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segunda-feira, abril 15, 2024

“A Lâmina de Ariela”: duas jovens escritoras e o desafio de publicarem um livro na terra dos poetas

Nos gabamos de nossa efervescência cultural, de nossas figuras ilustres, que fazem histórias nos diversos campos da arte. Na literatura, uma de nossas praças evocam Corrêa de Araújo, um entre tantos outros poetas que neste solo brotaram. Politicamente falando, Pedreiras e Trizidela do Vale, no Maranhão, são espaços geográfico distintos, mas literalmente ligados por uma ponte, a Francisco Sá, embebedam-se de uma simbiose de sentidos simbólicos que abarcam- lhes, aprofundando-lhes os laços históricos e culturais.

É neste universo real que nasce “A Lâmina de Ariela”, de autoria de Michelly de Jesus Melo e Amanda Libório da Silva, acadêmicas do curso de Letras, da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Campus Pedreiras. Dispostas a ir além da leitura e navegar pelas águas barrentas da escrita, conhecem bem a máxima “casa de ferreiro, espeto de pau”.  Na terra de Corrêa, João, Samuel e Expedito, ser autor do próprio livro é mais difícil que parir gente. Mas Michelly e Amanda persistem, com a ajuda da família e amigos.

Em entrevista ao portal O Pedreirense, falam sobre o processo de escrita, os impactos da pandemia, personagens favoritos e o desafio de conseguir dinheiro para publicar o livro que escreveram.

O Pedreirense: Em que momento da vida de vocês tomaram gosto pela leitura?

Michelly: Desde pequena tenho aquela paixão por livros. Começou com as historinhas bíblicas. Depois, na escola Frei Germano, tinha muito essa questão de incentivo à leitura. Tive contato com os grandes clássicos da literatura: Iracema, Pretinha Eu. Ali foi nascendo e aflorando em mim esse gosto pela leitura e consequentemente a escrita.

Amanda: Posso dizer que uma das maiores incentivadoras para que eu começasse a ler e tivesse gosto pela leitura foi minha mãe, Maria Nazaré, por ela ser professora. Sempre me apresentava livros. Não era celular, brinquedos, eram livros. Tanto eu como minha irmã nos apegamos à prática da leitura. No Frei Germano liamos muitos livros infantis.

OP: Qual o embrião dessa ideia de serem escritoras?

Michelly: Minha mãe, Edineide Cristina, sempre me incentivou. Dizia para ela: “Meu sonho é escrever um livro. Um dia vou escrever um livro”. E ela: “Vai sim minha filha, você vai conseguir”. Sempre me apoiou muito nessa questão. Graças a Deus encontrei a Amanda e demos continuidade a esse sonho.

Amanda: Sempre gostei muito de escrever. Só que meu foco na escrita sempre foi poema. Desde o oitavo, novo ano, por conta da escola. “Faça um poema sobre determinado tema”. Fazia, achava interessante, gostava muito de rimar. Ainda é uma coisa minha, para meus amigos, alunos, nunca postei. Quando encontrei a Michelle, começamos a falar sobre essa questão de escrever. Ela veio com essa paixão dela por livros, literatura, e eu com o gosto por poemas, poesias. Acredito que uniu ainda mais na universidade, lugar onde tivermos maior contato.

Michelly: Também escrevo poesias, só que as minhas publico. Já não tenho tanto esse apego. Minha arte quero expor, quero que as pessoas sintam aquilo que expresso a elas. Não tenho problema com isso. Convido bastante a Amanda pra gente criar um Instagram para publicar nossas artes, poemas. É algo que ela tem que trabalhar, por enquanto.

Michelly de Jesus Melo (Foto: Joaquim Cantanhêde)

OP: Vamos falar sobre o livro “A Lâmina de Ariela”, que história ele conta?

Michelly: Surgiu como um trabalho acadêmico e a gente via a possibilidade de dar asas. Mentalizei outros personagens, várias histórias ali dentro, junto com a Amanda. Foi um divisor de águas para nossa carreira acadêmica, porque no livro a gente conseguiu abordar temáticas bastante recorrentes na sociedade, principalmente a questão da ansiedade e automutilação em decorrência dela, que muitos adolescentes e jovens tem certo receio em falar sobre isso.

Amanda: A gente quis trazer algo que realmente pudesse mexer, digamos assim. Mexer com a sociedade. Se iriamos produzir um livro, que seja sobre uma temática recorrente, atual, não entrando tanto na fantasia. Mostramos um pouco da realidade. Esse tema é algo com o qual muitas pessoas sofrem, então pegamos esse tema não tão discutido, mas que ocorre bastante. Por se tratar de mutilação, é tido como loucura, querer aparecer, frescura. Mostramos um outro lado. Às vezes essas pessoas fazem isso pedindo socorro.

OP: Se despindo de escritoras, porque leriam o livro “A Lâmina de Ariela”?

Michelly: Leria por conta da história. Sou apaixonada pelo público jovem, adolescente. São causas, que o livro traz, que não é o olhar do adulto, é o olhar do adolescente, enquanto vive todos os seus anseios, aflorando, conhecendo a vida e por essa perspectiva leria esse livro.

Amanda: Vou na mesma linha de pensamento e por isso deu tão certo o livro ter sido feito por mim e Michelly. Por ser uma temática muito interessante. As famílias não falam tanto, não é tão romantizado. É uma temática diferente. Poucos escritores, ainda mais aqui na cidade (Trizidela), escrevem sobre. É algo diferente, que para sociedade pedreirense e trizidelense é inovador.

OP: O que vocês observam de ganhos e ausências na literatura local?

Michelly: Em relação a ganho as prefeituras, tanto de Trizidela quanto de Pedreiras, já trazem projetos que incentivam esses artistas a produzirem. Isso é um ganho! A perda é que muitos jovens não tem aquela paixão, aquele encanto por escrever, por produzir obras literárias que somem com nossa cidade.

Amanda: Pedreiras e Trizidela tem muito jovem e faltam escritores jovens, que tenham um assunto diferente para falar, que tenham uma opinião diferente para dizer, para debater. A literatura e a escrita ronda muito pelo adulto. Falta a visão do jovem, do adolescente e do pré-adolescente.

Amanda Libório da Silva (Foto: Joaquim Cantanhêde)

OP: As escolas estimulam como deveriam?

Michelly: A escola tem sim projetos de leitura, de produção, inclusive as olímpiadas que facilitam a questão da escrita, de incentivar o aluno a produzir. Só que estamos em um mundo em que tudo gira em torno da tecnologia. Então acaba sendo mais atrativo uma gameficação, o lúdico, do que uma caneta e o papel. Infelizmente!

OP: Em que estágio está o livro?

Michelly: Finalizado! O iniciamos em 2019 e o concluímos em plena pandemia, no ano passado, em setembro. Foi quando enviamos para a editora, que fez toda uma análise, só que não houve a publicação por conta do custo, que é alto.  

OP: De que modo a pandemia interferiu no processo?

Amanda: Acredito que a questão da pandemia foi um facilitador, se dificultou após o processo de conclusão, na hora de irmos atrás de patrocínio, de alguém que pudesse ajudar e com a editora também.

Michelly: Tínhamos parado com o projeto por conta da correria, a pandemia trouxe aquela pausa para produzirmos. Vimos uma oportunidade de conclusão do trabalho. Aproveitamos! Nossa maior apoiadora, de todo projeto, foi a professora Edma Ribeiro, que abraçou e apoiou. Sem ela não conseguiríamos terminar. O livro não é só escrita, há todo um processo. Ela nos orientava no que poderíamos estar melhorando e acrescentando.

Amanda: Foi na aula dela, na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), que surgiu essa questão de escrever. Ela tá com a gente desde o início.

Michelly de Jesus Melo e Amanda Libório da Silva (Foto: Joaquim Cantanhêde)

OP: Um livro é um clico e a publicação é parte do processo. Como tentam viabilizar a publicação da obra escrita por vocês? 

Michelly: Dói o coração deixar engavetado o nosso sonho. Iniciamos a primeira arrecadação de dinheiro, por meio de uma rifa entre amigos, que ocorreu no ano passado e que foi bastante satisfatória, mas ainda não atingimos o total para publicação. Estamos indo em busca de ajuda, patrocínio, vendo possibilidades de desenvolver uma outra rifa.

OP: Já foram em busca do poder público?

Michelly: Com alguns, porém não tivermos resposta. Infelizmente!

OP: Como escritoras você acabam tendo envolvimento com o enredo e seus personagens. Qual o preferido e quem lhes causa repulsa?

Michelly:
Como o livro traz um pouco de minha personalidade, alguma pinceladas aqui, algumas observadas ali, acredito que a Ariela é aquele meu objetivo de estimação. Aquele que sei que algum tracinho me representa de alguma forma: a questão do pulso firme. Ela é bastante determinada.

Amanda: Personagem que retratei, escrevi e conheço bem, é o Paulo. É um personagem que entrará na vida da Ariela– não posso dizer como ainda, mas algo que gosto muito dele, algo meu também, é sempre procurar uma forma de fugir dos problemas de uma forma mais leve. O jeito sarcástico de ser.

OP: Como a famílias de vocês se comporta diante desse sonho do processo de criação do livro?

Michelly: Minha família abraçou o projeto. Se empenhou até na rifa. Tudo o que a gente enxerga de possibilidade de ajudar para que esse livro seja publicado, eles estão com a gente, segurando na nossa mão e dizendo que tudo dará certo.

Amanda: Não só a família como também muitos amigos! Nós temos a sorte grande de termos pessoas que nos apoiam. Muitos professores da UEMA viram possibilidade e ajudaram, assim como muitos amigos. A família é a base.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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