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quinta-feira, janeiro 22, 2026

Uma chinelada na ignorância: o chilique da extrema-direita contra as sandálias Havaianas

Coluna do Barrinha


Inicio este breve texto com a conhecida afirmação atribuída a Antônio Carlos Jobim — o “Tom Jobim” —, “o Brasil não é para principiantes”, que, nos dias de hoje, permanece atual diante das recorrentes contradições e bizarrices da sociedade brasileira. Embora não haja consenso quanto à data exata em que a frase foi proferida, sua circulação é geralmente situada entre as décadas de 1960 e 1970, período marcado por intensas tensões políticas e culturais, fortemente atravessadas pelo contexto autoritário da ditadura militar. A frase variou, ao longo dos anos e, em tempos de internet, foi adaptada para “o Brasil não é para amadores”. Se considerarmos numa linguagem mais juvenil, é possível afirmar que o que ocorreu nos últimos dias no país é, no mínimo, “bizarro”.  Tudo isso em razão de uma peça publicitária das sandálias Havaianas, cuja âncora foi a atriz Fernanda Torres, frequentemente associada como defensora de pautas de esquerda por determinados grupos de direita.

No comercial veiculado na televisão e nas redes sociais, a atriz diz o seguinte: “Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte. Mas, vamos combinar: sorte não depende de você, depende da sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser”. O comercial faz referência às sandálias Havaianas, numa clara metáfora motivacional em que a fala da atriz visa romper deliberadamente com um clichê cultural associado à superstição e à ideia de sorte. Além disso, “os dois pés na porta”, “na estrada”, “na jaca”, “onde você quiser” — ampliam um sentido autônomo de liberdade de escolha, intensidade da experiência e disposição para agir, mesmo com riscos, erros ou excessos. Trata-se, portanto, de uma exortação à ação plena, à vivência concreta e à decisão própria, em oposição à passividade ou à espera por circunstâncias favoráveis.

A marca de sandálias é pertencente à Alpargatas, empresa brasileira com sede em São Paulo e atuação em mais de 100 países. O controle societário da Alpargatas é compartilhado por três grandes holdings — Itaúsa, Cambuhy Investimentos e Brasil Warrant —, o que evidencia sua inserção em estruturas empresariais características do grande capital nacional e internacional. Nesses termos, inexiste base que sustente a associação da marca ou da empresa a posicionamentos de esquerda ou, menos ainda, a orientações comunistas, como tem sido reiteradamente difundido nas redes sociais por grupos autodenominados “conservadores”. Ao contrário, a Havaianas constitui um dos exemplos mais emblemáticos da consolidação de um produto popular no interior de conglomerados capitalistas de grande porte.

Cabe lembrar que, antes dessa propaganda, a mesma atriz já havia protagonizado diversas outras peças publicitárias da marca. Em uma delas, divulgada em outubro de 2025, são apresentados símbolos que poderiam ter inflamado políticos de direita, mas que passaram despercebidos à época. No vídeo, Fernanda Torres aparece em uma praia, como se estivesse finalizando uma gravação, e passa a comparar o cenário com o luxuoso palco do Oscar, no qual participou em fevereiro daquele ano. Durante o comercial, ela menciona um “drink elaborado” enquanto segura um coco verde e uma “entradinha gourmet”, apontando para um carrinho de milho verde. Em seguida, convida: “Vem comigo aqui no tapete vermelho… Olha meu tapete vermelho”. Ao final, a atriz segura um par de Havaianas azul e branco e pede uma segunda opção, recebendo outro par nas cores verde e amarelo. “Me dá uma opção, porque em casa eu vou escolher o melhor look”, conclui.

Esse vídeo não gerou indignação entre setores da direita. O incômodo surgiu apenas com a peça mais recente, divulgada em 19 de dezembro, na qual a atriz afirma não desejar que as pessoas “comecem o ano com o pé direito”. A partir disso, políticos e influenciadores de direita passaram a produzir vídeos destruindo e queimando sandálias da marca e prometendo boicote à empresa, ao mesmo tempo em que promoviam concorrentes em suas postagens. O empresário Luciano Hang, das lojas Havan, foi dos que também aderiu à polêmica ao publicar uma foto criticando a marca e afirmando que, passaria a utilizar apenas sandálias Ipanema. Por outro lado, em busca de visibilidade e engajamento nas redes sociais, políticos anteriormente vinculados ao bolsonarismo passaram a divulgar vídeos nos quais recolhem sandálias abandonadas por apoiadores desse campo político, sob o argumento de que seriam destinadas à doação a pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Nesse sentido, a frase de Tom Jobim ajuda a compreender a reação de setores da extrema direita, que passaram a criticar a campanha publicitária ao alegar que ela conteria alusões às eleições de 2026 e indicaria um suposto alinhamento da empresa à esquerda brasileira e de apoio ao atual governo. Tal interpretação, marcada por forte carga ideológica, evidencia como elementos da cultura de consumo passam a ser lidos a partir de uma lógica de suspeição política, na qual produtos, marcas e manifestações culturais são convertidos em signos de disputa simbólica. Mais do que uma análise objetiva do conteúdo publicitário, essas reações refletem um ambiente de radicalização do debate público, no qual a polarização redefine os limites entre mercado, cultura e ideologia, produzindo leituras simplistas e, muitas vezes, descoladas das condições materiais e institucionais que estruturam o capitalismo em qualquer parte do mundo.

A reação à campanha não se limitou ao campo discursivo, desdobrando-se em práticas concretas de boicote e em gestos simbólicos amplamente divulgados nas redes sociais. Esses comportamentos indicam que o consumo, longe de se restringir a uma esfera neutra ou estritamente econômica, tem sido progressivamente politizado, convertendo-se em instrumento de afirmação identitária e de demarcação ideológica. O caso das sandálias Havaianas constitui, assim, um exemplo emblemático de como mercadorias do cotidiano são reconfiguradas como objetos de disputa política no Brasil contemporâneo. Basta lembrar que a camisa amarela da seleção brasileira, historicamente associada à identidade esportiva nacional, passou, nos últimos anos, a ser ususrpada pela extrema direita como marcador ideológico.

O professor titular de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), João Cezar de Castro Rocha, fez uma observação irônica sobre esse comportamento da extrema direita que merece reflexão. Disse ele: “Daqui a pouco, quando um arquiteto disser que atualmente as casas já não têm mais pé-direito como antigamente, a direita vai afirmar que estão promovendo uma esquerdização da arquitetura”. A ironia evidencia o caráter caricatural dessas reações. Trata-se de um comportamento difícil de levar a sério, especialmente quando se observa a recusa sistemática ao debate qualificado e à leitura crítica. Imaginem o que poderá ocorrer quando perceberem que no primeiro verso na letra da música “Canção da América” de Milton Nascimento, está escrito que  “amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito”. Será que vão criticar também o termo e vê-lo como comunista?

Esse comportamento revela um processo de radicalização contínua, no qual a mobilização política é alimentada por estímulos imediatos de reconhecimento e pertencimento, mediados pelas dinâmicas das redes sociais. A busca por engajamento, expressa na produção constante de vídeos e postagens, opera como mecanismo de recompensa monetária. A radicalização, assim, deixa de ser apenas uma posição ideológica e passa a funcionar também como estratégia de visibilidade e ganho financeiro, incentivada por algoritmos que premiam o barulho, o confronto e a espetacularização da política.

A postura dos defensores do bolsonarismo, não se apresenta como fenômeno isolado ou espontâneo, mas possui significado político carregado de muitas intencionalidades. Ao direcionar a indignação pública contra uma peça publicitária de caráter comercial, simbólico e popular, esses grupos contribuem para deslocar o foco de questões substantivas da conjuntura nacional. Entre elas, destacam-se pautas de caráter antidemocrático e inconstitucional em tramitação no Congresso Nacional, como o Projeto de Lei da dosimetria, os sucessivos cortes de recursos destinados às universidades públicas e à ciência, a ampliação bilionária das emendas parlamentares e outras iniciativas que fragilizam direitos sociais e instituições democráticas. Em âmbito estadual e municipal, governos de orientação bolsonarista também têm adotado medidas questionáveis, como leis de caráter excludente e políticas repressivas dirigidas a populações vulneráveis. Em Florianópolis, capital catarinense e em outros municípios, existem verdadeiros esquadrões de voluntários treinados e com poder de polícia para expulsar pessoas que chegam de outros lugares em busca de emprego e de moradia.

Observa-se, portanto, uma seletividade moral que orienta tais reações. Enquanto se promove o boicote a uma marca de sandálias, episódios amplamente noticiados pela imprensa — como as buscas realizadas pela Polícia Federal em imóveis de parlamentares bolsonaristas, a exemplo dos deputados Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy — tendem a ser naturalizados ou relativizados por esses mesmos grupos. A operação investiga esquemas de desvio de recursos públicos oriundos de cotas parlamentares. No caso do político e pastor Sóstenes Cavalcante, as diligências resultaram na apreensão de aproximadamente 470 mil reais em “dinheiro vivo”, fato que não gerou indignação proporcional entre seus apoiadores.

Em síntese, o chilique bolsonarista em torno das sandálias Havaianas revela menos sobre a marca e mais sobre o estágio atual da polarização político-ideológica no Brasil. A transformação de um objeto banal do consumo cotidiano em alvo de boicote ideológico evidencia o empobrecimento do debate público e a centralidade das guerras simbólicas na atuação da extrema direita. Ao deslocar a indignação para o campo do espetáculo e da performance moral, tais reações obscurecem pautas estruturais que afetam diretamente a democracia, os direitos sociais e as instituições públicas, reafirmando, mais uma vez, a atualidade da constatação de Tom Jobim: compreender o Brasil exige mais do que slogans, impulsos e gestos performáticos. Torna-se, portanto, necessário superar a dissonância cognitiva que sustenta práticas políticas baseadas no ódio, no ressentimento e na negação do outro. A sociedade brasileira, em sua pluralidade, tem o direito de aspirar a formas de convivência orientadas pela dignidade, pela empatia e pela busca coletiva do bem-estar. Aliás essa é a pauta progressista da esquerda democrática. Experiências políticas recentes demonstram um deslocamento preocupante da lógica democrática do adversário — marcada pelo conflito legítimo de ideias — para a lógica do inimigo e do ódio, processo que empobrece o debate público e fragiliza os fundamentos democráticos indispensáveis à vida social.

Por José Edson da Silva Barrinha, professor do IFMA e doutorando em Políticas Públicas da UFPI.

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