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terça-feira, abril 16, 2024

Amapá há 4 dias sem luz, mas o Brasil só fala em Michigan

Enquanto boa parte dos brasileiros discute e espera o resultado moroso da eleição norte-americana, mais próximos a nós, na região norte do Brasil, 90% da população do estado do Amapá (862 mil habitantes) aguarda pela normalização do abastecimento de energia elétrica. Já são quatro dias de um apagão que não veio só, trouxe para os habitantes do estado uma série de outros problemas e prejuízos, precedido pela crise pandêmica, que por lá já matou 751 pessoas, num cenário de 52.832 infectados.

Na geladeira os alimentos se estragam e usar o WahtsApp não é uma opção, já que as de redes de telefonia fixo, móvel e de internet, também foram afetadas.  Nos postos e supermercados as filas em busca de água evidenciam a dimensão do caos. Ele resulta, segundo Operador Nacional do Sistema (ONS), de um incêndio ocorrido na terça (03/11) em uma subestação localizada na Zona Norte da capital, Macapá, que atende a todo o estado. O plano de fundo: uma tempestade. Duas pessoas teriam sido atingidas por raios.

A crise é imensa e tida como sem precedentes, tanto que os grupos políticos ligados a João Capiberibe (PSB) e Randolfe Rodrigues (Rede), cogitam a possibilidade de adiamento das eleições municipais. O pedido de adiamento será feito ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

Apesar da mobilização, que conta com o apoio da Força Aérea Brasileira (FAB), a normalidade não virá em menos de um mês, é o que estima o ministro de Minas e Energia, Beto Albuquerque. “Estamos desencadeando outras ações para que em um prazo de até 30 dias todos os transformadores necessários para dar total segurança energética ao Estado estejam totalmente restabelecidos”, ressaltou.

Nos jornais de grande circulação no Brasil “o problema da nossa conta” não se acha no topo dos sites. Perde espaço para os gráficos, números e porcentagens de uma democracia que adoramos copiar. Nos orgulhamos, inclusive, de nosso “Trump dos trópicos”. Falamos de Nevada, Califórnia e até Wisconsin, como se nos referíssemos ao lugar onde costumamos passear com nossos cachorros, mas relegamos o Amapá ao apagão da indiferença, que por sinal, não é de hoje.

Por que o Brasil, nesse momento, fala mais de Michigan e Nevada do que do Amapá?

“É histórico a negação do Brasil com determinados espaços, sobretudo algumas regiões específicas, e aqui falo do norte e nordeste brasileiro, mas podemos falar das periferias como um todo. As tragédias e problemas das periferias são pouco vislumbradas pelo brasileiro e isso tem a ver, ao meu ver, com um recorte racial forte, em que o brasileiro elege o negro e o indígena como sujeitos (não humanos) que pouca importância tem para o Brasil. Nisso, essas tragédias com esses povos são um “tanto faz”. Como norte e nordeste são as regiões com maior quantidade de negros, indígenas, logo a essas regiões cabe apenas o resto de preocupação. São sujeitos secundários para o brasileiro. Outra coisa: o brasileiro é educado a ter alguns espaços como centrais, numa hierarquia de importância. Não à toa, as notícias ganham mais destaque quando vem da Europa e dos EUA, do que de uma Ásia ou África. No caso, até mesmo de dentro do país isso faz sentido”, pondera Sávio Dias Rodrigues, Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Ceará, ao indagá-lo.

A Jornalista e Relações Públicas (UESPI) Ohana Luize, por sua vez, pensa a realidade em questão trazendo para o diálogo a mídia e o jornalismo, entre o que temos e o que seria ideal no quesito cobertura. “Os últimos acontecimentos estão nos pedindo que olhemos em direção norte: ao norte do Brasil ou do continente americano. A diferença é que a grama do nosso vizinho mais próximo parece não reluzir tanto. Digo essas metáforas para que possamos refletir, e aqui me volto mais ao fazer comunicacional e ao jornalismo, que critérios contribuem para que alguns assuntos tenham maior ou menor ressonância e, consequentemente, mais espaço nos veículos jornalísticos e nas redes sociais. Parto do ponto de que os critérios de noticiabilidade não são estáveis, estão sujeitos às dinâmicas dos veículos, da conjuntura política e indo mais a fundo nas hegemonias históricas, sociais, políticas e culturais envolvidas e constituídas nesses processos que não são apenas escolhas. Sabemos que em termos de geopolítica os EUA têm uma força gigante e atualmente no Brasil o presidente Jair Bolsonaro é porta-voz do projeto de Donald Trump, seguindo muitos de seus passos desde à campanha eleitoral de 2018. Isso é um ponto. Mas é preciso olhar também para a relação colonial com a qual as forças do norte global tem com o nosso sul. Nossa mídia também se pauta em cima dessa herança, dando uma importância de prioridade para o que vem de lá, seja de maneira material ou simbólica. Por outro lado, o que ocorre no Amapá, ainda mais em meio à pandemia, nos coloca de frente com anos de desigualdades regionais dentro do nosso próprio país somado há todo o caos desse momento. As causas ainda precisam ser averiguadas, mas paralelo a isso cabe à sociedade exigir as soluções. Nessa parte, compreendo que é dever do jornalismo dar todo o espaço necessário ao caso fazendo, inclusive, com que as redes sociais entrem com mais força nessa mobilização. Ou veremos mais um caso onde as redes é que irão pautar o jornalismo? Não que isso seja ruim, não é essa a questão. Mas enquanto esses dois fatos disputam a nossa atenção, é nítido qual dos dois está tendo mais espaço. Cabe a nós questionarmos, refletirmos e sugiro que, para agora, possamos entender que o critério humanitário deva estar nas nossas rotinas seja de qual parte do globo estejamos falando”, pontua Ohana Luize, especialista em Docência do Ensino Superior e mestranda em Comunicação (UFPI). Ela atua na assessoria no SINDSERM Teresina-Piauí e é repórter da Revista Revestrés.

A semana que se finda amanhã (07/11), diz muito sobre um Brasil em crise, já há um bom tempo às escuras. Foi nela que vimos surgir a modalidade “estupro culposo” e como se não bastasse a crueldade das justificativas usadas para inocentar um estuprador, o site The Intercep trouxe à luz a podridão de uma justiça repleta de machistas e repleta de machismo. Vimos Mari Ferrer exposta de forma humilhante e implorando, em lágrimas, por “respeito”.

Já Bento Rodrigues, distrito de Mariana em Minas Gerais, há cincos anos clama também por justiça diante do crime da Vale/Samarco/BHP. Quarenta e oito milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração despejados. Um rio poluído, 19 vidas perdidas e 43 municípios afetados em um país que anos depois lamentou sobre Brumadinho, também em Minas, num crime  em que a Vale se fez reincidente.

O que nos incomoda, nessa semana, é a demora para sabermos se Trump continuará presidente dos Estados Unidos ou se será sucedido por Joe Biden. As nossas chagas que fiquem para depois e o Amapá que continue no escuro. Para o Brasil há um Brasil historicamente no escuro. Quando a luz voltará? Não há qualquer previsão.

Ao que tudo indica, Trump cairá, mas Bolsonaro, o filho das trevas, continuará regente, ainda que mais isolado no cenário global, da ópera de nossa tragédia cotidiana. Seu governo sintetiza o que esse país tem de mais escroto e cruel, do machismo ou desapreço pelas pautas ambientais e com sua popularidade subindo, não se pode dizer que terá sina semelhante. Com Joe (que beira a direita na versão BR) no poder espera-se, pelo menos, que Ricardo Salles, o destruidor do meio ambiente, caia juntamente com a derrocada de Trump, em função de tudo aquilo que na prática, seu posto de Ministro do Meio Ambiente tem representado.

Por Joaquim Cantanhêde

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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