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domingo, abril 14, 2024

O que há de global na globalização, em tempos pandêmicos?

O atual processo de globalização difere em muito de suas origens por volta dos séculos XV e XVI. Isso se deve à própria concepção do que se entende por território no passado e na contemporaneidade, onde se tem um extraordinário progresso das ciências e das técnicas. A própria definição de globalização evoluiu e tomou contornos diferentes nos séculos posteriores à sua origem. A relação entre globalização e território é prenhe de conexões. Por isso, sabendo que o território é apenas uma das dimensões do espaço geográfico há que se compreender que a sua inserção e apropriação mercadológica o conduziu à sua globalização, porém também produziu com igual intensidade, um efeito colateral que lhe é intrínseco, a sua fragmentação.

Afinal, o que é globalização? E fragmentação? A globalização permanece, mesmo com as barreiras entre os territórios dos países, impostas pela pandemia do coronavirus?

A expressão ‘globalização’ tornou-se popular no final dos anos 1980 para propor a ideia de que vivíamos em um mundo único, igual para todos. Esse período coincide com a desmoronamento da experiência socialista que fazia oposição ao capitalismo. Nesse sentido, os Estados Unidos e seu american way of life surgiram como os representantes desse mundo único, propagando padrões de comportamento e de valores universais.

A “Globalização não é um conceito sério, nós americanos, o inventamos para dissimular nossa política de penetração econômica nos outros países” (disse o prestigiado economista liberal norte-americano John Galbraith, em entrevista à Folha de São Paulo, 02/11/1997). Essa afirmação materializa-se nas centenas de transnacionais estadunidenses que se espalharam pelo mundo em busca de territórios favoráveis ao seu desenvolvimento e acumulação de capital. Não foi por acaso que termos como mercados globais, comunicações globais, migrações globais, ameaça global, aquecimento global, consumo global entre outros se propagaram rapidamente no mundo.

As ciências se apropriaram de definições para globalização à maneira de cada uma, conforme seus objetos de estudo. Isso comprova, quão complexa é uma definição unívoca para o termo. Mas, todas as definições convergem para uma internacionalização e uma liberalização.

Internacionalização e liberalização de quê? Teríamos a quebra das barreiras fronteiriças entre os países e consequentemente uma certa interdependência entre os mesmos. Conforme Hirst & Thompsom (2002, p.247) a globalização diria respeito aos “(…) processos que promovem a interconexão internacional (…) – aumentando os fluxos de comércio, investimento e comunicação entre as nações”. Estes autores ainda acrescentam

(…) a globalização tornou-se um conceito em moda nas ciências sociais, uma máxima central nas prescrições de gurus da administração, um slogan para jornalistas e políticos de qualquer linha. Costuma-se dizer que estamos em uma era em que a maior parte da vida social é determinada por processos globais, em que culturas, economias e fronteiras nacionais estão se dissolvendo. A noção de um processo de globalização econômica rápido e recente é fundamental para essa percepção. Sustenta-se que uma economia realmente global emergiu ou está em processo de emergência e que, nesta, as economias nacionais distintas e, portanto, as estratégias internas de administração econômica nacional são cada vez mais irrelevantes (HIRST E THOMPSON, 1998, p. 13).

De fato, a economia mundial internacionalizou-se e é comandada pelo mercado onde agem seus principais agentes, as corporações transnacionais que representam a si mesmas, independente de seus países de origem. Dessa forma, a expansão transnacional representa também a expansão capitalista, e a tal interdependência suscitada, na realidade mostra-se muito mais numa relação de dependência entre nações e territórios do que de igualdade entre elas.

O termo e o processo de globalização são marcados por contradições, seja nas suas concepções e características, seja na forma como se materializa nos diferentes espaços hegemônicos ou não.  Não se trata, portanto, de uma estrada de via única. O aumento das desigualdades internacionais, sociais, econômicas, culturais e tecnológicas; o aumento dos conflitos de toda natureza e a intensificação das lutas sociais por conquista de direitos fundamentais à sobrevivência das pessoas, corroboram o efeito nocivo da expansão capitalista planetária iniciada com as grandes navegações. É evidente que não se quer escamotear as transformações espaciais e sociais trazidas pelo capitalismo, porém este sistema se mostrou ao mesmo tempo capaz de revolucionar suas técnicas de produção e inovação, mas é ineficaz na mitigação de problemas crônicos como a fome na África e América Latina e, na contemporaneidade as diásporas de africanos e asiáticos que se veem obrigados a se refugiarem em terras alheias à sua identidade nacional. 

É notória a ideia falaciosa de igualdade nos dias atuais. O que se tem é o aprofundamento das disparidades já existentes e até o surgimento de outras formas. O Estado, ao se minimizar na gestão de políticas públicas, abriu caminhos para os sistemas privados abocanharem diferentes esferas sociais e econômicas, como saúde e educação, aprofundando a pauperização e diminuição da qualidade de vida da população. São essas situações que somadas a outras evidenciam um mundo global fragmentado. Há, portanto, uma seletividade espacial, capitaneada pelas empresas e pelo grande capital, com a conivência do estado. Há porções territoriais dotadas de informação que “competem vantajosamente com as que deles não dispõe” (SANTOS, 1999, p. 194). O mesmo autor acrescenta que existem aqueles territórios que acumulam densidades técnicas e informacionais e, portanto, se tornam mais aptos a atrair atividades econômicas, capitais e tecnologia. Estes são denominados territórios luminosos. Os espaços onde estas características não são verificadas, são chamados de territórios opacos.

No ano de 2019, mais precisamente em meados de seu décimo segundo mês, o mundo se deparou com algo inimaginável, pelo menos nos meios alheios à pesquisa científica, um outro surto pandêmico. Lidar com uma pandemia de proporções globais não é algo recente na história.  Foi assim com a Gripe Espanhola (1918), quando as mortes atingiram entre 20 e 50 milhões de pessoas. No Brasil foram 35 mil óbitos. No mês em curso (setembro/2020), já ultrapassamos os 120 mil óbitos em decorrência da Covid-19.

Conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), Pandemia é um termo usado para uma determinada doença que rapidamente se espalhou por diversas partes de diversas regiões do planeta, através de uma contaminação agravada não só pela doença em si, mas pelo seu poder de contágio e sua proliferação em escala geográfica.  Assim para que uma doença seja classificada como pandêmica é necessário que se verifique na mesma, a sua capacidade  de infectar um grande número de pessoas de modo simultâneo, a partir de um epicentro, como é o da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV-2), que começou em Wuhan, cidade de pouco mais de 11 milhões de habitantes, localizada  na província da China central. É um centro comercial, dividido pelos rios Yangtzé e Han.

Diante do exposto cresceram os debates e as especulações pessimistas acerca do final da globalização, pelo menos da forma como a mesma se propagara até então. “O mundo será instável, compartimentado e suas partes sob suspeita mútua. Haverá empobrecimento geral e desaceleração tecnológica. Se antes havia sincronia e concerto, agora haverá assincronia e desordem. Navegação em águas turbulentas. Bem-vindos ao século XXI”, escreve Toni Timoner, especialista em cenários de risco global em uma instituição financeira de Londres, em artigo publicado por Letras Libres, 13/03/2020.

Viagens canceladas, restrições aos estrangeiros, armazenamento exagerado de comida e de outros mantimentos, governos agindo por conta própria no combate à doença. Outros conspirando contra as medidas de contenção da doença defendidas e decididas em protocolos internacionais. Em meio a tudo isso, o discurso de “salvação da economia” se fortaleceu e passou a ocupar lugar de destaque no período pandêmico, em detrimento das milhares de vidas perdidas. Mas, o cenário econômico internacional, embora continue dominado pela mão invisível do mercado, trará como vitoriosos aquelas economias nacionais que fizeram o seu dever de casa, que souberam gerenciar de forma correta a crise sanitária. Coréia do Sul e China estão entre essas nações. Talvez pelo rigor estatal (aqui não defendo regimes autoritários e antidemocráticos), mas na atitude reforçada de disciplina coletiva, sem o culto ao individualismo, típico das culturas e democracias ocidentais.

Outras discussões internacionais parecem ter sido colocadas de lado, fato que conduz ao tal pessimismo em relação à globalização. É o caso por exemplo das questões ambientais (deixadas de lado), da redução da produção industrial que teve seu ciclo natural de produção, circulação e consumo, atingido de cheio. Se as famílias não saem de casa (muitas sem rendas), não há consumo. Se não há consumo, por que produzir. Se não há produção, há desemprego.

Porém esse cenário não deve ser visto de forma tão catastrófica assim. Grandes conquistas da humanidade, ocorreram em momentos de crise e pós-crise como esse em que estamos vivendo. Aliás, as crises tendem a acelerar o movimento da história. Produções e descobertas que, em situação normal, levariam algumas décadas para acontecerem, podem agora ocorrer em poucos dias ou até horas. Afinal, a história é feita pelos homens e pelas suas inúmeras ações e escolhas.

De fato, daquele primeiro caso de Covid-19 na China ao último brasileiro morto, muitas são as atitudes e previsões futurólogas da história e da globalização. São apenas 8 meses de pandemia. A globalização ao que parece já beira os seus 600 anos de história. Mas, algumas lições ficarão. A preocupação com investimentos em educação, ciência, tecnologia e saúde exigirão maiores reservas financeiras. A solidariedade, a preocupação com o outro, independente de nacionalidade, rompem as barreiras e os muros que separam as nações.

A globalização em curso ainda está indefinida. Vive o seu (unknown unknowns) desconhecido. Que digam nós os professores. Tivemos que nos “virar nos 30”, nos reinventamos. De uma hora para outra viramos aprendizes de certas ferramentas até então ainda distantes de nós. Estamos utilizando plataformas on-line, muitas compradas por nós mesmos ou pelas escolas, aulas síncronas e assíncronas em redes sociais, o Google Classroom, grupos de Whatsapp e alguns outros. 

Por fim, é importante destacar que todas as crises pelas quais passou a humanidade, foram acompanhadas de transformações e novas formas de pensar e agir. Santos (1991) em sua célebre “criação” (Por Uma Outra Globalização: Do pensamento único à consciência universal), considera a existência de pelo menos três mundos num só. O entendimento de como seriam esses mundos passa pela compreensão do que é a globalização, e, por isso o autor identifica os mundos de acordo com a percepção, com a realidade e com a possibilidade.

A percepção que se tem é de um mundo como fábulas. Santos (2000) afirma que “a máquina ideológica que sustenta as ações preponderantes da atualidade é feita de peças que se alimentam mutuamente e põem em movimento os elementos essenciais à continuidade do sistema”. Fala-se em aldeia global, como se o mundo fosse único. É o mito do encurtamento das distâncias, do tempo vencendo o espaço. De fato, para alguns isso é verídico, mas para muitos as diferenças e as distancias se tornaram abissais.

A realidade que se ver é a perversidade desenfreada à qual milhares de pessoas são submetidas diariamente em todo o mundo. Para santos (2000)

O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes. Novas enfermidades como a SIDA se instalam e velhas doenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno triunfal. A mortalidade infantil permanece, a despeito dos progressos médicos e da informação. A educação de qualidade é cada vez mais inacessível. Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos, a corrupção (SANTOS, 2000, p. 9).

É evidente que a perversidade é sistêmica e inerente à própria humanidade, marcada pela competição desenfreada e pela a busca incansável por hegemonias. Essa é a globalização tal como a vemos nos dias atuais.

Por fim a possibilidade de um novo mundo globalizado, porém mais humano. Isso seria possível a partir da apropriação do conhecimento e das técnicas outrora, utilizadas para oprimir e desinformar. Agora elas seriam apropriadas de outra forma e com outras possibilidades. Aqui a geografia se agiganta, pois, as migrações e consequentemente a mistura de povos, de culturas e filosofias podem reconstruir as bases da sobrevivência e da resiliência na escrita de uma nova história.

Por José Edson da Silva Barrinha, licenciado em Geografia, Especialista e Mestre em Geografia pelo PPGGEO/UFPI. Coautor do livro Organização Espacial de Teresina. Professor efetivo de Geografia do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) – Campus Pedreiras.


REFERÊNCIAS

HIRST, Paul e THOMPSON, Grahame. Globalização em Questão. 2ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1998.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Os Processos da Globalização. In.: SANTOS, Boaventura de Sousa(org.). A Globalização e as Ciências Sociais. 2ª ed. São Paulo: Cortez Editora, 2002. p. 25-101.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: espaço e tempo: razão e emoção. 3. ed. São Paulo: HUCITEC, 1999. _______, Milton. POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000. 174 p.

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