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quarta-feira, julho 17, 2024

“Fiesta de los muertos”: a perspectiva de Julio Itzayán, um mexicano com os pés em Pedreiras

Comemorar, esse não é um verbo que os brasileiros costumam associar ao Dia dos Mortos, anualmente evocado no dia 02 de novembro. Pelos cemitérios do país, as cenas vistas nada nos remetem à alegria. É a nossa forma de ver a morte e Pedreiras, no Maranhão, é parte dessa perspectiva. Se os pedreirenses querem distância da morte, Julio Itzayán, um mexicano com os pés em Pedreiras, tem em seu lar inúmeras referências à ela. Não é exagero dizer que sua casa é uma extensão do México, de onde partiu para viver com uma maranhense. Os detalhes estão nas paredes, chaveiros, na geladeira e onde mais se possa imaginar. De Nossa Senhora de Guadalupe, passando por Frida e claro, as caveiras mexicanas circundadas por flores e cores também estão presentes.

“No México a morte é uma outra forma de viver. Isso porque na nossa cultura Mesoamericana, a vida não termina na morte das pessoas queridas. Na medida que a gente continua lembrando dessas pessoas que, infelizmente, não estão mais conosco fisicamente, trazemos elas na memória, fazendo com que acompanhem cada um dos nossos passos, das nossas derrotas e conquistas. Elas continuam vivendo conosco”, destaca Julio Itzayán, natural da cidade de Cuernavaca, conhecida como “A cidade da eterna primavera”, capital do estado de Morelos, no centro do México. Ele conta que essa foi a sua primeira “Festa dos Mortos” em Pedreiras. Até planejou viajar para seu lugar de origem e na volta trazer os elementos que integram o rito na tradição mexicana, mas o cenário pandêmico o impossibilitou.

“Falo que não é Dia dos Mortos, mas sim uma Festa dos Mortos, porque implica em toda uma série de atividades econômicas, sociais, culturais e políticas. Começa assim: do dia 30 para o dia seguinte, a gente lembra e comemora as pessoas que foram assassinadas por morte violenta, que sofreram algum assalto, roubo. Do dia 31 de outubro para o dia 01 de novembro, a gente comemora as pessoas que faleceram jovens, crianças, bebezinhos e adolescentes, pessoas que eram muito novas quando faleceram. No dia 01 de novembro para o dia 02, comemoramos os adultos. No caso meu tio, algum primo já com 20 anos, tias, avós, bisavós. Essa seria a dinâmica das datas da Festa dos Mortos”, explica Julio Itzayán.

Na cosmovisão e cultura de seu povo, todas essas pessoas continuam vivas. Logo, é comum que toda a família vá ao cemitério levando flores, vassouras e outros acessórios para a limpeza dos túmulos e comida para ser ingerida ali, em um churrasco/piquenique no local de repouso dos corpos de seus entes queridos. Dialogam com eles, contando-lhes o que ocorrera durante o ano. A pandemia da Covid-19 certamente predominaria nas narrativas, mas haveria espaço para as coisas boas, conta Julio, que compartilharia com eles desde o fato de ter se mudado de cidade até a defesa da qualificação.

“A gente faz um caminho (como um tapete) com as flores, uma flor especifica, a “cempasuchil”, a flor do mortos. Ela é uma luz, uma guia para as ‘ánimas’ (almas) desses mortos, para eles não se perderem. Esse caminho vai desde a entrada até o altar, que é na verdade uma mesa num espaço específico da casa, onde colocamos fotografias dessas pessoas queridas, as comidas que mais gostavam. Se sei que gostava muito de uma cervejinha, compro e coloco lá no altar, para quando essa pessoa vier. Colocamos, também nessa mesa, quatro pontos, que seriam norte, sul, leste e oeste e no centro colocamos o ‘copal’, especifico do México, que é uma fumaça para convidar as ánimas dessas pessoas. Elementos representativos: caveiras, uma ponte acima do altar, simulando a passagem entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos e o pão dos mortos, que a gente chama de ‘pan de los muertos’. Tudo muito colorido”.

Por Joaquim Cantanhêde

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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