Coluna do Barrinha
A história política e econômica do Brasil é marcada por contradições profundas, e nenhuma delas é mais central — e decisiva — do que o papel desempenhado pela burguesia nacional. É uma burguesia entreguista que sempre se mostrou em meios subalternos quando o assunto envolve interesses externos ou nacionais. Demorou apenas um ano e dois meses após a independência para o Brasil sofrer seu primeiro golpe de Estado. O país tinha acabado de nascer como nação quando o imperador dom Pedro I ordenou, em novembro de 1823, dissolver a Assembleia encarregada de elaborar a primeira Constituição brasileira. Inaugurava-se o ciclo de golpes políticos que passaram a ser rotina em território nacional. Pouco tempo depois, um golpe militar colocou fim ao regime monárquico no Brasil. Esse foi o desfecho da chamada Proclamação da República ocorrida em 15 de novembro de 1889.
Nos anos 1930, dois golpes perpetrados por Getúlio Vargas foram registrados em um intervalo de sete anos, resultando em fechamento do Congresso, cancelamento de eleições e perseguições aos opositores políticos e à imprensa. Primeiramente ocorreu a deposição do presidente Washington Luís, no dia 24 de outubro de 1930. Depois em 1937 houve o que chamamos de golpe dentro do golpe, a determinação por decreto do Estado Novo. O mesmo se repetiu com o Golpe de 1964, que colocou o país em um regime ditatorial durante cerca de 21 anos. A história republicana brasileira é marcada por tentativas e por golpes.
Os discursos em cada justificativa dos golpistas sempre perpassavam pela necessidade de uma força modernizante e comprometida com o desenvolvimento autônomo e soberano do país. Quando não, justificava-se pelo combate ao terror comunista. Mas, o que a História mostrou é bem diferente. Na realidade por trás desse discurso, evidenciou-se uma trajetória marcada pela conciliação com interesses externos, pela manutenção de estruturas arcaicas e excludentes, e, por repetidas investidas contra a democracia, como estamos acompanhando desde os resultados da eleição presidencial ocorrido em outubro de 2022.
Nesse sentido, esse breve texto reflexivo sustenta a tese de que a burguesia brasileira não é revolucionária, “coisa nenhuma”; muito menos “nacionalista”. Ela é sim, golpista. Longe de liderar projetos de ruptura com dependências estruturais, essa classe tem historicamente optado por alianças conservadoras e pela ruptura institucional como mecanismo de preservação de privilégios, revelando seu caráter antagônico a um projeto verdadeiramente soberano e inclusivo para a nação. Ações revolucionárias promovem reformas e transformações estruturais do status quo, substituindo relações de poder e modelos institucionais estabelecidos, de modo a permitir uma maior participação da população nas decisões governamentais. Como afirma Florestan Fernandes em “A Revolução Burguesa no Brasil”, tais ações visam alterar a “correlação de forças sociais” para construir um projeto político verdadeiramente emancipatório.
Portanto, essa burguesia que por décadas governa o Brasil é golpista, e os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 comprovam essa vocação antidemocrática. A invasão e depredação dos símbolos máximos do poder nacional — o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal — não foram um ato espontâneo de “manifestantes inconformados”, mas a face visível de um projeto orquestrado por setores das elites econômicas, aliadas a frações do agronegócio, midiáticas e militares, que historicamente recorrem à ruptura institucional quando seus privilégios são ameaçados. Não foi um “passeio de domingo no parque” ou mesmo “pessoas que estavam em casa sem nada fazer, e do nada resolveram ir depredar patrimônio público”. Foram atos previamente pensados e que conseguiram manipular através da desinformação e discursos de ódio, milhares de pessoas, que se comportam como verdadeira massa de manobra.
O episódio de janeiro, assim como o golpe de 2016, que depôs a presidenta Dilma Rousseff, expõe a incapacidade crônica dessa burguesia de competir no campo das ideias e das propostas de um projeto nacional, preferindo sabotar a democracia a abrir mão de seus benefícios. Longe de ser “revolucionária” ou “nacionalista”, essa classe age como sócia abissal do capital internacional, priorizando interesses rentistas e a submissão a agendas externas em detrimento da soberania e do desenvolvimento interno. As comemorações do 7 de setembro de 2025 mostraram quem eles são e como manobram pessoas. Os bonecos do presidente americano e bandeiras gigantes dos EUA e de Israel, juntamente com cartazes pedindo intervenção ianque comprovaram em nossas ruas e avenidas o complexo de vira-lata dessa elite golpista.
Contudo o pior, relato agora. Essa burguesia antinacional age de forma sorrateira e covarde. Ao espalhar aquilo que lhes é mais peculiar, as diversas fake news, ela encontra eco em segmentos frágeis da própria sociedade que, paradoxalmente, são suas principais vítimas. Parte expressiva da classe trabalhadora é cooptada pelo discurso das elites, que naturaliza interesses privados como se fossem benéficos para a coletividade. Esse processo de convencimento não se dá por acaso: é resultado de uma longa tradição de dominação cultural, da fragilidade da consciência de classe em um país de capitalismo periférico e dependente, e de um projeto deliberado de disseminação de valores conservadores através de poderosos aparatos midiáticos e pasmem, até religiosos.
Como pode a classe trabalhadora agir de forma contrária aos seus próprios interesses? Pesquisas de opinião, como aquelas conduzidas pelo Quaest divulgada dia 30/07/2025, revelaram que embora 72% dos brasileiros sejam contra o tarifaço dos EUA, 19% apoiam. É um percentual pequeno, considerando o todo? Sim, mas não deve ser visto apenas nesse sentido quantitativo. É preciso saber quem são eles? Quem são esses 19%? São homens, que se identificam como politicamente à direita e eleitores de Jair Bolsonaro, atualmente inelegível e condenado no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado e ser líder de uma organização criminosa). Esse apoio a algo que é predatório e que gera desemprego e prejudica nossa economia é a face mais visível de uma alienação política profundamente enraizada e internalizada justamente por aqueles que sofrem suas consequências mais cruéis. Este fenômeno completa o ciclo de dominação, onde a hegemonia não se sustenta apenas pela força, mas pelo consentimento ativo ou passivo dos dominados. Aqui, cabem duas observações importantes. A primeira delas é uma narrativa sustentada pelos golpistas: “Como pode ser golpe, se não tinha armas e tanques nas ruas?”. Veja o que diz o Art. 359-M da Lei 14.197/2021 que trata do Crimes Contra o Estado Democrático de Direito: Tentar depor, por meio de violência ou grave ameaça, o governo legitimamente constituído. O sujeito ativo pode ser qualquer pessoa. Não precisa ser soldados e tanques. A bíblia em uma das mãos e uma picareta na outra é suficiente, pois o que está em jogo é a capacidade dolosa do indivíduo. Reforço, a lei é de 2021. Quem governava o país?
A segunda observação, acaba explicando a primeira. Cito Milton Santos: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”. Essa fragilidade não é natural ou acidental; é socialmente produzida. Sistemas de poder (econômico, midiático, cultural) trabalham constantemente para promover o individualismo e fragmentar a classe trabalhadora.
Cadê a consciência e o pertencimento de um sujeito à sua classe social. É essa consciência de classe que unifica um grupo de pessoas de modo a se organizarem politicamente em torno dos mesmos interesses e pautas. Conforme Karl Marx e Engels, “a história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classe”.
Por fim, é importante sempre ressaltar que a superação dessa alienação histórica é possível. Primeiramente, é preciso que nós, trabalhadores, nos reconheçamos como classe — identifiquemos em nossas lutas cotidianas, em nossas dificuldades compartilhadas e em nossa exclusão dos frutos do progresso real a força que nos une. Segundo, compreendamos que nossos interesses são comuns e totalmente opostos aos interesses da burguesia. Enquanto esta busca a perpetuação de privilégios, a concentração de riqueza e a manutenção de um projeto excludente de nação, nós almejamos emancipação coletiva, soberania popular e justiça social.
Além disso, a alienação não é um destino; é uma estratégia de dominação. E toda estratégia de dominação pode — e deve — ser desmontada pela ação consciente e coletiva daqueles que produzem a riqueza e sustentam este país. Nossa maior arma é perceber, afinal, que não estamos sozinhos.
Por José Edson da Silva Barrinha, professor de Geografia
Consultas
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 5. ed. São Paulo: Globo, 2005.
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Editorial Grijalbo, 1977.
SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. In: SILVA, Elisane; NEVES, Gervásio Rodrigo; MARTINS, Liana (org.). Milton Santos: O espaço da cidadania e outras reflexões. Porto Alegre: Fundação Ulisses Guimarães, 2011. p. 159-161. Fonte: Vivências – Projeto de vida. Volume único – Ensino médio.






