COLUNA
Se há um tema que urge para o debate público no Brasil contemporâneo, é o da consciência de classe. Não se trata apenas de compreender os desafios cotidianos ou as contradições já há muito expostas, mas de vislumbrar as possibilidades de construção de uma consciência política que rompa com a naturalização da exploração e das desigualdades. Em nossa realidade, o patriotismo foi distorcido, transformou-se em vassalagem, e os símbolos nacionais cederam lugar a logomarcas estrangeiras — expressão de uma dependência cultural e política que reforça estruturas de subordinação.
É, portanto imprescindível perguntar: O que é, e como se forma a consciência de classe em meio à ascensão da extrema direita, aos discursos neoliberais, às pressões externas — tais como imposições tarifárias ou interesses geopolíticos — que buscam submeter políticas domésticas a interesses externo? E, ainda mais: quem são os sujeitos dessa consciência — trabalhadores formais, informais, jovens, periferias, populações negras?
Feitas essas considerações iniciais, então vamos direto ao ponto. O que é consciência de classe? Vou tentar aqui induzi-lo ou não, a uma resposta, a partir de breves definições;
i) É a inveja dos mais ricos;
ii) É apoiar partidos de esquerda;
iii) É apenas saber quem é o patrão;
iv) É pobreza ou pertencimento à classe baixa;
v) É reconhecer-se como trabalhador.
Cada uma dessas respostas trazem fragmentos da realidade social almejada, porém nenhuma delas, isoladamente, contém o que realmente significa ter consciência de classe, exceto uma delas que passo a expor agora. Ter consciência de classe é reconhecer-se como trabalhador. Mas, não somente isso. Vai mais além. Consciência de classe é muito mais do que sentimento individual de hostilidade aos ricos; mais do que filiação política, mesmo que possa resultar disso; mais do que identificação com o patrão ou com uma categoria econômica; mais do que a pobreza em si ou a auto-identificação como trabalhador.
Consciência de classe, numa perspectiva marxista clássica, envolve o reconhecimento dos interesses coletivos, do antagonismo de classes e da capacidade de organização, reflexão e ação política transformadora. Consciência de classe é a situação em que uma pessoa entende quem ela é dentro do sistema econômico ao qual pertence, de onde vem a sua exploração e quem lucra com sua exploração e obediência. Noutras palavras, é quando o trabalhador (a) vende sua força de trabalho para enriquecer alguém acima dele ou dela, o patrão, o dono dos meios de produção.
Quando essa classe entender que juntamente com outros milhares possuem os mesmos problemas e interesses e que não é uma falha individual sua se está sempre endividado, cansado, sem tempo, frustrado ou impotente diante das injustiças, ai está a consciência de classe. Pensar diferente ou de forma alheia a isso é o que o sistema quer. É nesse momento que entra, de modo particularmente insidioso, o discurso da meritocracia. Esse discurso atua como uma narrativa que normaliza as desigualdades existentes. Ela desloca a responsabilidade sistêmica para o individual. Sugere que os ricos “mereceram” sua posição e que os pobres “falharam” por não se esforçarem o suficiente. Essa falácia mascara os determinantes sociais, históricos e de classe que condicionam as oportunidades e trajetórias de vida (origem familiar, acesso à educação, trabalho precoce, herança financeira etc.).
Quando os trabalhadores(as) defendem o patrão ao afirmar que sem eles não teriam seus empregos ou que a economia e a riqueza do país não existiria sem os empresários, nesse momento não há uma consciência de quem você é, e do que você produz dentro do sistema de produção. Há sim, uma condição de submissão. Nesse momento, quem estar no “anda de cima” agradece, pois ao se valer desse comportamento, amplia ainda mais sua riqueza. E, se o país o deixa isento de impostos ou lhe cobra um ínfimo tributo a sua fortuna aumenta exacerbadamente ao passo que também se ampliam as desigualdades.
Portanto, ter consciência de classe passa necessariamente por uma questão de justiça social. É preciso, enquanto brasileiro(a), compreender as formas simbólicas de dominação ideológica que permeiam o cotidiano, como por exemplo, o discurso meritocrático, já mencionado e que procura naturalizar o sofrimento e a invisibilidade de grupos vulneráveis (periféricos, negros, indígenas, celetistas, informais etc). Nesse sentido, a consciência de classe é um processo dialético que envolve a compreensão crítica das contradições do capitalismo e a busca por transformação revolucionária. É ao mesmo tempo uma inconsciência determinada pela classe quanto à situação econômica, histórica e social (Lukács, 2003).
A presença crescente de mecanismos neoliberais no Brasil tem aprofundado a precarização das relações de trabalho. No modelo de empresa-aplicativo, por exemplo, quando um motorista rejeita pautas coletivas de direitos trabalhistas sob o pretexto de ser “empreendedor”, ele está reproduzindo uma ideologia que favorece o capital – o discurso neoliberal que glorifica a autonomia individual, o mérito e a flexibilidade. Esconde o fato de que muitas obrigações, riscos e interesses permanecem subordinados ao controle da empresa-aplicativo, por meio de algoritmos, taxas, avaliações e regras unilaterais. Pesquisas recentes mostram que o “empreendedor de si mesmo”, tal como promovido nesse contexto, serve sobretudo para desmobilizar a luta de classe, fragmentar as demandas trabalhistas e manter a exploração disfarçada sob aparência de liberdade (Garcez, 2024).
Reforço mais uma vez. Essas contradições revelam que consciência de classe não se reduz ao reconhecimento da própria condição econômica. Ser consciente em termos de classe implica reconhecer a posição estrutural de dependência e exploração no modo de produção; identificar interesses comuns e coletivos com outros trabalhadores em situação similar; perceber os mecanismos ideológicos — como o discurso da meritocracia — que naturalizam desigualdades; e, por fim, engajar-se em ação solidária e organizada, buscando transformações institucionais e culturais que rompam as relações fortemente desiguais que o neoliberalismo tende a reforçar.
No entanto, nem tudo está perdido. Existem diversas possibilidades de um ambiente social melhor. Pesquisas recentes apontam para novas formas de sociabilidade de classe — grupos informais, movimentos de base, redes de solidariedade, mobilizações no ambiente digital — que desafiam o status quo e forçam disputas hegemônicas. A educação política, a cultura crítica, bem como práticas organizativas autônomas, demonstram potencial para resistir à alienação (Garcez, 2024).
Por José Edson da Silva Barrinha professor de Geografia do IFMA e doutorando em Politicas Públicas da UFPI.
Fontes consultadas:
GARCEZ, Railson Marques. TRABALHADOR PLATAFORMIZADO E PRECARIZADO: desafios à consciência de classe no capitalismo de plataforma. Revista de Políticas Públicas. 2024.
LUKÁCS, Gyorgy. História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003. POULANTZAS, Nicos. Poder político e classes sociais. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2019.






