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Pedreiras
quinta-feira, julho 18, 2024

O último mergulho de Pequapá

A força da oralidade popular


Dona Antônia Frazão sabe de coisa. Os cabelos brancos me lembram pastagens regadas pelo vento das memórias. Me atrevo a dizer que ela é a forma humana da famosa biblioteca de Alexandria, mas o que sabe não está no papel. Tão ocupada, para os afazeres a fim contar-me uma história, que não tem cheiro de livro, mas de cuxá, iguaria tradicional da cozinha maranhense.  

Pedreiras, Maranhão, tem suas lendas urbanas. Saberes partilhados de boca em boca na pressa do cotidiano. Conhecimento dos antigos, que feito um tronco enraizado, ante a ação dos homens e do tempo, resiste.

Dona Antônia “pegou-me pela mão” e levou-me a um episódio marcante. O último mergulho de uma das figuras mais emblemáticas de nossa história, aquela que tem o dialeto do povo. Um homem com ares de folclore. Pequapá, apelido atribuído a Raimundo Pires, de quem é dito “o teu mergulho é vida”, no clássico da Música Popular Pedreirense, Linha Imaginária. É fácil ser Michael Phelps. Quero ver é ser Pequapá nas águas barrentas do velho Maerim, recuperando anéis, cordões e o diabo a quatro.


“Na Itália, esteve na linha
de frente como pracinha.
E, segundo me foi dito,
regressou a Teresina,
doido e entregue à própria sina,
quando acabou o conflito”

Poeta Kleber Lado, imortal da Academia Pedreirense de Letras (APL), sobre um passado que tanto se desconhece.


Aqui, como tantos que perambulam por nossas ruas, foi atravessado por uma realidade socialmente vulnerável. A ponte Francisco Sá era seu teto.

O rio, naquela época, ocupava maior importância econômica, fazendo orbitar, em torno de si, estruturas sociais e políticas dos municípios que banhava. Era uma das grandes “estradas” que cortavam o Maranhão.

O ir e vir de pessoas e mercadorias se davam em batelões, que por vezes afundavam. Numa dessas ocasiões, Pequapá fora requisitado por seu Pedro Lopes, cujo sacos de coco babaçu, trazidos para serem vendidos, achavam-se no fundo do rio, nas proximidades da Pedra Grande, povoado Transual.  Um mergulho, dois mergulhos, três, até o último saco. Terminado o trabalho, o exímio mergulhador tratara de deixar claro, a seu contratante, que nunca mais faria aquele tipo de serviço, sob argumento de ter visto uma coisa feia, um bicho, que ele não ousou nominar. “Se alagar o batelão eu não mergulho mais não”, diz dona Antônia, reproduzindo o diálogo.  

O que terá visto Pequapá? Ninguém sabe. Talvez tenha dado de cara com a grande serpente, cujas extremidades, dizem os mais velhos, ocupam a Pedra Grande e o Santuário de São Benedito.

Fora das águas, Pequepá se deparou com outro bicho, a “Tuberculose”, que o levou de vez para as profundezas da terra.  

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