OPINIÃO
O jogo do poder no Brasil não é para qualquer um, principalmente para quem tenta ingressar nele sem capital político ou uma legenda estruturada para enfrentar o Congresso Nacional. Trata-se do que a Ciência Política conceitua como “Regras do Jogo” (Rules of the Game), fundamentadas pela teoria do Novo Institucionalismo (como em Douglas North), que demonstra como as regras formais e informais determinam o comportamento dos atores e inviabilizam outsiders desprovidos de sustentação institucional.
Augusto Cury é visto por parte do público como um intelectual — ainda que sua produção se concentre na literatura de autoajuda (particularmente, não gosto de suas obras). No entanto, todo o repertório teórico ou notoriedade pessoal que possua resultariam em fragilidade prática diante da inexperiência política e das exigências do sistema eleitoral brasileiro. A Ciência Política já demonstrou, através dos estudos de Joseph Schumpeter sobre a democracia elitista, que a política profissional exige competências específicas de barganha, alianças e articulação, das quais figuras alheias à dinâmica partidária costumam carecer.
O Brasil opera sob o modelo de Presidencialismo de Coalizão, conceito formulado por Sérgio Abranches. Sob essa engrenagem, a legitimidade das urnas no Executivo não garante governabilidade se não houver a construção de uma maioria sólida no Legislativo. Grandes lideranças políticas, como Lula e Bolsonaro, elegeram-se com bancadas de porte considerável (o PSL com 52 deputados em 2018; o PT com 67 em 2022). Ainda assim, diante da ausência de maioria absoluta em um sistema de multipartidarismo fragmentado — fenômeno mensurado pelo índice de Partido Efetivo de Laakso e Taagepera —, nenhum dos dois governou de forma univalente. Ambos se viram obrigados a ceder à agenda ditada pelo Congresso e negociar com o Centrão por meio do fisiologismo e da distribuição de recursos públicos (Rent-seeking).
Imagina-se, então, o cenário para uma candidatura como a de Augusto Cury pelo Avante — uma legenda caracterizada pela Ciência Política como partido de aluguel ou de fraca densidade ideológica, contando com apenas 5 deputados federais de 513 (inclusive, Chiquinho Brazão, condenado como mandante do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes) e 1 senador (o polêmico e controverso, para não dizer pior, Marcos do Val) de 81. Sem musculatura partidária, o governante torna-se refém imediato de chantagens institucionais ou do paralisia legislativa (gridlock), risco amplamente teorizado por Juan Linz ao criticar as fraquezas estruturais do presidencialismo.
Que cada cidadão vote conforme suas convicções, mas sem a ilusão de que a mera substituição da figura no Poder Executivo resultará em uma transformação estrutural do país. Acreditar que um indivíduo isolado, sem base parlamentar, possa contornar os nós institucionais da política brasileira não é apenas otimismo: do ponto de vista da Teoria Política, é pura inocência.
Por Ernesto Basílio, Sociólogo/Antropólogo, Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais/UFMA e Mestre em Ciências Sociais






