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domingo, novembro 28, 2021

As paranoias de um jornalista bolsonarista

Não sou dado à contendas, picuinhas e derivados. Quem me conhece sabe do meu tesão pela escuta, mas não confundo ouvido com vaso sanitário. Gosto da diversidade de pensamentos, faço cafunés na liberdade de expressão, mas não confundo-a com acusações sem cabimento.

Outro dia me deparei com o seguinte comentário numa reportagem que mostrava, com provas, a falta de transparência na aclamada gestão “Tempo de Reconstruir”, em Pedreiras, Maranhão. “Vai caçar o que fazer, vai arrumar um serviço que preste ao invés de trabalhar em um ramo que você é pago para difamar/elogiar alguém! Se você recebesse dinheiro você não difamava prefeito A ou B. Você é submisso a suborno!”, comentou um leitor por nome de Jorge Luís.

Injurias dessa natureza não me tiram o sono, mas de modo algum devem ser recebidas como uma crítica construtiva, pelo contrário, ações desta natureza devem ser combatidas por ofendidos e pelas instituições. Cabe processo! A premissa da liberdade de expressão não me dá direito de acusar alguém sem apresentar as devidas provas. Pedidos de desculpa não as substituem.

Ataques dessa natureza não são incomuns, em especial para jornalistas devotados à informação e outros profissionais que não se fartam no prato frio da bajulação.

No artigo “7 de setembro pela liberdade”, publicado aqui, no O Pedreirense, o jornalista Elmadson Almeida se debruça numa defesa tosca do que há de pior no bolsonarismo. Encarna o que costumeiramente critica: o chamado jornalismo militante. Sua tese sobre o movimento do dia 7 e a defesa da liberdade de expressão toma nota da distopia que ocupou o poder com Jair Messias Bolsonaro.

Que liberdade Elmadson enxerga como busca dos que foram às ruas no dia 7? A liberdade para acusar as instituições da república em um texto carente de provas. Em seu artigo, Elmadson se porta como juiz, ousa dar o veredito, numa história que, em dias sãos, ele certamente não acreditaria. “A população brasileira foi às ruas para protestar com gritos de ordem a favor da liberdade de expressão”.  Nessa manifestação “destituição do Supremo Tribunal Federal (STF) e intervenção militar” foram os mantras das reivindicações. Um extremismo alimentado pela fala do presidente da república.

Certamente, para Elmadson, o que o presidente arrotou foi o mais belo exercício da liberdade de expressão. De sua parte não houve nenhum dolo. O vilão, na verdade, é o ministro Alexandre de Moraes, peça chave, na cabeça dele, de uma caça incessante aos pais da liberdade. A saber, gente do quilate de Roberto Jeferson e Daniel Lúcio da Silveira.

Liberdade de expressão para o jornalista Elmadson, é poder acusar o STF de “interferência na Polícia Federal”, sem qualquer prova. Foi o que ele fez. Soltando palavras ao vento, negligenciando premissas importantes do jornalismo e burlando sentidos, como é natural dos extremistas, os bolsonaristas em especial.

Numa democracia todas as instituições são passivas de críticas. Nesse contexto a liberdade de expressão em bem-vinda como mecanismo de aprimoramento. Seria ingênuo, por exemplo, supor que a imprensa, tida por muito tempo como o quarto poder, estaria isenta de se repensar a partir do Brasil que se tem. Insisto e vejo movimentos neste sentido. Esse estado de coisas chamado Brasil resulta de movimentações e de inercias. O STF tem parte disso. Sozinho? Negativo! Mas não cabem, em uma democracia, vozes que profetizam o fim das instituições, propondo um caminho à margem da constituição, muito menos ainda sob “intervenção militar” – já conhecemos esse enredo. Elmadson odiaria o Pasquim.

Um país com liberdades não é uma terra sem lei. Elas existem para coibir, desde comentários como o citado no início do artigo, a intentos golpistas e nada mais déspota do que um presidente que, em alto e bom tom, diz que não mais obedecerá as decisões do STF. Bravatas que não se manifestam do nada. Com todas as críticas que devem ser feitas à Suprema Corte, entendo ser um dos freios para esse país, que com Bolsonaro, aprofunda seus abismos.

O Bolsonaro que chega ao poder, com todas as suas declarações e ações, é fruto da inércia que abate as instituições da república. Impelidas, no ápice da crise, a fazerem autocríticas e agirem para além das notas de repúdio. Compactuar com o que escreve Elmadson, em sua “viagem”, chamando-a de liberdade de expressão, é ser avalista de um presidente que aposta no caos, é ser como Bolsonaro. Ele vale quanto?

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Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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