Pedreiras, já é tempo de reconstruir?
Construído sob a premissa de sanar a falta de água em diversas ruas do bairro Engenho, o poço artesiano da Rua São Pedro apresenta hoje um cenário bem distinto daquele exibido durante a inauguração, que contou com a presença do governador Carlos Brandão, em 8 de novembro de 2025.
Longe dos ângulos controlados das fotos institucionais, os moradores convivem com percalços que surgiram junto à nova fonte de abastecimento. Durante os quase nove meses de execução o cotidiano dos residentes foi severamente afetado e os problemas persistem, uma vez que a obra permanece inacabada.
“O processo do poço foi muito difícil, muito barulho, não conseguimos nem assistir uma televisão, muita sujeira.” relata uma moradora (fonte B) da Rua São Pedro, na condição de anonimato.
Moradores relatam a recusa inicial pelas escavações: “não queríamos aceitar, porque essa rua sempre foi esquecida, só enxergaram a rua porque precisavam escavar esse poço”, relatou fonte A, também desejando não ser identificada.
O convencimento, no entanto, veio por meio de um projeto que prometia diversas benfeitorias para a Rua São Pedro. A proposta assegurava que o poço não seria uma estrutura isolada ou geradora de problemas, mas o ponto de partida para a urbanização da área, incluindo pavimentação e a instalação de bancos.
“O secretário (Marcus Brunieri) e o esposo (Fred Maia) da prefeita (Vanessa Maia) vieram aqui, convenceram todo mundo que ia ficar tudo muito bonito, mostraram o projeto, falando que não ia só escavar o poço, que tinha um projeto envolvendo toda a rua. Mostrou o projeto bem estruturado, com infraestrutura da rua, iluminação e tudo mais. Nós acreditamos”, relata moradora (fonte A) que acompanhou o processo desde o início.
A situação da rua reflete uma obra interrompida após a inauguração. Uma das moradoras (fonte A) expressa sua indignação com a interrupção da obra: “Quando o poço ficou pronto, marcaram a inauguração sem nenhuma benfeitoria na rua. Percebemos que tinha algo errado. Haviam colocado os bloquetes, então imaginamos que iam dar continuidade na obra. Mais uma vez fomos enganados. No dia 8 de novembro o secretário veio com o governador e inauguraram o poço, no mesmo momento pararam a obra.”


A percepção de urgência na entrega, segundo os residentes, resultou em execuções precárias, que se tornam evidentes na fragilidade do encanamento e nos vazamentos constantes. De acordo com uma moradora (Fonte A), a equipe da CAEMA já realizou reparos nos mesmos canos cerca de oito vezes, o que gera o acúmulo de lama na entrada da rua.
O ponto mais crítico das queixas reside na qualidade da água. Descrita como salobra e viscosa, a água gera desconfiança, levando muitos moradores a interromper o consumo e a recorrer à compra de galões de água mineral. Áudios com supostas reclamações se espalharam pelo WhatsApp dias após a inauguração.
“Tivemos por 3 vezes na CAEMA em busca de um laudo que comprovasse a qualidade da água do poço e não temos resposta. A última vez que procurei a CAEMA, um funcionário foi muito sincero em dizer que houve uma pressão por parte do município, para que fosse inaugurado o poço e por esse motivo, não deu tempo de fazer o tratamento no poço, que para o tratamento do mesmo, seria necessário de mais 3 meses”, relata a moradora (fonte A).
Diante dos relatos, buscamos esclarecimentos junto às partes citadas. Sobre a suposta “pressão” por parte do município para antecipar o funcionamento do poço, a prefeita de Pedreiras, Vanessa Maia, foi questionada, mas não se pronunciou até o fechamento desta matéria.
Questionada sobre a falta de tratamento prévio, a CAEMA de Pedreiras manifestou-se por meio de José Lima, Coordenador de Operação:
“Em relação à qualidade da água, nós temos um laudo que foi feito antes da limpeza que mostra que a água está dentro dos padrões de potabilidade regido pela portaria 888 do MS, estamos aguardando um laudo pós limpeza. O poço P2 do engenho a água é tratada com cloro, evitando assim contaminação por germes patológicos como coliformes fecais e E-coli, o clorador fica instalado logo após a saída do cavalete do poço”, explicou Lima.
Ao ser questionado se o estudo de qualidade foi realizado apenas após a inauguração do centro de abastecimento e início do abastecimento para o bairro, o coordenador confirmou. Sobre os reparos na rede, Lima informou que os vazamentos ocorrem devido à pressão da água. Segundo ele, essa manutenção constante pode, ocasionalmente, conferir uma coloração amarelada à água percebida pelos moradores. Sobre o sabor e viscosidade, notada pelos moradores, o coordenador tranquiliza: “A partir do momento que tu passa para um consumo de água onde o tratamento é através de poços, é claro que a água muda. A água não é a mesma. A água subterrânea vem com uma porção de minerais.”
Solicitamos o acesso aos laudos de potabilidade citados, datados em 19 de dezembro de 2025 e 14 de janeiro de 2026, ambas as amostras analisadas estão dentro dos padrões esperados para o consumo seguro da água.


O secretário de Infraestrutura do município, Marcus Brunieri, também foi consultado sobre a interrupção da pavimentação. No entanto, não houve retorno às tentativas de contato até o fechamento desta reportagem.
Citado diretamente pelos moradores como um importante articulador do projeto, o deputado Fred Maia também foi consultado. Em resposta, ele minimizou as críticas à infraestrutura e à qualidade da água, focando apenas na entrega da fonte de abastecimento, sem prestar esclarecimentos sobre a retomada das obras de urbanização pendentes.
“Quando tiver pronto vocês vão ver. O mais difícil foi feito, que foi o poço. Por sugestão vão lá no morro e fale com as famílias que estavam a 30 anos sem água e hoje tem” afirmou o deputado.
Apesar da sugestão de focar em outros pontos do bairro, para quem vive na Rua São Pedro, local onde o poço foi construído, sua instalação não significou o fim dos problemas, mas o início de novos custos e frustrações. Uma das moradoras (fonte B) resume o sentimento da comunidade: “Depois do poço a única coisa que melhorou foi só a água que tem todo dia, mas por outro lado a água não está boa pra beber estou comprando água porque essa água não consigo beber. Agora estamos sem infraestrutura adequada, muita lama e muitos transtornos com esses vazamentos.”


À medida que os dias passam, as promessas que marcaram o início do projeto parecem cada vez mais distantes. Com a chegada do período chuvoso, a precariedade da rua se intensifica, elevando o risco de quedas de pedestres e de veículos atolados na lama que se formou justamente onde deveriam estar os blocos, hoje esquecidos ao canto da via.
Por: Cleyse Guimarães






