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domingo, abril 14, 2024

A falta d’água não ‘acaba’ quando há água no centro

Este não é um texto apenas sobre o que vi, é sobre o que vivo, mas prefiro o plural: é sobre o que vivemos. A Travessa José de Freitas, bairro do Engenho, é um dos melhores lugares para se viver. Quem chega percebe o clima diferente. As crianças ainda ocupam às ruas, jogam peteca e por aí vai. Vou parecer contraditório, mas viver aqui requer coragem, afinal de contas, somos periferia.

Hoje, como tantos outros dias, foi mais um daqueles em que levantar a tampa da caixa d’água foi um gesto traumático e não, não se trata de um exagero. Passe o mês aqui e vai entender as razões para a escolha do termo. Estamos há oito dias sem água e não, este não é um caso isolado. Foi sempre assim, mas de uns anos para cá a coisa parece se agravar. O Morro do Calando, bem sei, vive uma realidade mais severa. Já escrevi uma reportagem sobre a falta d’água para aquelas bandas da cidade de Pedreiras.

Os lugares altos convivem historicamente com isso, mas os políticos que sobem o morro, esquecem de culpar a topografia em tempos de campanha. Ignoram a ciência, prometendo mundos e fundos numa rapidez infantil. Estamos enfadados disso. Não acreditamos mais.

Nesta semana, um grande vazamento, no ‘pé’ da ponte Francisco Sá, estendeu o desabastecimento para toda cidade, inclusive o centro. Transtornos causados, buraco tampado, nesta parte da cidade a vida voltou ao normal, a tempo de curtir o carnaval. Por aqui ela nunca chegou. Na travessa não vemos nossos rostos refletidos nas caixas d’água há dias.

Usei o termo trauma porque é o que sentimos quando ouvimos a palavra vazamento. A gente sabe que o pior estar por vir, que o que é ruim vai piorar.

Quem vai resolver isso? Palestrinha de vereador ao gerente regional da CAEMA? No ano passado foram duas reuniões que desaguaram em lugar nenhum. Água, cujo acesso é um direito primário, continua sendo-nos negada. Esses blablablas no máximo rendem fotos a uma safra de políticos que adoram biscoitos nas redes sociais. É patético!

Tem parte em nossa dor Flávio Dino. Será que o governador, que só em 2021 andou umas três vezes por aqui, não sabe da violência que o povo dos morros sofre? Ou não é violência? Vamos chamar de quê? Estamos cansados de retórica. Estamos falando de água, coisa que não deve faltar no Palácio dos Leões.

Com 8 dias sem água, nossa rua, bem asfaltada, ainda não viu subir carros –pipas, que não é o ideal, mas ajudaria, aliviaria o fardo de muitas mães e pais de família. Estamos falando de gente que pensa bem antes de vestir uma outra roupa. Estamos falando de gente com roupa acumulada, que precisa que elas durem por um bom tempo.

Inquestionavelmente as mulheres pagam o preço mais caro ­– isso numa cidade governada por uma. Mas a realidade da prefeita é uma e a preocupação é outra. “Como você vai curtir o carnaval? ”, indagou nas redes sociais. Abastecer nossas casas não é sua competência, sei, mas o amor que ela diz sentir pela gente se limita à competência do cargo? Seu cuidado só vai até onde manda o papel? Estamos sofrendo! Se nos falta o básico, como esperar que não nos falte esperança?

Por que este problema mobiliza tão poucos? Menos que o risco de fechamento da vara do Trabalho, por exemplo. Se não se vive sem água, por que esta causa não mobiliza esta cidade? Ou o problema acaba quando a caixa da minha casa transborda? A falta d’água não “acaba” quando há água no centro.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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