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domingo, novembro 28, 2021

Rua Santa Luzia em festa: o “milagre” da água encanada

Na perspectiva católica, Santa Luzia é entendida como a protetora da visão. No Goiabal, bairro periférico de Pedreiras, interior do Maranhão, é nome de rua, famigerada por uma de suas muitas carências: água, aquele recurso natural que todo mundo entende como indispensável à vida, mas em uma das cidades que margeiam o tão poetizado rio Mearim, não são poucas as comunidades que padecem pela irregularidade no abastecimento, seja em casos onde a responsabilidade direta é da Companhia de Saneamento Ambiental do Maranhão (CAEMA) ou em contextos geridos pela Prefeitura de Pedreiras.

Ao longo das últimas semanas, a série especial ‘Vidas Secas” tem mostrado a dimensão dos impactos que a falta d’água coloca sobre as costas dos mais pobres. Histórias evidenciadas no campo, como é o caso do povoado São Raimundo e Olho D’Água, e na cidade, a exemplo do Morro do Calango e Santa Luzia.

“Aqui já morreu minha mãe, meu pai, dois irmãos meus, mais uma sobrinha agora, faz pouco tempo, e eles não chegaram a ver água (encanada) aqui”, relata o morador Antônio Mariano Moreira de Oliveira, 67 anos, um dos fundadores do bairro.

Creusa Conceição Silva, moradora da rua Santa Luzia (Foto: Joaquim Cantanhêde)

“Lata d’água na cabeça. Lá vai Maria. Lá vai Maria. Sobe o morro e não se cansa. Pela mão leva a criança. Lá vai Maria”. A composição (1952) de Luiz Antônio e Jota Júnior, amparada em realidades brasileiras da década de 50, também descreve com nitidez parte da história de Creusa Conceição Silva, nascida e criada na Santa Luzia, de onde, apesar das dificuldades, não pretende sair. “Não era bom! A gente adoecia até da coluna de tanto carregar água, de lá da ladeira do Hugo, lá embaixo”, ressalta.

“No dia que vimos a água saindo das torneiras sorrimos de alegria”. Esse trecho da fala de Creusa faz menção ao dia anterior, quando a água encanada chegou em sua casa depois de décadas vivendo ali. Sua alegria não se acha sozinha nessa rua de paralelepípedos agora encharcados. Com tanto tempo ausente, a água encanada não surpreendeu somente os moradores. Os vazamentos estão por todas as partes. “Os canos estão ressecados, mas acredito que a CAEMA irá resolver isso aí”, espera o morador Patrick Gomes Viana Pereira.

“Foi muito bom. Soltamos foguete e foi uma alegria só”, descreve Patrick.

O acesso à água (Foto: Joaquim Cantanhêde)

“Através da Parceria Público- Privada entre Prefeitura de Pedreiras, Secretaria de Meio Ambiente e CAEMA realizamos, não vou dizer sonho, pois é um direito de todos, mas esse feito, que é nossa obrigação. Muitos passaram e não fizeram. Reunimos o conselho de Meio Ambiente, a pedido do prefeito. Fomos à gerência estadual da CAEMA, em São Luís (MA). Foi feito um estudo e com ele obtivemos alguns resultados. Disponibilizamos os equipamentos (bomba de pressão) para que a água chegue na comunidade”, explica Francisco Flávio, mais conhecido como “Cacimbão”, secretário de Meio Ambiente de Pedreiras.

Não é Santa Luzia e nem mesmo São Pedro, o nome em alta por aqui. Ainda que o acesso a água seja um direito humano básico, garantido em lei, o fenômeno nada sobrenatural é recebido pela comunidade com ares de milagre e o “santo” tem nome de santo, “Antônio França”, cuja popularidade entre os moradores é perceptível. Um reflexo dos anos de espera?

O cientista social e educador, Luciano Sousa Melo, professor da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), diz que: “Historicamente, nossa sociedade foi construída sob pilares de profunda desigualdade social. Associada a essa estrutura, outra não menos nefasta é a do autoritarismo político compreendido como desrespeito aos direitos fundamentais de todo ser humano como, por exemplo, saúde, educação e habitação. Na ausência de uma democracia de direitos, desenvolveu-se o clientelismo. A política como expressão da troca de favores entre o líder político e a população excluída e não como vivência da democracia e do reconhecimento dos direitos que garantem a dignidade humana. Já na formação da sociedade brasileira, as relações entre grandes senhores de terra e homens livres estavam pautadas nessa subserviência da população em troca de parcos benefícios”.

Jamile do Rosário Lima e seu pai, Jaime Lima dos Santos (Foto:Joaquim Cantanhêde)

Se o “milagre” terá mão dupla os próximos meses dirão. O fato é que sem água não veríamos o carpinteiro Jaime Lima dos Santos (40 anos) lavando sua moto na porta de casa. Terminada a tarefa, é sua filha, Jamile do Rosário Lima, que se apodera da mangueira. A água que percorre sua face parece lavar também sua alma. Antônia Eduarda, por sua vez, já não acorda às 3h da madrugada para carregar água.

Longe do morro fala-se em obra com fins eleitoreiros e há quem indague: a água chegou na hora certa para quem?

“Acho que obra eleitoreira é quando você está em campanha, prometendo que se ganhar fará. Isso foi um cumprimento do dever do gestor para com aqueles mais necessitados. Estamos levando pela necessidade. O voto é livre! Eles votam em quem quiser”, argumenta o secretário Francisco Flávio.

Por Joaquim Cantanhêde

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Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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