade nele contida e sua importância para a pesca; do outro os pepinos de um órgão de classe, para o qual foi eleita presidente. Agora, contudo, o rio que a viu crescer é aquele que lhe tira o sono.

Parido na Serra Negra, centro-sul do Maranhão, o velho Mearim banha 83 municípios, percorrendo cerca de 930 quilômetros até desaguar na Baía de São Marcos, município Arari, juntando-se ao Pindaré e ao Rio Grajaú. Se geograficamente aparta Pedreiras e Trizidela do Vale, une as duas cidades pelo simbólico e afetivo. É tema de incontáveis livros e poesias, citado em canções, causos e testemunha de incontáveis mudanças, incluindo as suas.

É para ele que peregrinam as águas das chuvas. O “inverno” deste ano é lembrado, não pelo seu farto volume, que quase sempre resulta em enchente. Tomando como base a faixa de tempo que vai de 01 de janeiro a 30 de junho, um levantamento da Defesa Civil, feito a pedido do jornal O Pedreirense, traçou um comparativo sobre o regime pluviométrico de Pedreiras (MA) nos últimos cinco anos. Se 2023, com 1.600 mm, aparece como sendo o ano mais chuvoso, 2025 se destaca pela queda no volume de chuvas, 1.055 mm.

O período seco, entretanto, chegou com força. Segundo monitoramento da Estação: IPEDRE64, localizada na Secretaria de Meio Ambiente, entre 30 de setembro e 06 de outubro as mínimas oscilaram entre 22,1 °C e 25,5 °C. Já em relação às máximas, na segunda-feira (06) Pedreiras vivenciou situação de calor extremo, com a temperatura chegando aos 40,3 °C, com queda de 36% em relação a umidade. Já a sensação térmica bateu 46,7 °.



No começo de Outubro, a Defesa Civil, usou espaços em meios de comunicação para alertar a população sobre a situação, definida por Rai Brito, coordenador, como preocupante.


Imagens: Alber Silva/ Joaquim Cantanhêde

Como mostra o gráfico seguinte, o Mearim vive a mais expressiva baixa em cinco anos.

“O nível do rio encontra-se com a cota de 1,95, bem abaixo para a situação, comparada à média histórica. A gente tinha entre 2,10 e 2,20. Mesmo com a abertura da válvula dispersora da barragem do Flores, o nível do rio encontra-se bem abaixo. Caso que também se estende as cidades que estão a jusante, como São Luís Gonzaga e Bacabal”, destaca Rai, em entrevista ao OP.

“As pessoas precisam entender que a baixa das águas do rio pode causar escassez de água para seu uso doméstico, para a agricultura, além de comprometer navegação e a pesca”, lembra Edson da Silva Barrinha, professor de Geografia no Instituto Federal do Maranhão (IFMA) campus Pedreiras, e doutorando do Programa de Políticas Públicas da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Preocupação. Foi com esse semblante que José de Lima da Cruz, gerente regional da CAEMA (Companhia de Saneamento Ambiental do Maranhão), recebeu o OP. Em uma cidade que historicamente enfrenta problemas no abastecimento de água, o cenário é de agravamento.

“Um sério comprometimento no abastecimento, porque a lâmina do rio baixa. Temos que está empurrando flutuante… Nosso reservatório, nesse período, não passa de 30% da capacidade, quando no inverno chega a 70%. A gente tem que trocar rotor da bomba para poder puxar mais água. Nunca imaginei, um dia, Pedreiras precisar de ajuda de poço”, destacou Zé Lima, fazendo referência à obras tocadas pelo Governo do Estado do Maranhão, em áreas que sofrem com a falta d’água. 

Ele também chamou a atenção para as queimadas e o desperdício, apontando-os como agravantes.

Para Barrinha, há uma estreita relação entre o calor extremo dos últimos dias e as chamadas Mudanças Climáticas. “O calor extremo e excessivo aumenta a evaporação dos corpos líquidos (rios, lagos, lagoas etc), portanto ocorre perda hídrica. Consequentemente o solo fica seco reduzindo a infiltração e o abastecimento dos lençóis freáticos. Por isso o Mearim diminui seu volume. E claro tudo isso associa-se a esse cenário de aquecimento global, em consequência das mudanças do clima”.

Nessa altura do campeonato Rai apela ao bom senso, conclamando a população a adotar um consumo consciente. Nas redes sociais, moradores filmam e denunciam estruturas utilizadas para a extração de areia. Já no parlamento, onde predomina nenhum sinal de que a ‘Casa do Povo’ irar pautar o tema.

De volta à sala azul, com um quadro do Mearim à mostra, Celivane relata ter recentemente percorrido, por duas vezes, trechos entre Pedreiras e Trizidela. No caminho diz ter visto balsas instaladas no Mearim para a extração de areia.

Foto: Joaquim Cantanhêde

“Essa é uma luta de muitos anos. Antes era a questão das tapagens, que foram derrubadas… Os pescadores eram ameaçados. Agora as lutas são por conta das mudanças climáticas. Não é uma luta só do pescador” diz a Celivane. “Não é só a balsa dentro d’água, tem a área que eles desmatam para fazer de deposito”, acrescenta. Durante visita, tratava de coletar dados para protocolar uma denúncia ao Ministério Público (MPMA) e receber pescadores.

Entre eles Reginaldo Alves, que beira os 52 anos e 40 de pesca. No semblante de um pescador que não é visto como um, pelo Governo Federal (questão para uma outra pauta), não cabem traços de felicidade ao descrever o declínio do rio.



“Tá difícil ser pescador no Mearim, logo tá muito raso. Saio para pescar e não pego uma caixa de peixe”. Indagado sobre o famoso Surubim, Reginaldo optar por uma resposta enfática: “esse mesmo é que tá difícil”. Logo em seguida, enumera as ações que entende como prejudicial, ligadas ao setor privado. “Tem muita coisa: gente tirando areia, o pessoal lá do gás puxando água para resfriar as coisas deles. Isso tudo tá acabando com nosso rio”.

“Vejo, tanto por parte das pessoas comuns, como também dos dirigentes locais uma percepção limitada dos problemas enfrentados pelo Rio Mearim. Há uma certa normalização de secas ou cheias como ‘evento comum’, o que dificulta ter uma visão crítica sobre as reais causas das mudanças climáticas e as implicações locais. Essa falta de informação contribui muito para um comportamento alheio diante da problemática maior, as mudanças que o rio vem sofrendo ao longo dos anos”, alerta Barrinha, para quem a soluções só serão possíveis com participação popular.

“É necessário que haja articulação entre compromissos e ações concretas, que se faça presente um envolvimento amplo (população geral, comunidades locais), e que as iniciativas se conectem ao cotidiano das pessoas”.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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