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segunda-feira, abril 15, 2024

Macrorregional de Pedreiras: um hospital para o fim do mundo

A Covid-19, como já se comenta, será o divisor de águas em 2022. Na arena política a pandemia já alimenta narrativas diversas e será trampolim para quedas e acensões. Distante do caos da cidade se acha o macrorregional, uma obra da saúde de competência do estado gerido por Flávio Dino, mas em Pedreiras, a imagem do governador não aparece com tanto destaque em comparação à de Simplício Araújo, Secretário de Estado de Indústria, Comércio e Energia. A pandemia, que tem levado, até aqui, milhares de corpos para à sepultura, viu reerguer-se a carcaça política de uma figura conhecida por uma tal ponte imaginária, que nunca saiu do papel. 

Se no Hospital de Campanha Dr. Kleber Carvalho Branco, Simplício projeta a imagem de político arrojado, moderno e articulado, o verdadeiro Hospital Macroregional de Pedreiras reflete a imagem de uma figura esperta, no sentido pejorativo do termo, acostumada a acariciar o povo com promessas até aqui descumpridas. Tivesse o hospital macrorregional sido entregue no tempo correto, não seria ele tão “milagreiro” quanto agora. Uma obra inacabada não serve ao povo, mas serve aqueles que almejam o poder. O macrorregional inacabado, até pouco tempo, servia mais às pretensões políticas de Simplício do que concluído, mas a dinâmica já experimenta mudanças.

Ano que vem, buscando uma vaga no legislativo federal ou ocupar o espaço que será deixado pelo governador Flávio Dino, num panorama ainda incerto, Simplício terá uma narrativa para contrapor aqueles, que com memória boa, evocam a história da segunda ponte sobre o Mearim que ele prometera. A Covid-19 não ceifou mais vidas por causa de mim, dirá ele tendo um exército disposto a ecoar as palavras de seu grande “líder”. Ninguém, mais do que ele, soube extrair popularidade do caos que deverá se tornar dividendos eleitorais no ano que vem.

Sobre a obra do macrorregional, Simplício passou os últimos anos colocando o atraso na conta de uma empresa que ganhara a licitação, mas sem robustez para concluir a obra no menor tempo possível, segundo ele. “O problema do hospital é pura e simplesmente a empresa que foi contratada em 2014 e desde a primeira entrevista que tenho falado isso. É uma empresa que não tem musculatura suficiente para acelerar essa obra”, disse ele, numa de suas entrevistas rotineiras à Rádio FM Cidade.

Outro ponto elencado por ele, na ocasião, derivada da pandemia, que emergiu no mundo 4 anos depois do ano de início da obra. “Mas além desse complicador, tem outro: as indústrias não estão entregando os materiais. Há um mês e meio ninguém consegui comprar um saco de cimento aqui em Pedreiras. No Maranhão inteiro estava a mesma coisa por conta desse blackout que deu na indústria”. 

Inquirido pelo amigo de longas datas, Klebinho Branco, diretor da FM Cidade, sobre a expectativa criada, o secretario respondeu: “A expectativa foi criada, mas não temos condição de entregar por conta da empresa e por conta dos matérias que estão faltando”.

O dia dessa entrevista fora 31 de dezembro e a manhã seguinte já seria 2021. Naquele momento era cômodo dizer “não temos condição de entregar”, numa atitude honesta ausente nos meses que precederam a vitória de Vanessa Maia, da qual ele fora um dos cabos eleitorais. No meio da disputa, Simplício tirou da manga a promessa do Parque João do Vale e nos muitos vídeos publicados, apresentou datas para a entrega do macrorregional de Pedreiras, ciente de que não haveria entrega alguma. Como devemos chamar políticos que agem assim?

Naquela entrevista, ao invés de pedir desculpas aos que precisam da saúde pública, não só no combate à Covid-19, por sua falta de honestidade no que tange a data e as razões da não entrega do hospital, preferiu questionar o trabalho jornalístico do portal O Pedreirense.

Dias antes de sua entrevista, no dia 29/12, publicamos a reportagem “Entrega do Hospital Regional de Pedreiras fica para 2021: um Secretário de Estado prestes a pedir música no Fantástico”, na qual expomos, com fatos, dados e fotos, a situação do macrorregional de Pedreiras. Numa distopia intencional da realidade, via ondas da rádio, ocupou-se de definir nosso trabalho como “opinião”, mas sem apontá-las, o que é compreensível quando o conteúdo em questão não pode ser refutado e nossa redação conhece bem a distinção entre reportagem e opinião, fazendo questão de deixar claro aos nosso leitores a natureza de cada conteúdo publicado.

Na contramão de um grande líder, o “nosso”, de natureza duvidosa, optou por questionar a sanidade mental do mensageiro, pondo de lado o teor da mensagem. Isso me lembra uma outra figura de nossa política, Bolsonaro.

Políticos quando confrontados pela imprensa costumam ter reações semelhantes. Colocam em cheque a idoneidade e a capacidade dos jornalistas no exercício de suas funções, necessárias à sociedade, inclusive no Natal. Despois dessa reportagem Simplício nunca mais falou em datas para a entrega do tão esperando hospital.   “Quando a obra vai ser entregue? Agora eu vou ficar calado, não vou mais falar”, disse ele durante a entrevista.

Vejam como a política local é feita de uma escrotidão fecal.

Com 2022 incidindo cada vez mais sobre 2021, Simplício tem, diante de si, o desafio de entregar o macrorregional o quanto antes. A obra inconclusa já não lhe serve mais. Obras paradas não levam ninguém ao cargo máximo do estado. Não por acaso, em sua última passagem por ela, tenha feito questão de mostrar a mão-de-obra ativa. Sobre datas, optou pela cautela. “Muito em breve a gente vai tá aqui”, disse ele fazendo menção a entrega do macrorregional.  

Nesse mundo pré-apocalíptico, é parte do assombro ver uma parcela substancial da sociedade local em êxtase com políticos do quilate de Simplício. Gente que retarda a concretude de sonhos coletivos, peregrinado pelos caminhos da vaidade, com passos distantes do republicanismo. Simplício é um dos muitos atos falhos da democracia. Aprimorá-la sempre foi uma urgência.

Vivermos ou morrermos, termos ou não, tudo passa por ele e suas ambições. Nossa reação de apatia diante da realidade e encanto, por figuras tão tortuosas, enaltece uma outra ausência para além do hospital, a de uma educação emancipadora, diante da qual a figura dos políticos milagreiros definha e não acha guarida.

Oxalá que nesse mundo que se avizinha do fim, onde os humanos ensaiam tragédias corriqueiras, o Hospital Macrorregional de Pedreiras, uma obra de oito milhões de reais (R$ 8.030.016,17), esteja pronta quando o apocalipse chegar. Que sirva para abrigar os sobreviventes de uma odisseia anunciada.  Aos 101 anos, Pedreiras é parte desse mundo que precisa recomeçar e isso implica em deixar coisas para trás. Que entre elas estejam os “coronéis da modernidade”.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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