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quinta-feira, abril 30, 2026

Futebol, afeto e saudade

OPINIÃO


O ano era 2002. No céu, em meados de junho, as bandeirinhas tremulavam em dias que misturavam duas paixões brasileiras: São João e futebol. Na José de Freitas, a travessa que atravessa minha história, tempos em que o termo comunidade tinha sentido pleno em razão dos diversos momentos vivenciados em comunhão.

De lá para cá muita coisa mudou, ainda que as esquinas sejam ainda demarcadas pelos cães que passam. Admiro a persistência das vizinhas ao manter a prosa, na porta de casa, em tempos tão violentos. Quando chego ou saio, as encontro ocupando as calçadas. Não é falta de opções (o celular por exemplo).

Naquele ano (2002), a seleção brasileira participava, pela décima sétima vez, de uma Copa do Mundo. As ruas, incluindo a minha, ganhavam cores, o asfalto virava tela para ilustrações que traziam, entre os destaques, o símbolo da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). De tudo se podia duvidar, menos do então orgulho sentido pelos brasileiros de ser brasileiro. A camisa canarinho, de grife ou pirateada, era uma espécie de entidade onipresente (quem poderia prever que se tornaria símbolo de ataques à democracia?).

O televisor, posicionado fora de casa ao amanhecer, fazia da rua uma extensão do estádio durante a transmissão dos jogos. E cá para nós: a Globo sempre soube trabalhar essa paixão, em especial por meio dos elementos sonoros.

Gosto dessa saudade, mas reservo-lhe o lugar cabível. O mundo não é mais aquele, nossa rua também não, menos ainda quem nela mora (parte dos veteranos se foram).

Vinte e três anos depois da nossa seleção ter conquistado seu 5º mundial, o céu de junho, sem tantas bandeirinhas como antes, continua lindamente azulado. O vento, típico desse período, mantém suas peripécias, sacodindo galhos e fios. Há nesses dias, algo na TV, que parece devolver-me parte daquele afetuoso passado: o Mundial de Clubes da FIFA.

Tenho, sempre que possível, acompanhando os jogos, mesmos os que não contam com a participação do Flamengo. Digo, ainda que leigo: um futebol bem jogado. Não há tempo para o marasmo e toques de bola que não busquem o gol (de preferência narrado por Luís Roberto). A participação dos times brasileiros é maestral. E nem venham me dizer que é sorte.

Do lado de cá, ainda que cada um no seu quadrado, são milhões de técnicos, quase sempre reclamando dos técnicos. É muita emoção. E olha que só estamos na primeira fase. As oitavas prometem.

Não faço a menor ideia se o Flamengo chegará à final, menos ainda se será campeão. Tomara que sim, afinal é o único time que leva gente para as ruas de Pedreiras (MA) após a conquista de um título. De todo modo, esta edição diferenciada do Mundial de Clubes já nos “devolveu” fragmentos daquele passado mais amistoso, quando, para este país tão socialmente diverso, parar e assistir um jogo nos era permitido, ainda que em pleno horário comercial.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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