OPINIÃO
A maior riqueza cultural-histórica da cidade de Pedreiras é o festejo centenário ao Santo Negro, Benedito. Na cultura, encontramos Benedito entrelaçado nos traços que configuram nossa cidade com o contexto de sua fundação: uma fazenda de escravos que já ali festejavam, na alegria, com rezas e ladainhas, as maravilhas de Deus na vida de Benedito, reconhecendo-se nele, pela sua história de vida e cor. É como se dissessem aos céus: “Se Benedito pôde chegar lá, nós também podemos”. Na história, a primeira demonstração de fé do nosso povo, foi a igrejinha, construída no alto do morro pelas mãos dos primeiros moradores, em meados de 1800, quando nossa cidade ainda era uma vila ligada a cidade de São Luís Gonzaga. Realmente, é como canta seu Manoel Santana: “[..] este santinho bonito, é o meu São Benedito, santo forte e milagreiro que por felicidade escolheu nossa cidade, para ser o PADROEIRO”.
Benedito teve uma vida inspirada em Deus, seguindo a ele com coragem e dedicação. Viu em São Francisco um exemplo e chamando-o de irmão, escolheu também enxergar nos pobres, a pessoa de Cristo. Preferindo dar alimento a eles que alimentar a si próprio, garantiu o sustendo das mãos de Deus a ele e a seus irmãos. Sendo humilde, deu a Deus um lugar especial na sua vida, tanto que aconselhava os mais sábios da época, mesmo sem nunca ter estudado.
Morreu em Palermo, chamando por Jesus e por Maria. Os negros escravos, que sofriam com a descriminalização, enxergaram em Benedito um grande auxílio, e nas vindas para o novo continente, trouxeram consigo sua devoção. Em Pedreiras, Benedito chega pelas mãos de uns desses escravos. Tanto a devoção, trazida no consciente da fé, quanto a representação trazida na imagem que evangeliza e nos faz perceber os traços de Deus na vida do santo, como as flores e os pães, sinais da manifestação milagrosa do divino nele.
É incrível como a religião, antropologicamente falando, é um dos componentes fortes da identidade de um povo. Nosso Brasil é cristão, pelos esforços católicos dos frades mendicantes, que semearam a fé em meio a tantos perigos. São José de Anchieta (Padre, Historiador e Letrólogo) que catequizou os índios e mostrou a cultura indígena aos portugueses criando a primeira gramática da língua nativa. Santo Inácio de Azevedo e os mártires do Rio Grande do Norte, que foram mortos por ódio da fé protestante calvinista. Santo Antônio de Santana Galvão, que em São Paulo foi um grande auxílio as parturientes e aos nascituros. Santa Dulce, que na Bahia fez dos pobres seus filhos. Beato Padre Cícero, que amou os nordestinos com amor de pai. Beato Frei Damião, que andou os sertões nordestinos falando de Deus e alertando o povo sobre a conversão… Todos exemplos de fé, que com fidelidade nos direcionam a Jesus.
Contudo, embora estes estejam fora do imaginário de muitos pedreirense, quer seja por causa da fé divergente, ou pela falta de conhecimento, existem traços, bem mais simples, que fazem parte de nós enquanto seres no mundo, sinais que nos identificam pois fazem parte da nossa realidade. Todo pedreirense sabe reconhecer o amarelo das acácias, a alvorada da penúltima sexta feira do mês de novembro, a toada de João do Vale, os foguetes de todos os pontos da cidade, as romarias dos setores, o novenário festivo, as brincadeiras no parque, o último domingo de novembro, a solene eucaristia das 9h, com composições próprias, as ruas enfeitadas com faixas, flores e velas, a multidão seguindo a procissão, o Mearim seguindo seu fluxo com majestade, o adeus a São Benedito, nas escadarias da matriz, e por fim, as cores dos fogos que enfeitam a Princesa numa grande coroação. São Benedito chegou aqui, antes de todos nós e bem mais que parte do Canon Romano.
SÃO BENEDITO É PEDREIRENSE, assim como SÃO JOÃO É NORDESTINO. Faz parte de nossa cultura, da nossa identidade, do nosso povo. Não faz nenhum sentido festejar São João sem João, assim como, por ignorância teológica, deixar de brincar no parque por não participar da novena. Se seguirmos esse viés, quem não é católico não poderia professar a fé na santíssima trindade, nem acreditar na divindade e humanidade de Cristo, uma vez que, estes são dogmas essencialmente católicos. Mas essa não é a intenção, ela é bem mais profunda. Se somos cristãos e queremos seguir ao mesmo Deus, não podemos deixar que os pequenos cismas, que nos dividem, ecoem mais fortes que os laços que nos unem. A vida de Benedito foi bem mais cristã que a nossa, e imitá-lo é seguir o conselho de São Paulo “Sede meus imitadores, como eu sou de Cristo” (I Cor 1,11).
O festejo de São Benedito é um convite à oração, a vivência na caridade, ao amor a Deus e ao Próximo. Por aqui, sempre o festejamos pois enxergamos nele uma vivência de fé que queremos confirmar em nós. Dom Armando, pastor da nossa diocese, em uma de suas homilias, bem gravadas em minha memória disse: “O padroeiro de uma comunidade de fé, é a sua identidade. Logo, ter Benedito como patrono desta terra, é ter a caridade, o auxílio aos mais necessitados, a adoração constante a Deus e o amor filial à Virgem Maria. Quando chegamos em Pedreiras, sentimos isso”. Este é, realmente, o momento que revigora a nossa fé e quem não for capaz de perceber os claros sinais divinos destes dias, “apóstolo” ou não, precisa se esvaziar muito de si, e permitir-se enxergar a Deus onde ele está em sua totalidade.
Por Johnew Sousa, pedreirense, historiador e devoto de São Benedito.
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