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quinta-feira, maio 21, 2026

O Diabo Veste Prada ou O Diabo Veste Shein?

Quando “O Diabo Veste Prada”, de David Frankel, estreou em 2006, Miranda Priestly era a chefe que você temia. Ela era a pessoa que o filme dizia pra gente não se tornar, a versão de sucesso que Andy deveria rejeitar antes de ser completamente engolida por aquele universo. Vinte anos depois, ela virou justamente o motivo pelo qual as pessoas estão voltando ao cinema.

Andy Sachs deveria representar o público: a garota comum, inteligente, jogada dentro de um ambiente de trabalho tóxico movido por aparência, pressão e validação. O final do primeiro filme deixa isso claro. Ela “vence” quando vai embora. Quando escolhe a si mesma. Mas o público não foi embora com Andy. O público ficou com Miranda.

Ficou com os casacos. Com os saltos ecoando pelo corredor. Com o escritório silencioso. Com o caos instaurado toda vez que o elevador abria. Miranda permaneceu no imaginário coletivo porque ela representava algo muito maior que uma chefe cruel. Ela representava poder. Controle. Excelência. E agora, quase vinte anos depois, com Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci de volta, a grande pergunta não é mais se Andy fez a escolha certa. A pergunta é: Hollywood ainda consegue contar histórias novas… ou só sabe sobreviver reciclando nostalgia?

“O Diabo Veste Prada 2” nasce exatamente dessa lógica. É aquela clássica “continuação que ninguém pediu”… mas que muita gente queria assistir. Porque hoje Hollywood vive obcecada por reviver franquias antigas. É a era das chamadas legacy sequels: continuações feitas não necessariamente porque existe uma grande história a ser contada, mas porque existe um público disposto a voltar e comprar essas ideias.

E sendo sincera? Narrativamente, não é uma sequência extraordinária. Mas emocionalmente? Funciona muito. Principalmente pra quem ama esse universo. Eu sou suspeita pra falar porque sou fã. E saí do cinema com um sorriso de orelha a orelha. Só que antes da sequência, vale lembrar por que o primeiro filme marcou tanto.

“O Diabo Veste Prada” original não falava apenas sobre moda. Ele vendia um sonho inteiro. Em 2006, o mundo da moda ainda parecia distante, fechado, inacessível. As revistas tinham prestígio cultural gigantesco. Editoras como Miranda Priestly eram praticamente figuras míticas. Havia um glamour muito específico naquele mercado. O sonho de trabalhar em Nova York. O sonho de crescer profissionalmente. O sonho da transformação através da moda. E o filme capturava isso perfeitamente. Ele usava roupas, passarelas e editoriais pra falar sobre ambição, identidade e sacrifício.

Só que entre 2006 e 2026, o mundo virou completamente do avesso. As revistas impressas perderam espaço para o digital. Os jornais deixaram de ser consumidos da mesma maneira. Antes, as pessoas esperavam a próxima edição chegar nas bancas. Hoje, a informação dura minutos antes de ser engolida por outra tendência. Os editores perderam espaço para o algoritmo. Tendências que antes duravam temporadas agora desaparecem em dias. O consumo ficou rápido, fragmentado e descartável.

E isso é uma das partes mais interessantes da sequência. Porque “O Diabo Veste Prada 2” entende que a Runway já não ocupa o mesmo lugar cultural de antes. Ela virou quase um símbolo de um mercado tentando sobreviver. O impresso continua existindo, mas parece uma relíquia elegante de outro tempo. O filme mostra redações encolhendo, cortes de orçamento, conteúdo sendo produzido em velocidade absurda e até produções visuais economizando através de inteligência artificial. Tudo gira em torno de engajamento, métricas e sobrevivência digital. Não é mais sobre criar algo icônico. É sobre continuar relevante por mais uma semana.

E nisso o filme acaba falando muito mais sobre jornalismo e comunicação do que parece. Porque Miranda também está tentando sobreviver num mundo que mudou rápido demais. Se o primeiro filme perguntava até onde você iria pra conquistar o emprego dos sonhos, esse novo questiona outra coisa: esse sonho ainda significa alguma coisa hoje? Ainda existe estabilidade? Ainda existe espaço para excelência num mercado movido por velocidade?

E talvez por isso tanta gente tenha estranhado o visual do filme. Desde as primeiras imagens, os comentários mais comuns eram: “cadê o glamour?”. “Cadê os looks absurdos?”. “Tá básico demais”. “Tá comercial”. “O Diabo veste Prada ou O Diabo veste Shein?”. Mas talvez isso diga mais sobre a moda atual do que sobre o filme em si. Muita gente está tentando analisar a moda de 2026 com a cabeça de 2006. Só que são mundos completamente diferentes. Hoje, luxo muitas vezes significa parecer discretamente caro. E o filme entende isso. O glamour continua ali, mas está mais cansado. Mais frio. Mais estratégico.

E isso se conecta diretamente à Miranda. Porque em “O Diabo Veste Prada 2”, ela já não é mais a mulher mais poderosa da sala. Pela primeira vez, ela parece deslocada dentro do próprio sistema que ajudou a construir. O filme coloca Miranda enfrentando cancelamentos, críticas públicas e um ambiente onde autoridade absoluta já não funciona da mesma maneira. Ela continua exigente, brilhante e intimidante. Mas agora precisa negociar. Ouvir. Ceder espaço. Trabalhar em equipe. Existe uma vulnerabilidade nela que o primeiro filme nunca permitia mostrar.

E isso muda completamente a dinâmica da personagem. Porque antes Miranda passava por cima de todo mundo sem hesitar. Agora ela é constantemente confrontada por assistentes, executivos e pela própria internet. Suas falas são corrigidas. Seu comportamento é policiado. O filme tenta mostrar que o mundo mudou. E que ela precisou mudar junto pra sobreviver. A pergunta é: isso enfraquece a personagem? Pra muita gente, sim. Porque parte da força de Miranda estava justamente naquela crueldade glacial quase inabalável. Mas, sinceramente? Acho que funciona.

Porque pela primeira vez ela não é o predador absoluto daquele ambiente. Ela também virou alguém tentando não ser engolida. E isso talvez seja o comentário mais inteligente da sequência. “O Diabo Veste Prada 2” perde parte da acidez do original. Em alguns momentos parece preocupado demais em atualizar tudo pros padrões atuais da internet. Mas ao mesmo tempo, entende exatamente por que Miranda Priestly continua fascinando o público vinte anos depois.

O primeiro filme dizia pra fugir daquela mulher. Hoje, as pessoas voltam justamente por causa dela. E talvez essa seja a maior ironia de todas. E você já assistiu o filme? O que achou?

“Isso é tudo.”

Por Vitória Miranda

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