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domingo, novembro 28, 2021

Esse post não é sobre as olimpíadas, é sobre representatividade

“Exu matou o pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje”

A primeira vez que li essa frase, foi através de uma dinâmica em que enfiávamos a mão em um pote e retirávamos mensagens de reflexão. Lembro bem que retirei 2 papéis em momentos diferentes e os dois eram provérbios africanos… Maktub!

Ainda sem o conhecimento em cultura afro-brasileira e em educação das relações étnicas que tenho hoje, li aquela frase e não entendi direito. Ao longo da minha trajetória acadêmica, no entanto, ela apareceu mais algumas vezes…

Assistindo às olimpíadas, constatando a vitórias de tantas mulheres (e de mulheres negras), ela vem-me à mente de maneira contundente.

“A pedra atirada hoje”, as medalhas alcançadas nestas olimpíadas, nos leva a refletir sobre o passado, sobre como o racismo prejudica e afasta tanto potenciais vencedores, como é mais difícil para atletas negras se destacarem em esportes majoritariamente elitista e branco.

A fala de Daiane dos Santos sobre a vitória de Rebeca Andrade é emblemática, pois traz isso à tona:

“A primeira medalha (feminina de ginástica) do Brasil em um Mundial foi negra e a primeira medalha olímpica é negra. Isso é muito forte. Durante muito tempo as pessoas diziam que não poderia ter uma ginasta negra. Que as pessoas negras não poderiam praticar certos esportes! E a gente vê hoje a primeira medalha para uma menina negra. Tem uma representatividade muito grande atrás de tudo isso”.

Daiane dos Santos, ao ser campeã mundial, abriu um caminho, na garra e na determinação, com uma força que só uma mulher negra tem! Ela não teve em que se espelhar, teve que ser a primeira e antes que apontem que Daniele Hipólito, Jade Barbosa e até mesmo Luíza Parente (na década de 90) também foram pioneiras nas competições, devo lembrar que esse post não é sobre a ginástica artística, é sobre REPRESENTATIVIDADE. Todas essas ginastas que citei tiveram contribuições belíssimas para a modalidade no Brasil, seus esforços e trajetórias não serão esquecidos e devem ser aplaudidos, mas nenhuma delas sofreu com o racismo de cor que é característico do Brasil. Nenhuma delas passou pelo que Daiane sofreu, que percebeu meninas se afastarem por não quererem treinar perto dela. Ela ouviu que a ginástica olímpica não era lugar de uma menina negra, viu pessoas recusar-se a usar o mesmo banheiro que ela, a mesma pia para lavar as mãos. A atleta deve trazer em si marcas do racismo que só quem compartilha a cor pode de fato entender.

E é por isso que Daiane é tão importante. Ela plantou sementes não apenas por ser uma ginasta, plantou semente por mostrar ser possível também, para meninas negras. A semente plantada floresceu com Rebeca Andrade, outra menina negra, filha de mãe solo e empregada doméstica. Rebeca não estava mais sozinha, não carregava mais o fardo de ser a primeira ginasta negra brasileira a vencer, mas como bem-queria o destino, fez dela também uma primeira. Não apenas a primeira ginasta negra a ganhar uma medalha olímpica, mas também a primeira a ganhar para categoria feminina, não uma, mas duas vezes na mesma olimpíada! Ela, assim como Daiane, impôs-se sobre o racismo e o subjugou!

Ginasta Rebeca Andrade, ouro e prata em Tóquio (Foto: Jonne Roriz/COB)

E para quem julga que estou exagerando, basta lembrar do caso de Ângelo Assumpção, considerado grande revelação da ginástica brasileira em 2015, campeão mundial em salto. O atleta foi demitido do clube em que treinava após denunciar o racismo sofrido na agremiação. Um ano e meio depois ele ainda não conseguiu outro clube.

Não somos ingênuos em imaginar que as vitórias, não só de Rebeca, mas de tantos outros atletas negros, acabarão com o racismo no esporte. Infelizmente essa chaga é estrutural, portanto, precisamos seguir atacando-a.

Por isso a representatividade é tão importe! Ela quebra os discursos de inferioridade e invisibilidade que tanto afetam a subjetividade e autoestima de pessoas negras. As medalhas de Rebeca Andrade, por exemplo, quebram a fala do vice-presidente Mourão, que afirmou que famílias pobres, compostas apenas pela “mãe e a avó”, são “fábricas de desajustados” que tendem a “ingressar” no narcotráfico.

São falas como essa que marginalizam e desumanizam negras e negros, servindo como as justificativas necessárias para o extermínio da juventude Negra, sem remorso. As vitórias de atletas negras como Rebeca e negros como Abner Teixeira, medalhista no boxe, colocando-os em posições de poder, no alto dos pódios, contesta essas justificativas, demonstram que o que falta é investimento no esporte, é oportunidades para essa juventude e principalmente o fim dos preconceitos enraizados e historicamente construídos.

Escrevendo esse texto fico imaginando, como seria o Brasil com investimentos nos esportes? Se não houvesse segregação e perseguição às pessoas negras? Se cada criança, jovem, adulto e idoso negro pudesse explorar, livre de racismo, suas potencialidades?

Seríamos não só uma potência esportiva, seríamos um país melhor! Um país de que se sente orgulho viver.

Por isso representatividade é tão importante, é uma questão de sobrevivência.

ELA EXEMPLIFICA O MUNDO QUE PODEMOS TER!

O pássaro de ontem ainda não morreu! Estamos jogando as pedras hoje!

O banquete da vitória será amanhã.

Por Nila Michele Bastos Santos, Historiadora, Psicopedagoga, Especialista em Formação de Professores. Mestra em História Social pela Universidade Federal do Maranhão. Doutoranda em História pela Universidade Estadual do Maranhão.  Professora do Instituto Federal do Maranhão IFMA – Campus Pedreiras. Coordenadora do LEGIP – Laboratório de estudos em Gênero do Campus Pedreiras.

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