22.5 C
Pedreiras
quarta-feira, maio 20, 2026

Se tem focinho, orelha e rabo de porco, o que é isso mermão?

COLUNA DO BARRINHA


Mais do que uma frase de efeito, a metáfora revela um prato da culinária brasileira, mas também evidencia quão obscura é a cultura política brasileira contemporânea, sempre marcada por uma situação de suspeita. Em um ano de eleições, em que a pré-campanha ou mesmo campanha está a todo vapor, cresce na mesma proporção a influência do sistema financeiro no interior das alianças políticas e da estrutura do Estado. Mas é importante dizer que essa influência nem sempre é ilegal. Assim, nesse contexto, a figura do “porco” deixa de representar apenas um animal e transforma-se em linguagem política, instrumento de crítica e mecanismo popular de leitura do poder.

O título, “Se tem focinho, orelha e rabo de porco, o que é isso mermão?, procura dialogar com essa dimensão popular, irônica e crítica do debate público nacional. A expressão “mermão”, típica da oralidade brasileira, foi retirada de um diálogo, a partir da troca de mensagens, nas redes sociais, entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Flávio Bolsonaro é o primogênito (filho 01) do ex-presidente Jair Bolsonaro. Já Daniel Vorcaro é banqueiro, ex-controlador do Banco Master — instituição que sofreu liquidação pelo Banco Central (BC) no fim do ano de 2025. Atualmente encontra-se preso. Ao banqueiro são atribuídos diversos crimes, que inclui desde lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa e até mesmo táticas de intimidação, coerção e invasão de dispositivos informáticos.

Grande parte dessas acusações já se tornou de amplo conhecimento público, alimentando debates políticos, reportagens investigativas e intensas discussões nas redes sociais. Nesse contexto, o título do texto recupera uma expressão popular amplamente utilizada no imaginário brasileiro para sugerir que determinados indícios, conexões e comportamentos, apontam para algo maior do que aparentam revelar à primeira vista. É justamente a partir dessa lógica simbólica e política que se desenvolve a reflexão proposta para este texto. No último dia 13, o Intercept Brasil divulgou, com exclusividade, algumas mensagens trocadas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Entre elas, “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs”, escreveu o senador Flávio Bolsonaro. Esta mensagem foi enviada pelo WhatsApp em 16 de novembro de 2025. Outras mensagens entre os dois ocorreram entre setembro e novembro do mesmo ano.

Como válvula de escape, o dia seguinte à divulgação das mensagens, Flávio Bolsonaro gravou um vídeo em que afirma não ter “relações espúrias” com o banqueiro e defendeu a realização de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Master. Todos sabem que ele não quer CPI. Sabem por quê? Porque uma CPI pode atingir muita gente. Portanto, a defesa fica fácil quando todos sabem que não vai acontecer. 

A mensagem escrita pelo filho 01 do ex-presidente, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, é apenas uma das várias enviadas e que indicam, entre outras coisas, a existência de uma negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a produção de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro

Documentos indicam que pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências — haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro. Aliás, o valor é significativamente superior ao orçamento dos premiados Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, juntos. Mas cadê esse dinheiro? A GOUP Entertainment, produtora de “Dark Horse”, negou que tenha recebido dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário. Especula-se que esse dinheiro tenha sido – ou ainda esteja – financiando a boa vida do ex-deputado Federal Eduardo Bolsonaro, residindo atualmente nos Estados Unidos, após deixar o Brasil.

Diante de toda a repercussão das mensagens, a imprensa resgatou uma fala de Flávio Bolsonaro em março de 2026 em que o mesmo negava qualquer tipo de conexão de sua família e da extrema direita, com o Caso Master. Inclusive chegou a dizer que isso era uma narrativa falsa que o presidente Lula havia criado. A fala ocorreu quando então foi noticiado que o pastor Fabiano Zettel (cunhado de Vorcaro) em 2022, havia feito uma doação de R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro e de 2 milhões para Tarcisio de Freitas, governador de São Paulo.

Para piorar ainda mais a situação, o senador e pré-candidato à presidência do país, disse “De onde você tirou essa informação? É mentira”. Essa resposta se deu quando em entrevista concedida à imprensa, foi questionado sobre o financiamento de Vorcaro ao filme sobre seu pai. Após a resposta, deu uma gargalhada e se retirou do local da entrevista. Na realidade o que se observa é a existência de uma relação de proximidade entre Vorcaro e os Bolsonaros. O próprio funcionamento e operação do Banco Master foi autorizado pelo presidente do Banco Central indicado por Bolsonaro. “O leitor, de maneira apressada, pode questionar: afinal, qual seria o problema de uma empresa ou empresário financiar a produção de um filme? Em princípio, não há ilegalidade alguma nisso. O ponto central da controvérsia, entretanto, não reside simplesmente na existência de um patrocínio privado, mas nas circunstâncias políticas, econômicas e institucionais que envolvem a relação entre um senador da República e um banqueiro, preso e investigado por diversos crimes, inclusive lavagem de dinheiro.

As suspeitas emergem justamente da natureza dessa aproximação e das possíveis implicações decorrentes dela. Em um contexto no qual Vorcaro passou a ser associado à investigações sobre crimes financeiros, corrupção, lavagem de dinheiro e articulações de influência política, a revelação de diálogos envolvendo pedidos de financiamento milionário para um projeto ligado diretamente à imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro ultrapassa o campo cultural ou cinematográfico. A questão passa a ser interpretada como parte de uma rede mais ampla de relações entre poder econômico e poder político.

Diante disso, o debate público deixa de se concentrar apenas no financiamento de uma produção cinematográfica e passa a incorporar questionamentos mais amplos sobre as relações entre poder econômico e poder político. As discussões envolvem possíveis práticas de favorecimento, influência política, aproximação com agentes sob investigação e até mesmo especulações acerca do uso de capital privado como instrumento indireto de sustentação de campanhas eleitorais, sobretudo diante do atual cenário de reorganização das forças conservadoras no Brasil que querem o poder a qualquer custo. Ainda que qualquer acusação de ilegalidade dependa de apuração formal e decisão judicial, a repercussão do episódio demonstra como determinadas conexões políticas e financeiras possuem elevado potencial de desgaste público.

É exatamente nesse ponto que o título deste texto adquire metaforicamente seu principal sentido. A expressão popular é muito conhecida, sendo utilizada no imaginário social para indicar situações em que os indícios parecem apontar para uma mesma conclusão – como no caso discutido neste texto, em que a metáfora associa a ideia da feijoada à suspeita de desvio de recursos”.  O “porco” da metáfora não representa uma sentença jurídica, mas a construção de uma desconfiança política que é justificada pela relação bem próxima de parceria e intimidade, representada pela expressão “mermão”.

Por fim, além das implicações jurídicas e morais, a intimidade entre o banqueiro e o senador está produzindo efeitos políticos negativos. A imagem de Flávio Bolsonaro foi atingida diretamente não só entre os progressistas, mas também entre os setores conservadores bolsonaristas. A associação com Daniel Vorcaro, somada ao desgaste provocado pelas revelações divulgadas pela imprensa, contribuiu para um processo de enfraquecimento e de desconfiança política que tem levado analistas, aliados e adversários a questionarem a viabilidade de seu nome em uma eventual disputa pelo Palácio do Planalto.

Por José Edson da Silva Barrinha, professor de Geografia do IFMA e doutorando em Políticas Públicas da UFPI.

- Publicidade -spot_img
Colabore com o nosso trabalho via Pix: (99) 982111633spot_img
- Publicidade -spot_img

Recentes

- Publicidade -spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Notícias relacionadas