OPINIÃO
Cresci ouvindo que a sociedade pedreirense é politizada, mas, ao que parece, isso aos poucos vai virando lenda urbana. Se avolumam situações que versam sobre uma faceta adversa daquilo que me diziam. Somos, como tantas outras, uma sociedade patética e hipócrita. Com as redes sociais, isso fica mais evidente.
Essa sociedade, que acende uma vela para o santo e tem uma “Praça da Bíblia”, colocou sobre uma ‘fogueira’ dois garotos por picharem o nome Brasil na mureta de uma recém-inaugurada obra. O gesto, filmado por câmeras instaladas no lugar, gerou uma revolta que há tempos não se via. Do escândalo do lápis a 14 reais ao escândalo da cidade desdentada, nada gerou revolta similar.
Conservadores, progressistas, famosos e anônimos. Todos acordaram arrotando, nas redes sociais, lição de moral. Uma cena para lá de patética, repleta de gente cuja santidade não para em pé. Parte da classe política, claro, surfou na onda.
Nessa cidade, garotos pichando o nome Brasil é, de longe, a menor de nossas contradições. Enquanto arrotamos moral, bajulamos picaretas, homenageamos gente de índole duvidosa e por aí vai.
O que a parcela social de pedreirenses preocupados com um muro tem a dizer em relação a tantos outros demarcados pelo crime? Num claro recado de poderes paralelos que dominam o Brasil. Desses não se fala, por razões óbvias.
Não que a coisa pública deva ser destituída de regra, mas há uma evidente desproporcionalidade que acaba por expor menores [imagina uma revolta dessas cobrando transparência em relação aos recursos dos royalties]. Aliás, alguém soube de alguma manifestação do Conselho Tutelar ou o aparelho de fax deu problema? As redes sociais já existem e se servem para apontar, criminalizar, devem servir também para proteger.
No mesmo dia, após demasiada exposição, um dos garotos, tendo como testemunha o próprio pai, apagou o “Brasil” que desenhou. Oxalá que não o apague de si como lugar de pertença e sonhos. E o que esperar da sociedade que o criminaliza? É uma velha conhecida do tempo. É a mesma que aceitou, com parcimônia, a ‘expulsão’ de um menino negro para dar lugar a um branco que anos depois não se tornou maranhense do século XX. O tempo coloca tudo no seu lugar: muros, virtudes e pessoas.






