Meu pai morreu em uma UPA do SUS

COLUNA NILA MICHELE


No dia 23 de junho de 2012, por volta das 9 da noite, eu levei meu pai à UPA do Parque Vitória. O quadro aparentemente era simples: após o almoço, ele começou a se sentir mal, reclamava de azia. Teimoso como era, ele constantemente contrariava o médico que lhe recomendara evitar o consumo de farinha. E justamente naquele dia ele havia comido muita daquela iguaria com o peixe que minha mãe cozinhara.

Assim, “a azia” foi logo atribuída à bendita farinha do almoço. Contudo, mesmo tomando remédios, o mal-estar não passava. Por volta das 6 da tarde, ele começou a vomitar e pensamos ser uma infecção intestinal. Acreditávamos que, uma vez que colocasse tudo para fora, melhoraria. Mas não foi assim. Às 8 da noite, ele suava frio e resolvemos buscar ajuda médica.

Infelizmente, como a maioria das famílias pobres no Brasil, embora nunca tenhamos passado fome, também nunca sobrava dinheiro, principalmente para pagar os altos custos dos planos de saúde ou arcar com as despesas de um hospital particular. O hospital público de emergência mais próximo era a UPA do Parque Vitória, a mais ou menos 7 km da minha casa. Felizmente, eu já tinha um carro e corremos até o hospital, com um medo desesperado da fila, do tempo de espera, da dificuldade de conseguir atendimento.

Mas, ao chegarmos, meu pai, que entrou andando e conversando, foi para a triagem e, com a pressão passando dos 190/100 mmHg, foi rapidamente classificado como paciente de risco. Em menos de 15 minutos, ele foi encaminhado ao médico e depois para fazer um eletrocardiograma. O que se seguiu a partir daí foi como um filme: minha mãe me chamando, pois ele havia sido levado para outra sala. Eu entrei e, do corredor em frente à sala vermelha, eu vi aquele hospital parar e lutar para salvar meu pai. Foram médicos, enfermeiras, desfibrilador, massagens cardíacas. Foram horas de luta, e em nenhum momento aqueles profissionais negligenciaram meu pai. Perdi a conta de quantas vezes eu, chorando, ouvi o “afasta, afasta” ou “troca, troca”… Eles lutaram pelo meu pai. Era um infarto fulminante. Eles ainda conseguiram trazê-lo de volta uma vez, mas veio o segundo. Todo esforço novamente, mas dessa vez ele não resistiu e faleceu.

No primeiro semestre de 2012, a UPA do Parque Vitória estava completando os seus primeiros meses de funcionamento e, segundo soube na época, aquela teria sido a primeira morte registrada na unidade. Conto esse episódio para testemunhar que, mesmo diante do momento mais devastador de minha vida, eu me conforto com todo o atendimento que meu pai recebeu. Tenho fé que em um hospital particular da capital ele não teria sido tão bem cuidado como foi pelo SUS. Sim, porque a “UPA do Parque Vitória”, assim como todas as demais Unidades de Pronto Atendimento (UPAs 24h) espalhadas pelo Brasil, faz parte do Sistema Único de Saúde (SUS).

Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) tenha sido instituído pela Constituição Federal de 1988, foi especialmente entre 2003 e 2015 que o sistema alcançou o período de maior investimento por parte do governo federal até então. Com a implementação de políticas públicas voltadas à universalização do acesso e ao fortalecimento de seu financiamento, obtiveram-se avanços estruturais e organizacionais que consolidaram o sistema como instrumento fundamental de garantia do direito à saúde no Brasil.

Assim, as promessas políticas dos governos de 2003 a 2015 não ficaram apenas nos discursos; elas se materializaram em diversas ações que ampliaram significativamente o acesso, a cobertura e o atendimento da população aos serviços de saúde. Foi o período de consolidação e expansão massiva da Estratégia Saúde da Família (ESF) e da criação de programas de grande impacto e alcance popular, como o SAMU 192 (criado em 2003), o Programa Farmácia Popular do Brasil (2004), a expansão da rede de UPAs 24h (como a do Parque Vitória), o programa Mais Médicos (2013) e tantos outros.

Infelizmente, o golpe de 2016, que não apenas retirou do poder a primeira presidenta do país, mas também atingiu diretamente o SUS, representando um duro golpe para a saúde pública brasileira. A partir do famigerado “Teto de Gastos” (Emenda Constitucional 95/2016), o sistema passou por um forte desfinanciamento, tendo parte de seus programas descontinuados e suas unidades progressivamente desestruturadas e sucateadas. Foi assim, sem apoio, sem financiamento justo, que o SUS enfrentou a pandemia. Estimativas do Conselho Nacional de Saúde (CNS) indicavam que, entre 2017 e 2019, o SUS deixou de receber cerca de R$ 20 bilhões a R$ 22 bilhões que teriam sido injetados no sistema caso a regra anterior de vinculação às receitas da União continuasse valendo

Se a valorização das políticas de saúde, iniciadas em 2003, não tivesse sido interrompida, continuaríamos a construir uma infraestrutura hospitalar, com compra de equipamentos, leitos de UTI e contratação de equipes que, certamente, anteparariam o Brasil diante da maior crise sanitária da história recente (2020), com uma rede pública de saúde mais estruturada e não tão desguarnecida como ocorreu. Possivelmente, também não teríamos mais de 700 mil mortes a lamentar, nem tantas famílias carregando, até hoje, o trauma daquela tragédia. Não teríamos que lembrar do chefe da nação imitando a falta de ar de uma pessoa morrendo de Covid-19, rindo das mortes, fazendo chacota da luta diária dos profissionais de saúde, negando a vacina e incentivando o uso de remédios ineficazes para a doença.

Felizmente, em 2023, um novo governo despontou no horizonte e a esperança venceu o medo! O novo governo revogou o antigo Teto de Gastos e o substituiu pelo Novo Arcabouço Fiscal, permitindo a retomada do cumprimento dos pisos constitucionais da saúde e o lançamento de programas nacionais voltados especificamente para a redução das filas de cirurgias no SUS. Foi justamente durante essa nova gestão que, em julho de 2024, eu retornei à UPA do Parque Vitória, dessa vez com minha mãe. Voltei amedrontada e desesperada, pois ela sentia-se muito mal, sem forças e com dores no peito. Mas, na mesma UPA em que meu pai morreu, minha mãe foi medicada e recebeu um encaminhamento urgente para um cardiologista.

Pensando nas filas e na sobrecarga do SUS, levei minha mãe a médicos particulares e, depois de muitos exames e meses de investigação, descobrimos que ela precisava de um marca-passo. A primeira pergunta do médico, depois que nos disse da necessidade da cirurgia, foi se tínhamos plano de saúde, pois os custos da cirurgia eram muito altos. O aparelho necessário não custaria menos de R$ 25 mil, sem contar os custos da sala do hospital, médico, anestesista, instrumentista, enfermeiros e UTI, que fariam as despesas ultrapassarem os R$ 100 mil. Como não tínhamos plano, o médico prontamente nos acalmou e disse que ele também operava no SUS e que as filas já não estavam tão longas como antes. Poderíamos fazer por lá.

Em meados de janeiro de 2025, demos entrada na solicitação de consulta no Hospital Universitário da UFMA (HU-UFMA) – Unidade Presidente Dutra. Menos de 15 dias depois, fomos atendidas e encaminhadas para a cirurgia. Estávamos na lista, bastava esperar marcarem. O que não demorou nem um mês completo. Em fevereiro de 2025, minha mãe foi operada e ficou dois dias internada em observação. Novamente, não sei se ela teria sido tão bem atendida e acolhida se estivesse em um hospital particular. Também não sei se, sob outro governo federal, teríamos conseguido acessar nossos direitos de maneira tão eficiente, pois, embora a Constituição garanta o acesso universal à saúde, a História comprova que um governo que não pensa na coletividade e no bem-estar social pode, na prática, negligenciar as estruturas públicas e, assim, dificultar o acesso a tal ponto que aquilo que deveria ser uma garantia constitucional se transforme em privilégio de poucos.

Diante disso, deixo um pequeno exercício aos leitores que chegaram até aqui. Quem governou de 2003 a 2015 – período de valorização e expansão de importantes políticas públicas e serviços do SUS? Quem criou o “Teto de Gastos” que restringiu o financiamento federal do sistema de saúde pública? Quem deu continuidade ao desfinanciamento e desvalorizou o SUS durante a maior crise sanitária da história recente? Quem substituiu o antigo “Teto de Gastos” pelo Novo Arcabouço Fiscal, cumprindo os pisos constitucionais de financiamento da saúde pública? Quem lançou programas nacionais voltados especificamente para a redução das filas de cirurgias no SUS? As respostas claramente mostram as diferenças entre essas gestões e definem meu voto no dia 25 de outubro de 2026.

Como historiadora, é meu dever lembrar daquilo que a sociedade teima em esquecer. Para mim, a escolha não é difícil. Minha defesa da saúde pública não começou nesta eleição, nem terminará nela. Ela se encontra com minha defesa da educação pública de qualidade, da ciência contra o negacionismo e dos direitos sociais assegurados pela Constituição. São convicções que atravessam minha história e orientam minhas escolhas.

Voto em quem, mesmo sem me conhecer, sem sequer saber de minha existência, me permitiu ter o conforto de reconhecer que tudo o que podia ser feito foi tentado quando perdi meu pai. Voto em quem investiu na reestruturação do sistema de saúde que garantiu a sobrevivência da minha mãe.

Por isso, assim como fiz no passado, repetirei meu voto quantas vezes forem necessárias. Voto pelo SUS!

Voto em Luiz Inácio Lula da Silva!

Por Níla Michele, Doutora em História (UEMA), Mestra em História (UFMA) Historiadora, Psicopedagoga, Especialista em Formação de Professores. Professora do Instituto Federal do Maranhão IFMA – campus Pedreiras. Autora do graphic novel “Mariquinhas: crime e resistência feminina na São Luís do Maranhão em 1873”. Colunista do Pedreirense. Instagram: @nilamichele.

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