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quinta-feira, julho 18, 2024

Entre o céu e o piso: uma igreja sem teto

Era um sábado comum no bairro Nova Pedreiras. Cercado de azul, o astro rei dominava. As esquinas, sem muito movimento, pareciam cochilar à imagem e semelhança do moradores com residência próxima a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, Pedreiras, interior do Maranhão. Natural após uma semana corrida.

Maria Rosilda Sousa Santos, 56 anos, é parte da comunidade. Não esconde seu credo. Pelos cantos da casa diversos símbolos típicos do catolicismo. Naquela tarde fora limpar a igreja. Colocou a toalha no altar e varreu o piso, pois às 5h haveria celebração. Trancou uma das portas de cor azulada e voltou para casa, há alguns metros dali. Foi a última pessoa que entrou e saiu da igreja antes do grande barulho, por volta de 14h45.

“No que entrei em casa, a menina correu. ‘Dona Rosilda, o teto da igreja caiu’. Fiquei sem palavras. Era pra estarmos lá, mas Deus nos afastou naquele momento”. Por sorte ou milagre, não havia ninguém na igreja no momento em que o teto veio a baixo, mas dentro de poucos minutos, imagens de um cenário totalmente diferente do deixado por Rosilda, se espalhariam pelas das redes sociais.

Às 14h20, a estrutura já dava sinais de algo fora do normal. Gabriel Couras Pachêco relata ter ouvido “estalos nas ripas”, mas não entendeu o que se passava. Até o momento em que um forte barulho, inicialmente compreendido com uma explosão, o compeliu a sair do quarto correndo em direção ao quintal. “Continuei achando que fosse alguma explosão, alguma coisa pegando fogo”. Do muro de casa, Gabriel teve uma vista panorâmica da destruição causada em virtude da queda do teto. São dele as imagens que mostram a igreja minutos depois.  

“Como minha mãe não pode subir pediu que tirasse uma foto para que pudesse ver. Fiz a foto, gravei e mostrei pra ela. Como faço parte do ministério de música da igreja e ninguém estava na rua ou tinha visto, coloquei o vídeo no grupo. Aí o pessoal foi compartilhando”.

Um dos destinos do vídeo foi o WhatsApp de Robson Dennys de Santana Almeida, genro de Maria Rosilda, que seria o celebrante naquela tarde. Ainda no trabalho recebeu imagens do ocorrido, reconhecendo-as como sendo da capela de Aparecida da comunidade Nova Pedreiras.

“Prontamente me desliguei dos afazeres e vim correndo pra cá. Quando cheguei tinha uma multidão aqui e um cenário devastador. Meu primeiro pensamento foi nas pessoas, porque era um horário em que se faz a limpeza da igreja. Vim pensando em quem poderia estar aqui”.

Passado o nervosismo inicial, ao constatar-se que ninguém havia se ferido, avaliaram-se os prejuízos e iniciou-se o trabalho de retiradas dos escombros. Robson explica que a Igreja de Nossa Senhora Aparecida é mantida pela comunidade. Os fieis ajudam com as quermesses, dízimos e outras campanhas. Na estrutura, segundo ele, não haviam sinais de que algo dessa natureza pudesse acontecer. “Fomos surpreendidos”, acrescenta para O Pedreirense.

Robson Dennys de Santana Almeida na Igreja de Nossa Senhora Aparecida (Foto: Mayrla Frazão)

Quem não pisou na igreja depois do desabamento foi Maria Rosilda. Mostra-se ainda visivelmente abalada. “Por que não tive coragem de ir? Em todos os momentos que a gente passa, momentos difíceis, nós vamos buscar força é na igreja. Ver o teto daquele jeito… A gente fica muito abalado, mas temos confiança em Deus que vamos vencer. Tá todo mundo em choque”.

Nossa Senhora Aparecida
Deve está triste ,
Por num dedo em riste,
Do triste destino
O teto da sua igrejinha desabou
Desabou também o meu coração
Meu filho gritando em cima do muro
Que liga a minha casa com a igrejinha
A esposa em desespero,
Pois ouviu
O primeiro estrondo
E depois o segundo
E por um segundo
Estava o teto da igrejinha abaixo.
Abaixo ficou nossa auto estima
O nervo à flor da pele, e eu impotente
Vendo Aquele prédio imponente
Ficar em poeiras
Mas a Nova Pedreiras
É forte e com sorte e fé
Iremos erguer o templo
Da mãe modelo de todos os tempos .
Ouço agora não mais os estilhaços
Mas, o tilintar de pares , enchadas ,
Vozes consolando, os agonizados ,
Essa reconstrução,
Não é só da comunidade
Nova Pedreiras
É de toda Pedreiras.
Nossa senhora Aparecida que roga
Por nós, terá sua morada reconstruída.

Balbino Pachêco

Escombros retirados, a comunidade já se move rumo a reconstrução. Na segunda, 10 de agosto, a igreja recebeu a visita do Engenheiro Civil, Benselmo Braga, que fez uma avaliação da estrutura. “Vamos mobilizar um bingo, a partir de domingo, para assim custear o novo telhado todo em aço”, informa Robson Almeida, após reunião com a presença de membros do conselho do Santuário de São Benedito.

A queda do teto da igreja católica do bairro Nova Pedreiras ganhou também uma narrativa poética. Na poesia “Triste Aparecida”, o artista visual Balbino Pachêco, pai de Gabriel, descreve os fatos daquela tarde de sábado. “Desabou também o meu coração”, escreve. Seu sentimento traduz o que parte da comunidade sentiu.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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