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terça-feira, abril 16, 2024

Grávida aos dez: a visão da igreja católica sobre aborto e extremismo religioso

A semana em que o Brasil parou, após vir à público, informações confidenciais sobre o caso de uma menina de dez anos de idade, grávida, vítima de estupro pelo tio desde os seis anos. Um crime revoltante que numa tarde de domingo, dia 16, foi silenciado por um grupo de manifestantes do movimento evangélico “pró-vida” e pelo grupo católico da comunidade Porta Fidei, que protestavam frente ao hospital onde a vítima se encontrava para a realização do aborto legalizado pela justiça, em Recife-PE.

A manifestação iniciou após um vídeo publicado pela bolsonarista Sara Giromini, conhecida como Sara Winter, onde a mesma divulga o nome da vítima e o local onde seria realizado o aborto. O episódio construiu um verdadeiro cenário de extremismo religioso, contra o aborto, promovido pelos manifestantes, em meio à gritos de: “assassina”, e orações, a cena ganhava um grande impacto no mundo virtual, subindo a hashtag: “gravidez aos dez mata”. Logo a religião se tornou alvo da generalização deste acontecimento.

Em entrevista ao O Pedreirense, o Padre José Geraldo Teófilo, pároco há sete anos na cidade de Pedreiras, discorre sobre a tarde do domingo (16) e apresenta sua visão, “enquanto igreja”, contra o aborto avaliando as ideologias que prezam pelo tradicionalismo e não à tradição. Ao final da entrevista, uma reflexão sobre a humanidade evidencia sua fé.

O Pedreirense: Qual é a visão da igreja católica em relação ao aborto?

Pr. José Geraldo: A igreja católica é hoje, com exceção das igrejas evangélicas, a maior militante contra o aborto, e ela é severa no campo de combate. Para nós católicos o feto tem vida própria desde o primeiro momento de concepção então é irredutível à igreja católica e eu Padre José Geraldo também com o olhar da igreja católica, mas humanamente, eu sou contra o aborto. Ninguém pode determinar a morte de ninguém.

OP: Então o aborto é considerado um pecado?

JG: Quem sou eu pra julgar ninguém ou para condenar alguém e colocar pecado nos outros. Nem tudo é pecado, mas ao mesmo tempo nós temos um pecado social: a nossa falta de responsabilidade para com o ser humano, principalmente com a família. Estamos destoados justamente no campo de família, como diz Bauman: ‘a família está evaporando’. Não posso negar a autoridade da igreja em questões éticas, pois se associa a desconfiança em relação aos valores morais da sociedade contemporânea e a proposição da universalidade dos princípios estabelecidos, como inerentes à natureza humana. Eu gostaria muito de dizer que há muitos argumentos, mas olha, a existência de uma pessoa desde o primeiro momento da concepção para mim é o pressuposto para se considerar que realmente a interrupção de uma gravidez é um ato homicida, em qualquer momento de gestação e sob quaisquer condições. Precisamos lembrar a sacralidade da vida humana principalmente e principalmente o embrião. Tem muita gente que emprega outros valores integrando argumentos de ordem religiosa, moral e biológica, então a igreja está em defesa da vida.

OP: Enquanto representante da igreja católica de Pedreiras, como você descreve a atitude dos grupos que participaram do manifesto, naquela tarde de domingo?

JG: Eu lamento muito essa realidade, todo o ocorrido e também lamento o ato ao qual uma menina de apenas dez anos passara, interrompendo naquele momento sua infância. Mas eu queria deixar claro o meu lamento e minha indignação, pois nós estamos cometendo na vida e aplaudindo, muitas vezes, pela inconsciência, dois crimes que eu considero hediondo. Acho que poderíamos preservar as duas vidas. As pessoas que foram manifestar erraram pela falta de contextualização e principalmente reflexão. A gente sabe que foram pelo impulso, mas nada justifica a agressividade.

OP: O que é ser “pró-vida”?

JG: Tenho muito medo desse tradicionalismo. Às vezes eles carregam o lema “pró-vida” no tradicionalismo e não na tradição. Eu sou a favor da tradição. Agora “pró-vida”, é quando refletimos com a sociedade esses dois grandes crimes, tanto a violência sexual como o aborto. “Pró-vida” requer a gente inibir essas situações. É um desafio muito grande e é um tema complexo, não sou Deus nem semideus, mas dói muito em meu coração. Eu queria muito dizer que o precioso dom da vida precisa ser incondicionalmente respeitado, mas a agressividade para impor de uma maneira abrupta a ponto de ferir as pessoas.  Vejo que isso é ideologismo, e eu não gosto de ideologismos que ficam velhos e passam. Eu defendo a vida como Jesus. E acredito que hoje, muitas pessoas estão defendendo a vida por ideologismos.

OP: Interromper a gravidez de uma criança de dez anos, para salvar sua vida também pode ser visto como um ato “pró-vida”?

JG: Acredito que a Igreja é muito sábia em suas palavras e não se separa da Ciência. No entanto, é usar o bom senso.

OP: Durante o protesto, muitos internautas utilizaram as redes sociais para criticar as atitudes deste grupo religioso, logo, a frase “fanatismo religioso mata” ganhou destaque. Como você visualiza essa generalização da religiosidade?

JG: Eu sou contra o extremismo religioso, muito contra, de qualquer forma. Tudo que tem ‘ismo’ é prejudicial. Tem muita gente que quer colocar sua ideologia sob a bandeira de uma religião, isso me preocupa muito, porque nós precisamos aprender com Jesus Cristo Jesus. É por isso que ele vai mostrar justamente, diferente do extremismo religioso tanto da época como de hoje, quando ele diz: ‘se alguém bater na tua face oferece também a outra. ‘Se alguém quiser tirar sua túnica dá também o manto. Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, caminha duas’. Então, o extremismo religioso é justamente aquele que veste o manto de qualquer religião, nesse caso, o cristianismo, para impor o perverso que o é. Por que Jesus ensinou a amar o próximo, ele mesmo disse: Então, matar, ferir, agredir, coagir, prender, em nome de uma fé cristã é uma negação desta fé. Nenhum cristão que ama Jesus Cristo e conhece a sua palavra os seus ensinamentos, impõe, pelo contrário, propõe. Então nem eu ninguém está autorizado por Deus para impor seu ponto de vista ou fazer coisas extremas em nome de Cristo, eu fico muito triste, pois praticam a injustiça.

OP: Qual o problema da humanidade? Existe uma cura para este problema?

JG: Talvez pareça proselitismo religioso, mas não é, porque eu detesto. Mas eu gostaria de dizer que o problema da humanidade não é político, o problema da humanidade é que o homem desconhece a Deus. Se ele desconhece o Pai ele jamais vai aceitar o outro como irmão, jamais vai aceitar o outro que é diferente, ele jamais vai aceitar o outro que não convive com ele mesmo. Então eu vejo que o problema da humanidade é justamente o desconhecimento de que Deus é pai e que nós somos irmãos. Quando reconhecermos isso e que tudo que Ele providenciou é para todos, não teremos mais isso. (Finalizou a entrevista)

Entenda sobre a  participação do Conselho Tutelar em defesa da criança violentada sexualmente:

O Conselho Tutelar é o órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado pela sociedade para zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente. A criança, em seu convívio familiar ou com responsáveis, necessita de proteção integral.

E quando o agressor é a família?

A criança quando sofre suposto estupro apresenta vários sinais que não podem passar despercebidos, são eles: medo, incontinência urinária, insônia e outros. A importância da denuncia ao conselho Tutelar, delegacia ou outros assegura a primazia do sistema de garantia de direitos que a situação requer. O conselho tutelar requisitará ao CREAS o acompanhamento psicológico à criança. A delegacia irá instaurar um inquérito do caso, a fala da criança necessita ser preservada e respeitada, sendo ouvida pelo núcleo psicossocial do poder judiciário.

A Conselheira Tutelar Janne Glêb, ressalta a importância do cuidado e atenção dos pais para com os filhos, pois, em sua maioria, não enxergam o perigo dentro de casa. “Cuidem dos seus filhos com responsabilidade, não deixando em casa só, com estranhos. O contexto de pedofilia é muito amplo, pois, muitas vezes, o pedófilo não oferece perigo para os pais devido o mesmo ter uma qualificação que descaracteriza ser o agressor. Como por exemplo: moradia fixa, ser trabalhador, ter uma religião, ser carinhoso com criança, dentre outros aspectos”, finalizou a Conselheira Tutelar de Pedreiras.

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Mayrla Frazão
Mayrla Frazãohttps://www.opedreirense.com.br
Jornalista - Centro Universitário de Ciências e Tecnologia do Maranhão (UniFacema)
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