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domingo, abril 14, 2024

Pobreza Menstrual: um sintoma da desigualdade social

A primeira menstruação a gente nunca esquece, principalmente se ela vem acompanhada de algum trauma profundo em nossa vida. Mas de fato a primeira menstruação já é um grande trauma, quando não estamos preparadas psicologicamente, pois a partir dela, o sentimento é de caminhar rumo a uma adolescência totalmente desconhecida, ter que lidar com um corpo estranho, mensalmente, durante alguns dias, entre as nossas pernas, e aos poucos, deixar a melhor fase da vida – a infância- para começar a lidar com os imprevistos do ciclo menstrual, como uma mancha indesejada de sangue na roupa e principalmente, carregar a sensação de uma parte da nossa ‘inocência’ ir embora. Sim! Essa sensação faz parte do pacote quando, precocemente, encaramos algo que é sobre as partes íntimas do nosso corpo- mas isso, a educação sexual e a psicologia explicam-.

Por muito tempo, o papo “menstruação” versava (e em alguns pontos ainda versa) o tabu e limitava-se somente às mulheres, não de forma coletiva, porque até mesmo nós, lidávamos com a menstruação de forma individual e ainda hoje é assim para muitxs. Mas o fato de naturalmente sangrarmos todo mês, normalizou um problema pouco ou quase nunca mencionado em nosso cotidiano, mas que, pasmem, nos últimos dias entrou no topo dos assuntos mais comentados do twitter, que é a Pobreza Menstrual. Pois é, há mais tabus na menstruação do que a gente possa contar, e nesse texto, iremos nos debruçar sobre este.

É no período menstrual que, muitas vezes, enfrentamos a intensidade dos nossos sentimentos. Lidar com a insegurança e a vergonha nas mais diversas situações do cotidiano é um dos desafios da menstruação. Outro sentimento é a busca pela independência financeira. Você, em algum momento da vida, projetou uma cena em que pede dinheiro a alguém para comprar o seu absorvente, e na mesma hora percebe o quanto isso pode ser constrangedor, mas você também já parou para imaginar quantas mulheres e homens trans passam por essa situação e pior ainda, às vezes, não tem a quem recorrer para conseguir produtos básicos de higiene menstrual.

Para entender a Pobreza Menstrual, a obstetra humanizada, Marcela Mc Gowan utilizou as redes socias para explicar o tema em prol de uma campanha que visa combater esta problemática, através da arrecadação de produtos de higiene menstrual. A campanha deu-se em alusão ao Dia Internacional da Dignidade Menstrual, que aconteceu no dia 28 de maio. Marcela apresentou a seguinte situação: “você está menstruada e não tem acesso a nenhum produto básico de higiene menstrual. Não tem absorvente, não tem coletor, não tem água encanada. O que você faria? Agora imagina passar por isso todas as vezes que você menstruar… é isso que a gente chama de Pobreza Menstrual”, exemplificou.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatítica (IBGE), do ano de 2019 apontaram mais de 13 milhões de pessoas vivendo na linha da pobreza extrema. Atualmente, em meio à crise da covid-19 esse número mais que dobrou para 27 milhões, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas. Em meio a essa desigualdade, uma em cada quatro adolescentes no Brasil não tem acesso a absorvente. Cerca de 20% das pessoas que menstruam não tem acesso a água em suas residências são dados do relatório Livre para Menstruar, produzido pelo movimento Girl Up, com apoio da Herself.

Família em situação de rua (fonte: Todas Fridas)

Esse problema vai muito além da falta de dinheiro, envolve saúde pública, evidencia a falta de saneamento básico, políticas públicas e principalmente carência de visibilidade menstrual na sociedade. São problemas reais que dentro da nossa bolha não damos espaço, mas do lado de fora, a observação da realidade torna-se um ato poderoso. Se olharmos para as ruas veremos pessoas ocupando bancos das praças, viadutos, as calçadas como moradia, parte dessas pessoas são mulheres que sagram mensalmente e sobrevivem sem acesso a esses itens tão importantes para a saúde íntima e essa necessidade é direito básico.

Nas redes sociais, muitos internautas demonstraram desconhecimento sobre o assunto, o que gerou muita reflexão. “Toda essa campanha da pobreza menstrual me impactou muito! Nunca tinha parado pra pensar nisso, parecia tão “simples” e comum ter absorvente em casa. Porém a realidade fora da minha bolha é bem diferente, meninas deixando de ir pra escola por estarem menstruadas, chocante!”, comentou uma internauta.

Atualmente há uma maior mobilização centralizada nesta pauta, além de campanhas para a arrecadação de produtos, há também iniciativas pela democratização do acesso a uma menstruação digna. Em algumas cidades do Brasil, como Rio de Janeiro e São Paulo, parlamentares estão trabalhando em projetos de lei que visam distribuir absorventes em locais públicos, como ocorre com preservativos. São projetos e mobilizações que precisam chegar nos quatro cantos do país, nas escolas, nos abrigos, nas ruas, na periferia. Higiene menstrual é um direito de todxs. Mais que necessidade, é dignidade!

*Todxs* Linguagem inclusiva utilizada para referir-se ao sexo masculino e feminino em sua forma generalizada.

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Mayrla Frazão
Mayrla Frazãohttps://www.opedreirense.com.br
Jornalista - Centro Universitário de Ciências e Tecnologia do Maranhão (UniFacema)
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