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quinta-feira, julho 18, 2024

Quem mandou matar Marielle?

Já se passaram Já se passaram quatro anos desde que a execução de Marielle Franco e seu motorista, Anderson Pedro Gomes, chocava um Brasil já em convulsão. Teve-se, neste caso, um sinal claro de que o país debandava para o desconhecido, mas que se percebia não ser bom. Quatro anos depois, diante dos desdobramentos das investigações, uma pergunta permanece: quem mandou matar Marielle Franco? Divido, em minha coluna no jornal O Pedreirense, um texto com reflexões que fiz naquele ano. Nossa democracia jamais estará inteira enquanto essa resposta não for definitivamente respondida.


“Quem mandou matar Marielle?”. Acesso o WhatsApp e me deparo com esta pergunta no status de um amigo. Entro nas redes sociais, Marielle ali, Marielle aqui. Fiquei sabendo de sua morte ontem, em um ao vivo durante no intervalo de um telejornal. Tudo leva a crer ter sido execução, seis dias após o 8 de março, dia em que muitos comemoram – como se fosse fácil ser mulher no Brasil. Acordei e procurei novas informações sobre o caso. A sensação, até aqui, é de que paramos em 2005. Para ser mais preciso,12 de fevereiro, às 7h30 da manhã.

Treze anos depois, quem em tamanho pessimismo imaginaria ver “o futuro repetir o passado”? O Brasil que enterrou a irmã Dorothy Stang, executada em uma estrada de terra em Anapu, no Pará, há de jogar terra sobre o caixão de Marielle Franco, assassinada ontem, num Rio de Janeiro sob Intervenção Federal. No jogo frio do cálculo, os dados são uma espécie de vida pós morte. Segundo o Portal G1, números de 2017 mostram que “onze mulheres são assassinadas todos os dias, em média, no Brasil”, um aumento de 6,5% em comparação a 2016.

Vidas ceifadas. Uma delas dialogava na Lapa, minutos antes, sobre “Jovens Negras Movendo as Estruturas”. Marielle, jovem negra, que dentro de uma estrutura será movida, enterrada, calada? Acredito e espero que não. Ainda que pela comoção do fato, várias manifestações estejam sendo organizadas pelo país e que se leve adiante. “Não é hora de rede social, é hora de rua”, acaba de dizer um jornalista que comenta o fato na TV.

Intervenção Federal, moradores de comunidades sendo fichados, Marielle (PSOL) morta. O que mais falta para ser sacramentado o definhar de nossa tão cambaleada democracia, eleger Bolsonaro? Antes de qualquer coisa, é preciso ir a fundo e perceber que a morte desta protagonista social não é um fato isolado. É recorte de um quebra-cabeça complexo, que geograficamente não se limita ao morro. Aliás, aproveito e exponho aqui um questionamento: o problema do Brasil são os morros? A raiz de toda essa violência, que se vivencia nacionalmente, tem como embrião os morros e favelas? E o Planalto, os palácios, os acordos e conchavos. Marielle era, antes de tudo, ativista. Numa posição forte contra as opressões, incluindo a violência fardada do Estado, aquela exercida por quem, em discurso, diz que veio trazer “paz”. Quantos corpos mais se levará em troca?

Afinal, quem mandou matar Marielle? A investigação segue e cabe à justiça a elucidação transparente dos fatos. No mais, segue-se podando um problema de raízes profundas. O Estado sobe os morros, faz propaganda, mas teme cortar o “mal” pela raiz, pois isso pode ser um tiro no próprio pé.

Há outro culpado. O poder em sua faceta mais corrupta e ordinária. Didático foi Antônio Bonfim Lopes, vulgo Nem da Rocinha, numa entrevista publicada ontem pelo El País. “Você acha que não tem corrupção no Exército? Eu me lembro que alguns militares falavam pros nossos soldados: ‘poxa, não fica com fuzil na rua não, esconde isso porque depois a gente leva bronca do sargento”. O Estado é assassino no momento em que se omite e no momento em que nos rouba, não só os bilhões, mas um quinhão de sonhos.

“Você acha que os políticos não sabem como resolver o problema da violência?”, questiona Nem, que cumpre penas que somam mais de 96 anos de reclusão numa penitenciária federal de Porto Velho, em Rondônia.

E pensar que numa das estrofes de nosso hino somos estimulados a dizer, “dos filhos deste solo, és mãe gentil”. Meu xará Joaquim Osório certamente trocaria o gentil por hostil sob o risco de ser morto. Assim cambaleia a república, para os corruptos destinam-se os infindáveis recursos e instâncias, para os magistrados, já bem pagos com relação a outras categorias, se discute auxílio-moradia. Para os demais brasileiros, o que sobra? As boias, as filas, o salário mínimo, desigualdade social, reforma da previdência e para quem não se conformar, sobram as balas, seis, sete, oito…

Por Joaquim Cantanhêde, jornalista

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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